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“O público precisa falar, emitir suas mensagens e ser reconhecido”: mesa debate folkcomunicação, mídia regional e representação

27 de ago.
8 min de leitura

Encontro realizado em 2018 reuniu Maria Érica de Oliveira Lima, Bruna Franco Castelo Branco Carvalho e Camila Magalhães de Holanda em reflexões sobre cultura popular na TV Diário, fotografias de Alan Kurdi e o direito de grupos e territórios produzirem suas próprias representações


O que aproxima uma emissora que se apresenta como “a cara do Nordeste” da fotografia de uma criança síria encontrada morta em uma praia da Turquia? Embora partam de objetos muito diferentes, as pesquisas apresentadas na mesa “Folkcomunicação e mídia regional” convergiram para uma questão comum: quem tem o poder de construir as imagens pelas quais uma região, uma cultura ou um grupo social será reconhecido?


Realizada em 19 de outubro de 2018, no auditório da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, a mesa integrou a programação do V Colóquio de Economia Política da Comunicação e da Cultura e IV Encontro do EMERGE. O evento teve como tema “A emergência da comunicação comunitária e do ativismo digital por uma sociedade mais democrática”.


Com mediação de Eula Dantas Taveira Cabral, o encontro reuniu as pesquisadoras Bruna Franco Castelo Branco Carvalho e Camila Magalhães de Holanda, então mestrandas do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, e a professora Maria Érica de Oliveira Lima, que participou por meio de um vídeo. A gravação da mesa está disponível no YouTube.


Ao examinar a programação da TV Diário, Bruna questionou os limites da identidade regional criada pela televisão. Camila, por sua vez, analisou a circulação das fotografias de Alan Kurdi e a construção simbólica da crise dos refugiados. Entre uma pesquisa e outra, a discussão mostrou que representar nunca é apenas reproduzir uma realidade: é selecionar vozes, imagens, territórios e modos de vida que poderão ser vistos — ou permanecerão ausentes.


Quem cabe na “cara do Nordeste”?

Bruna Franco Castelo Branco Carvalho apresentou os primeiros resultados da pesquisa sobre regionalismo e cultura popular nordestina na TV Diário, emissora criada em Fortaleza em 1998 e integrante do Sistema Verdes Mares.


A pesquisadora partiu das transformações da própria identidade institucional da emissora, que adotou, em diferentes momentos, expressões como “A TV do Nordeste”, “100% a sua cara” e “A cara do Nordeste”. Mais do que slogans publicitários, essas frases abriram uma questão central para o trabalho: “Será que ela é mesmo a cara do Nordeste? Ela representa o Nordeste inteiro? Ela representa apenas o estado do Ceará?”


A dúvida estava relacionada ao espaço ocupado pelas manifestações populares em uma televisão comercial. Bruna procurava compreender de que maneira elementos como o forró, o humor, as festas, os sotaques, os costumes e as experiências do interior cearense eram incorporados pela programação.


Essa presença poderia contribuir para a valorização da cultura popular e para o reconhecimento do público. Mas também poderia produzir apropriações simplificadoras, transformando a diversidade regional em uma coleção de estereótipos. A comicidade e a chamada “molecagem cearense”, por exemplo, poderiam funcionar tanto como expressão cultural quanto como fórmula utilizada para reduzir o Ceará e o Nordeste a uma única imagem.


A pesquisa colocou em discussão a diferença entre ser uma televisão localizada no Nordeste e produzir efetivamente uma programação regional. “Qual o espaço do regional dentro desse cenário global que nós vivemos hoje?”, perguntou Bruna.


Entre o local, o regional e o nacional

A programação da TV Diário reunia jornalismo, entretenimento, religião, esportes, música e atrações dedicadas a artistas locais. Entre os programas observados estava o Diário Regional, voltado especialmente para o interior, com assuntos ligados à agricultura, às chuvas, ao turismo, às festas e ao cotidiano dos municípios.


Na leitura apresentada por Bruna, esse tipo de conteúdo possibilitava que moradores do interior e pessoas que haviam migrado para Fortaleza se reconhecessem na televisão. O regional não deveria ser entendido apenas como uma divisão geográfica, mas como um espaço formado por vínculos culturais, experiências compartilhadas e sentimentos de pertencimento.


A discussão também recuperou o artigo 221 da Constituição Federal, que estabelece, entre os princípios da programação de rádio e televisão, a promoção das culturas nacional e regional, o estímulo à produção independente e a regionalização da produção cultural, artística e jornalística. O texto constitucional reconhece, portanto, que a diversidade regional deve estar presente nos meios de comunicação.


Durante o debate, o jornalista Marcelo Souza, que se apresentou como integrante da equipe de implantação da TV Diário e primeiro editor do jornalismo noturno da emissora, ofereceu um testemunho sobre essa experiência. “Na TV Diário a gente podia mostrar o que a gente não mostrava na Globo”, afirmou.


Segundo ele, havia assuntos importantes para o público cearense que dificilmente encontravam espaço na programação vinculada à rede nacional. O paradoxo era que o espectador podia conhecer lugares, problemas e personagens do Rio de Janeiro e de São Paulo sem encontrar na televisão referências a bairros, municípios e experiências muito mais próximos de sua vida.


Bruna observou que a mídia local e regional pode reduzir essa distância, embora não esteja livre de interesses econômicos, disputas editoriais e representações estereotipadas. Por isso, a questão não se limita à quantidade de programas produzidos em determinada região. Também é necessário perguntar quem participa dessa produção, quais vozes aparecem e como as práticas populares são apresentadas. “O público precisa falar, emitir as suas mensagens, ser reconhecido”, defendeu a pesquisadora.


Na perspectiva da folkcomunicação e da folkmídia, a presença da cultura popular nos meios de massa envolve uma relação complexa. A televisão pode ampliar o alcance de festas, artistas, expressões e modos de vida antes restritos a determinados territórios. Ao mesmo tempo, pode selecionar, reorganizar e transformar essas manifestações de acordo com suas próprias lógicas comerciais e editoriais.


Quando a fotografia vira o acontecimento

A segunda apresentação deslocou o debate da televisão regional para a circulação internacional de imagens. Camila Magalhães de Holanda analisou três fotografias de Alan Kurdi, menino sírio de três anos que morreu em setembro de 2015 durante a tentativa de travessia de sua família para a Europa.


As imagens do corpo da criança em uma praia próxima a Bodrum, na Turquia, circularam rapidamente pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. Em sua pesquisa, Camila examinou as fotografias e 53 textos publicados pela Folha de S.Paulo durante o mês seguinte à morte do menino. A intensidade da reprodução levou a pesquisadora a formular uma das principais ideias da apresentação: “A fotografia virou o próprio acontecimento”.


Alan Kurdi não foi a primeira criança a morrer durante uma travessia migratória. Entretanto, sua imagem passou a concentrar e simbolizar uma crise muito maior. O menino tornou-se o rosto de milhares de pessoas que fugiam de guerras, perseguições e condições de vida insustentáveis.


Camila ressaltou, porém, que essa força não estava apenas no conteúdo visual da fotografia. A imagem adquiriu sentido por meio de manchetes, textos, enquadramentos, escolhas editoriais e referências culturais acumuladas ao longo do tempo. “Uma imagem não fala por si só; ela precisa que alguém fale por ela. A imagem não fala. Quem fala é o discurso”, explicou.


Uma criança que poderia ser qualquer criança

A análise seguiu uma abordagem iconológica inspirada em Aby Warburg e retomada por Georges Didi-Huberman. O método permite aproximar imagens produzidas em épocas distintas para identificar gestos, formas e memórias que sobrevivem no tempo.


Na primeira fotografia, Alan aparece de bruços na areia. As roupas, os sapatos e a posição aparentemente serena fazem com que ele se pareça com uma criança conhecida, que poderia estar dormindo. A ausência de sangue ou de sinais explícitos de violência não diminui o impacto. Ao contrário, aproxima a cena do cotidiano de famílias que reconhecem naquela roupa e naquele pequeno corpo a imagem de seus próprios filhos.


Outra fotografia mostra um profissional registrando a ocorrência. Camila chamou a atenção para os recortes feitos durante a circulação da imagem: em muitas reproduções, elementos da cena foram eliminados, concentrando o olhar exclusivamente no corpo da criança e aumentando sua carga emocional.


Na terceira imagem, um policial carrega Alan nos braços. O gesto recupera formas visuais associadas à proteção, ao cuidado dos pais com os filhos e até a representações religiosas. A pesquisadora também aproximou a fotografia de obras como Retirantes, de Candido Portinari, em que famílias são obrigadas a abandonar seus territórios e um pai segura o corpo de uma criança.


A posição do policial produzia ainda uma leitura política. “O Estado chegou só agora, quando o menino está morto”, observou Camila. A frase sintetiza a crítica à ausência de políticas capazes de proteger refugiados antes da tragédia. O poder público aparece na fotografia, mas somente para recolher, registrar e transportar um corpo.


“Ainda são crianças”

Durante o debate, Eula Cabral perguntou como o jornalismo deveria tratar imagens de crianças submetidas à violência. Camila defendeu que a cobertura precisa preservar a condição infantil, inclusive quando se trata de crianças acusadas de atos infracionais ou inseridas em contextos de guerra, migração e abandono. “O jornalismo tem que ter mais cuidado, mais zelo com as crianças. Ainda são crianças”, afirmou.


A pesquisadora também relacionou a crise internacional dos refugiados à chegada de venezuelanos ao Brasil, especialmente a partir de 2018. Para ela, receber migrantes não significa apenas permitir sua entrada no país. A acolhida exige políticas de integração, ensino da língua, acesso ao trabalho, saúde, educação e condições para a reconstrução da vida cotidiana.


Nesse ponto, a discussão sobre as fotografias voltou a se encontrar com o tema da mídia regional. Tanto os nordestinos representados pela televisão quanto os refugiados mostrados pelo fotojornalismo correm o risco de serem reduzidos a imagens fixas: o personagem engraçado, o homem rústico, a vítima indefesa, a multidão sem nome. Produzir outras formas de representação implica devolver complexidade e voz às pessoas retratadas.


“A base é o começo; a ideia é avançar”

Em participação gravada, Maria Érica de Oliveira Lima apresentou as duas pesquisas e destacou a importância de atualizar os estudos de folkcomunicação diante das transformações tecnológicas e das novas formas de circulação midiática.


Ao recomendar a leitura dos textos fundadores de Luiz Beltrão, a pesquisadora advertiu que a tradição teórica não deveria ser tratada como um ponto de chegada. “Esse livro é a base, é o começo; mas a ideia é avançar”, resumiu.


A observação ajuda a compreender a própria composição da mesa. A folkcomunicação não apareceu como uma classificação fechada, destinada apenas a identificar manifestações tradicionais. Funcionou como um caminho para pensar relações contemporâneas entre cultura popular, televisão, jornalismo, circulação de imagens e disputas pelo direito de representação.


Os trabalhos apresentados tiveram continuidade acadêmica. A pesquisa de Bruna resultou na dissertação Regionalismo nordestino na TV Diário: a folkcomunicação e a folkmídia na televisão local, defendida em 2019. O estudo concluiu que a TV Diário construiu uma identidade regional fortemente ligada ao Ceará, mas que essa identificação não significava a representação de todo o Nordeste.


As reflexões de Camila foram publicadas no artigo “Refugiados e fotografia: uma análise iconológica das imagens de Alan Kurdi”, na revista Passagens. O texto aprofundou o modo como as fotografias se tornaram símbolos da crise dos refugiados e ajudaram a organizar a percepção pública do acontecimento.


Ao encerrar a discussão, Eula Cabral retomou o problema da redução dos espaços locais e regionais nos grandes meios de comunicação. Pesquisar essas ausências, reivindicar novos espaços e produzir narrativas próprias seriam maneiras de enfrentar a concentração das representações. “É uma forma de a gente se ver nos veículos de comunicação”, afirmou.


A frase aproxima os diferentes caminhos percorridos pela mesa. Seja diante de uma emissora que promete mostrar “a cara do Nordeste”, seja diante de uma fotografia transformada em símbolo mundial, permanece a necessidade de perguntar quem constrói as imagens, quais interesses orientam sua circulação e quem ainda precisa lutar para ser visto, ouvido e reconhecido.


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