“Se Lourdes fosse homem, já teria sido reconhecida”: homenagem revisita obra e atualidade da dramaturga
Edição especial do programa Gente Nossa celebrou o centenário de Lourdes Ramalho e mostrou como teatro, cordel, oralidade e música transformaram experiências populares em crítica social
A mesa da cozinha estava posta com café, bolo e outras comidas quando Lourdes Ramalho recebeu o jornalista Saulo Queiroz para uma entrevista. Recuperada anos depois pelo programa Gente Nossa, a cena revela mais do que uma escolha de cenário: mostra uma dramaturga que fazia da conversa, da escuta e da vida cotidiana fontes permanentes de criação.
A entrevista de arquivo integrou a edição especial do programa dedicada ao centenário de Maria de Lourdes Nunes Ramalho, realizada em 5 de outubro de 2020. Transmitida pela TV Nordestina e pelas plataformas digitais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), a homenagem reuniu depoimentos, interpretações, registros audiovisuais e análises da obra da escritora, falecida em 2019, aos 99 anos.
O programa fez parte da abertura do 17º Seminário Os Festejos Juninos no Contexto da Folkcomunicação e da Cultura Popular. Realizado de 5 a 7 de outubro, o encontro teve como tema “Desafios e resistências das festas populares em tempos de crise” e, devido à pandemia de Covid-19, ganhou pela primeira vez um formato inteiramente virtual. A edição também marcou os centenários de Lourdes Ramalho e Celso Furtado, o primeiro aniversário da TV Nordestina e os 70 anos da televisão brasileira. Confira a programação divulgada pela UEPB.
Apresentado por Inaldete Almeida e Geisa Viana, o especial contou com a participação de Saulo Queiroz; da professora e pesquisadora Joseilda Diniz, então curadora de Literatura de Cordel do Museu de Arte Popular da Paraíba; e de Antonio Guedes Rangel Júnior, então reitor da UEPB, músico e responsável pela musicalização de montagens da autora.
A homenagem também exibiu depoimentos e interpretações de artistas como Eneida Maracajá, Walter Tavares e José Maciel. O resultado foi menos uma celebração protocolar e mais uma leitura coletiva da trajetória de uma mulher que encontrou, nos falares populares, nas feiras, nos conflitos sociais e na memória familiar, a matéria de sua dramaturgia.
Uma autora formada pela oralidade
Nascida em 23 de agosto de 1920, em Jardim do Seridó, no Rio Grande do Norte, Lourdes Ramalho cresceu em uma família de educadores, artistas, poetas, cordelistas e cantadores. Em sua formação, a literatura não aparecia separada da fala, da música ou da experiência comunitária. Histórias familiares, expressões antigas, versos, cantorias e narrativas transmitidas entre gerações formaram um repertório que ela levaria para o teatro.
Lourdes mudou-se para Campina Grande em 1958. Professora e pedagoga, desenvolveu atividades relacionadas à educação pela arte e passou a ocupar um lugar decisivo na formação teatral da cidade. Sua ligação com o palco, porém, começara muito antes.
Na entrevista recuperada pelo Gente Nossa, ela contou que, aos 15 anos, foi expulsa da escola depois de escrever e encenar uma peça crítica à própria instituição. O episódio antecipa uma característica que atravessaria sua produção: a recusa em tratar o teatro apenas como entretenimento ou ornamentação.
Obras como As Velhas, Fogo-Fátuo, A Feira, O Romance do Conquistador, Festa do Rosário, Doidos de Santidade, Viagem no Pau-de-Arara e Charivari transformam questões políticas e sociais em conflitos dramáticos. Relações de trabalho, concentração de poder, pobreza, religiosidade, exploração econômica e desigualdades entre homens e mulheres aparecem sem que as personagens sejam reduzidas a ilustrações de uma tese.
O vínculo com o Nordeste, portanto, não significava limitar a obra ao pitoresco. Para Rangel Júnior, Lourdes partia das experiências próximas para alcançar conflitos humanos mais amplos. Sua dramaturgia mantinha “os pés no chão” da cultura regional, mas não permanecia encerrada nela.
Essa perspectiva ajuda a compreender A Feira. Inspirado na Feira Central de Campina Grande, o texto incorpora pregões, cantorias, tipos humanos, relações de trabalho e formas populares de sociabilidade. A feira não aparece somente como cenário colorido ou patrimônio idealizado. Torna-se um espaço no qual se revelam disputas econômicas, hierarquias, estratégias de sobrevivência e formas de resistência.
Mulheres que recusam o silêncio
A presença de personagens femininas fortes foi um dos pontos destacados no programa. Segundo Joseilda Diniz, essas mulheres carregam muito da coragem e da determinação da própria autora. Elas enfrentam estruturas familiares, sociais e religiosas que pretendem controlar seus corpos, seus desejos e suas decisões.
A construção dessas personagens também evidencia a desigualdade vivida por Lourdes no campo cultural. Apesar da extensão, da qualidade e da relevância de sua produção, seu reconhecimento permaneceu inferior ao concedido a dramaturgos homens de sua geração.
Saulo Queiroz sintetizou o problema de forma direta: “Se Lourdes fosse homem, já teria sido reconhecida devidamente”.
A afirmação não reduz a importância de autores consagrados, mas questiona os mecanismos pelos quais o cânone é construído. Quando uma dramaturga é classificada apenas como “regional”, enquanto escritores homens que trabalham com repertórios semelhantes recebem projeção nacional, a diferença não se explica somente por critérios estéticos.
A homenagem mostrou que Lourdes não escrevia sobre uma ideia abstrata de mulher nordestina. Suas personagens revelam diferentes experiências femininas, marcadas por geração, classe social, religiosidade, trabalho, violência e desejo de autonomia. Nelas, o cotidiano doméstico também pode se transformar em espaço político.
Essa dimensão permanece atual porque a resistência presente na obra não deve ser compreendida como qualidade automática de tudo o que é popular. Ela nasce do modo como Lourdes organiza os conflitos, expõe as relações de poder e permite que personagens frequentemente silenciadas ocupem o centro da narrativa.
Cordel e teatro não estavam separados
Outro aspecto ressaltado foi a relação entre dramaturgia, cordel e música. Em Lourdes Ramalho, essas linguagens não aparecem apenas como elementos decorativos. Elas interferem na estrutura dos textos, no ritmo das falas e na criação das personagens.
Rangel Júnior recordou sua experiência com Charivari, espetáculo em versos no qual música e dramaturgia se desenvolveram de maneira integrada. Em vez de acrescentar canções posteriormente a uma peça concluída, a montagem procurou escutar a musicalidade que já existia nas palavras da autora.
Essa característica aproxima sua escrita da cantoria, dos folhetos, das histórias orais e dos modos populares de transmitir conhecimentos. Lourdes reconhecia nesses repertórios uma forma própria de interpretação do mundo, e não simplesmente uma matéria-prima a ser recolhida por uma cultura considerada superior.
A perspectiva é importante para entender a relação da homenagem com a folkcomunicação. A obra de Lourdes não precisa ser classificada automaticamente como “folkcomunicacional”. O processo aparece principalmente na circulação: narrativas familiares, expressões regionais, versos de cordel e vozes das feiras passam para o texto teatral, chegam ao palco e são novamente transformados pela televisão, pelo audiovisual, pelo rádio, pelo livro e pelas plataformas digitais.
Em cada passagem, os sentidos podem ser ampliados, disputados ou simplificados. A mediação televisiva tanto pode aproximar novos públicos quanto transformar a cultura popular em produto nostálgico e desprovido de conflito. O Gente Nossa evitou essa redução ao relacionar a produção de Lourdes às desigualdades, às questões de gênero e às disputas sociais presentes em seus textos.
Um arquivo construído coletivamente
Criado e coordenado pela professora Goretti Sampaio, o Gente Nossa é um programa de extensão em Jornalismo Multimídia da UEPB dedicado à memória de artistas da Paraíba. No especial, a trajetória de Lourdes foi reconstruída por meio de entrevistas, cenas teatrais, leituras, músicas, manuscritos e depoimentos de pessoas que conviveram ou trabalharam com ela.
Uma das experiências recordadas foi a exposição “Os Ramalho da Paraíba”, realizada em 2017 pelo Museu de Arte Popular da Paraíba. A mostra reuniu materiais relacionados a Lourdes, Elba, Zé e Luiz Ramalho, entre eles manuscritos, livros, registros familiares e versões de textos teatrais. A exposição foi apresentada pela UEPB como um percurso pelas diferentes manifestações artísticas da família.
Joseilda Diniz relatou que Lourdes demonstrava pouco interesse pela exaltação pessoal. Sua preocupação era fazer os textos circularem. Ela entregava materiais, colaborava com pesquisadores e desejava ver suas peças nas escolas e nos palcos. A ausência de vaidade, contudo, não deve ser confundida com falta de consciência sobre o valor de sua produção.
O programa também apresentou trechos do audiolivro de Viagem no Pau-de-Arara, realizado com a participação de estudantes da UEPB. A iniciativa exemplifica como a extensão universitária pode devolver uma obra ao público em novos formatos, criando outras possibilidades de acesso sem apagar sua oralidade.
Naquele outubro de 2020, essa circulação tinha uma importância adicional. A pandemia havia fechado teatros, interrompido festas e retirado de artistas populares grande parte de suas possibilidades de trabalho. A internet tornou-se espaço de apresentação e reencontro, mas o acesso desigual às tecnologias continuou limitando quem podia produzir e acompanhar esses conteúdos.
A parceria entre a UEPB e a TV Nordestina permitiu que a homenagem ultrapassasse os limites físicos da universidade. Ao mesmo tempo, a experiência demonstrou que disponibilizar uma transmissão não resolve, por si só, as desigualdades culturais e digitais. Preservar uma memória requer pesquisa, contextualização, acesso público e continuidade.
Reconhecimento e disputa de memória
No ano do centenário de Lourdes Ramalho, a UEPB aprovou a concessão póstuma do título de Doutora Honoris Causa à dramaturga. A universidade justificou a homenagem pela contribuição da autora ao teatro, à literatura e à cultura brasileira. A concessão foi aprovada pelo Conselho Universitário em 2020.
O reconhecimento institucional, embora importante, não encerra a disputa por sua memória. O desafio continua sendo fazer com que os textos circulem, sejam montados, estudados e confrontados com o presente. Celebrar Lourdes somente como símbolo regional corre o risco de neutralizar justamente aquilo que torna sua obra incômoda: a capacidade de transformar fala popular em crítica às relações de poder.
Ao reunir pessoas que trabalharam com a autora, o Gente Nossa mostrou que sua dramaturgia permanece viva não porque ficou preservada de qualquer mudança, mas porque continua encontrando novos meios, intérpretes e públicos.
Entre a cozinha, a feira, o cordel, o palco e a tela, Lourdes Ramalho construiu uma literatura enraizada na experiência coletiva. Retomar essa obra em meio a uma crise sanitária, econômica e cultural significou reconhecer que os conflitos denunciados por ela — fome, exclusão, desigualdade e silenciamento — não pertenciam somente ao passado.
A homenagem terminou, mas deixou uma tarefa: retirar Lourdes Ramalho da posição restrita de autora “regional” e compreendê-la como uma das grandes dramaturgas brasileiras do século XX.





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