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“O Parafuso é vivo, é nosso, é do povo”: videorreportagem registra resistência cultural em Lagarto

11 de ago.
9 min de leitura

Atualizado: 12 de ago.

Produzido por Flávio Santana como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Universidade Tiradentes, documentário mostra como dança, música, indumentária e memória transformam o grupo folclórico Parafusos em um meio de comunicação popular


As anáguas brancas se abrem enquanto os corpos giram em sentidos alternados. Os rostos pintados, os chapéus em formato de cone e a música que conduz os movimentos formam uma imagem difícil de esquecer.


Antes de qualquer explicação acadêmica, é essa coreografia que apresenta ao espectador o Grupo Folclórico Parafusos, de Lagarto, em Sergipe. Cada volta dada pelos brincantes comunica uma história atravessada pela escravidão, pela busca da liberdade e pela capacidade de uma comunidade transformar sofrimento em memória cultural.


“Quem quiser ver o bonito, saia fora e venha ver. Venha ver os Parafusos a torcer e a distorcer”, anuncia a canção que acompanha o grupo.


A manifestação é o tema da videorreportagem Direcionando a Lente: um olhar da Folkcomunicação a partir do grupo folclórico Parafusos, produzida pelo jornalista Flávio Menezes Santana como projeto experimental do curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, da Universidade Tiradentes.


Orientado pela professora Talita de Azevedo Déda e concluído no segundo semestre de 2016, o trabalho aproxima a teoria criada por Luiz Beltrão das experiências dos brincantes, pesquisadores e agentes culturais responsáveis pela continuidade dos Parafusos.


Mais do que registrar uma dança, a produção procura compreender o que ela diz, quem fala por meio dela e como essa mensagem circula dentro e fora de Lagarto.

“O Parafuso é vivo, é nosso, é do povo”, afirma uma das vozes ouvidas na videorreportagem.


Uma memória inscrita no corpo

A origem dos Parafusos é apresentada por meio das narrativas preservadas e transmitidas entre gerações.


Segundo a história contada pelo grupo, pessoas negras escravizadas que fugiam em direção aos quilombos utilizavam anáguas brancas encontradas nas propriedades dos senhores. As peças eram vestidas durante as saídas noturnas, enquanto os rostos recebiam a pintura branca feita com tabatinga.


Em meio à escuridão, as roupas sobrepostas, os movimentos giratórios e a pintura criavam uma figura que poderia assustar ou confundir perseguidores. O disfarce ajudaria os fugitivos a buscar alimentos e atravessar os caminhos até lugares mais seguros.


A videorreportagem reconhece que essa origem está situada em um território no qual história, memória oral e elementos míticos se encontram. Longe de diminuir sua importância, essa combinação revela a maneira pela qual uma comunidade interpreta o passado e transmite seus sentidos.


Depois da abolição da escravidão, a narrativa conta que antigos escravizados teriam saído pelas ruas de Lagarto usando as anáguas. Diante da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, o padre José Saraiva Salomão teria relacionado os movimentos de torcer e destorcer ao funcionamento de um parafuso, dando nome ao grupo.


A produção informa que a trajetória da manifestação remonta a 1897. Desde então, o movimento dos brincantes converteu-se em uma espécie de arquivo corporal: a memória não aparece guardada apenas em documentos, mas também nas roupas, na música, nos gestos e nas histórias compartilhadas.


O corpo como meio de comunicação

É justamente nesse ponto que os Parafusos encontram a folkcomunicação.

Desenvolvida pelo jornalista pernambucano Luiz Beltrão na década de 1960, a teoria dirige sua atenção aos processos de comunicação presentes entre grupos populares e socialmente marginalizados. Em vez de procurar mensagens somente nos jornais, emissoras de rádio ou canais de televisão, Beltrão observou agentes, manifestações e meios ligados ao cotidiano do povo.


Festas, danças, cantorias, performances, celebrações religiosas, narrativas orais, gestos e objetos também podem transmitir informações, interpretações da realidade e formas de resistência.


Nos Parafusos, o próprio corpo do brincante funciona como suporte da mensagem.

As anáguas recuperam uma narrativa de fuga e liberdade. A pintura branca recorda a estratégia atribuída aos escravizados. Os giros comunicam a identidade da manifestação. A música convida o público a se aproximar, enquanto a apresentação transforma a rua em espaço de encontro entre passado e presente. O grupo, portanto, não apenas representa uma história. Ele a comunica coletivamente.


Ao colocar especialistas e brincantes na mesma narrativa, a videorreportagem demonstra que o conhecimento sobre a manifestação não pertence exclusivamente à universidade. Ele também está com as pessoas que aprenderam a dança,

confeccionaram as roupas, participaram das apresentações e receberam de familiares a responsabilidade de manter a tradição.


Tradição não significa imobilidade

Um dos aspectos mais interessantes de Direcionando a Lente é a recusa de uma visão congelada da cultura popular.


A produção mostra que os Parafusos passaram por diversas mudanças, especialmente depois da reativação do grupo no final da década de 1970. A pintura, os chapéus, as bandeiras, as fitas, os calçados e a própria organização das apresentações foram modificados em diferentes momentos.


Algumas mudanças nasceram de decisões estéticas. Outras responderam às condições econômicas e às necessidades concretas dos integrantes.


Um dos depoimentos recorda, por exemplo, as dificuldades para comprar calçados. Em determinadas ocasiões, os brincantes precisavam dividir sapatos ou adquirir o material com o próprio dinheiro. Dançar descalço, por sua vez, nem sempre era possível, dependendo do espaço destinado à apresentação.


A retirada de bandeiras e fitas, assim como a incorporação de personagens para ajudar a narrar a origem do grupo, também aparece como parte desse processo de adaptação.

As alterações provocam uma discussão importante: o que pode mudar sem que uma manifestação deixe de ser tradicional?


A resposta construída pela videorreportagem é que a tradição não permanece viva porque repete o passado de maneira rigorosamente idêntica. Ela sobrevive porque consegue reorganizar seus elementos, dialogar com novas gerações e responder às condições do presente.


“Todos os grupos que se apresentam como folclóricos sofrem alterações ao longo do tempo”, observa um dos entrevistados.


Essas transformações não eliminam necessariamente a importância histórica da manifestação. Ao contrário, podem garantir que ela continue sendo praticada por pessoas reais, em espaços diferentes e diante de novos públicos.


Entre a mídia e a cultura popular

A relação entre tradição e mudança também permite compreender a troca permanente entre os grupos populares e os meios de comunicação.


A videorreportagem cita manifestações como Lambe-Sujo e Caboclinhos para mostrar como determinados acessórios incorporados pelos brincantes — entre eles óculos escuros e chupetas — podem revelar influências dos carnavais de Salvador e das micaretas transmitidas pela mídia. O exemplo demonstra que os grupos populares não vivem isolados.


Seus integrantes assistem à televisão, ouvem rádio, utilizam celulares, acompanham festas de outras regiões e entram em contato com diferentes referências culturais. Esses conteúdos podem ser apropriados, reinterpretados e inseridos nas manifestações locais.


A folkcomunicação ajuda a observar esse movimento de mão dupla. A mídia influencia as culturas populares, mas também utiliza suas imagens, linguagens e personagens. Ao mesmo tempo, os próprios grupos criam canais para divulgar atividades, convocar integrantes e negociar a maneira como desejam ser representados.


Com a expansão da internet e dos smartphones, essa circulação tornou-se ainda mais acelerada.


Na época da produção do vídeo, a Associação Folclórica de Lagarto já recorria ao Facebook e ao Instagram para divulgar os grupos, alcançar novos públicos e estabelecer contatos até mesmo fora do país.


“A gente está passando por dificuldades, mas o grupo não morreu”, afirma uma das lideranças.


A frase revela que as redes digitais não aparecem apenas como ferramentas promocionais. Elas passam a integrar uma estratégia de sobrevivência cultural.


Conhecidos fora, desconhecidos dentro de casa

Apesar de sua longevidade, os Parafusos enfrentavam uma contradição dolorosa quando a videorreportagem foi realizada.


Os integrantes relatam que o grupo era recebido com entusiasmo em outros estados, incluindo apresentações em São Paulo e Brasília, mas permanecia pouco conhecido por parte da própria população de Lagarto.


“Quando nós chegamos em outro estado, somos mais bem recebidos do que quando estamos aqui em nossa cidade”, lamenta um dos depoimentos.


O problema não é tratado apenas como falta de divulgação. A produção questiona a reduzida presença da cultura local nas escolas e nas políticas educacionais.


Quando estudantes aprendem sobre manifestações de outras regiões, mas não conhecem os grupos existentes em sua própria cidade, forma-se uma distância entre educação, memória e território.


A videorreportagem defende, assim, uma política educacional que leve os Parafusos e outras manifestações lagartenses para as salas de aula. Não como atrações ocasionais em datas comemorativas, mas como fontes de conhecimento sobre história, comunicação, identidade e relações raciais.


Conhecer os Parafusos significa compreender uma parte da formação social de Lagarto. Significa também reconhecer a contribuição da população negra para a construção cultural do município.


Resistir também custa dinheiro

A continuidade de uma manifestação popular depende de afeto, compromisso e conhecimento. Mas depende igualmente de recursos.


Os entrevistados falam sobre os custos das roupas, dos calçados, dos instrumentos, do transporte e das viagens. Para se apresentar fora da cidade, o grupo precisa deslocar integrantes, organizar a indumentária e adaptar a performance a diferentes espaços.


O apoio do poder público nem sempre chega no momento necessário. Pagamentos podem atrasar, enquanto a participação em determinados eventos depende da iniciativa privada ou do dinheiro dos próprios brincantes.


A produção chama atenção para uma romantização recorrente da cultura popular: a ideia de que os grupos conseguem sobreviver apenas pela paixão de seus integrantes.

A dedicação é indispensável, mas não paga o transporte, não compra tecidos e não garante condições adequadas de apresentação.


Ao mostrar essas dificuldades, Direcionando a Lente transforma a luta dos Parafusos em uma discussão sobre políticas culturais. Preservar um patrimônio exige mais do que elogios durante uma festa. Exige investimento continuado, circulação, formação de novos integrantes e reconhecimento do trabalho realizado pelos detentores da tradição.


Lideranças que fazem a memória circular

Outro conceito da folkcomunicação aparece quando o vídeo analisa o papel das lideranças.


São pessoas que conhecem a história do grupo, orientam os integrantes, organizam apresentações e mantêm contato com instituições e comunidades. Muitas vezes, esse conhecimento foi transmitido dentro da própria família.


Os especialistas entrevistados aproximam essas pessoas das figuras que Luiz Beltrão identificou como líderes de opinião ou agentes folkcomunicacionais.


Elas funcionam como mediadoras culturais. Recebem informações, interpretam mudanças, negociam com instituições e ajudam o grupo a decidir como deseja continuar sua trajetória.


Os próprios brincantes reconhecem essa influência. Quando surge o desânimo, são as lideranças e os integrantes mais envolvidos que convocam reuniões, recordam a importância da manifestação e estimulam a permanência dos jovens.


A continuidade dos Parafusos, portanto, não acontece automaticamente. Ela depende de pessoas dispostas a “quebrar a cabeça”, enfrentar barreiras e levar a cultura para lugares diferentes.


A cultura transforma os brincantes

Se os Parafusos comunicam uma memória ao público, a experiência de participar do grupo também transforma seus integrantes.


Um jovem conta que, antes de ingressar na manifestação, não valorizava a cultura e pouco pensava sobre o próprio futuro. A convivência com os brincantes despertou o desejo de conhecer outras tradições, outros lugares e outras formas de compreender o mundo.


“A cultura faz parte de mim”, resume outro integrante.


Nesse momento, a videorreportagem deixa claro que a preservação cultural não beneficia apenas uma memória abstrata. Ela cria vínculos, amplia horizontes e oferece aos participantes um lugar de pertencimento.


O grupo também se sustenta pelas relações construídas durante ensaios, viagens e apresentações.


“A amizade não se compra, se conquista”, afirma um dos brincantes. “A amizade é que faz a força, a amizade é que faz a união.”


A manifestação folclórica aparece, assim, como uma rede de sociabilidade. Além de comunicar uma história para o público, ela reúne pessoas, forma novas gerações e produz experiências coletivas.


Da universidade ao reconhecimento da Folkcomunicação

A videorreportagem foi apresentada por Flávio Menezes Santana à Universidade Tiradentes como um dos requisitos para a obtenção do grau de bacharel em Comunicação Social – Jornalismo, no período de 2016.2.


Publicada no YouTube em abril de 2017, a produção levou a pesquisa acadêmica para além da sala de aula. No mesmo ano, conquistou o primeiro lugar no Concurso de Audiovisual – Prêmio Roberto Benjamin, realizado durante a XVIII Conferência Brasileira de Folkcomunicação.


O reconhecimento reforçou uma das qualidades do projeto: utilizar a linguagem jornalística não apenas para explicar um conceito, mas para colocar a teoria em movimento diante do espectador.


Nos giros dos Parafusos, a folkcomunicação deixa de ser somente uma definição acadêmica. Ela pode ser vista nas roupas, escutada na música e reconhecida nas vozes dos brincantes.


Um patrimônio que continuou girando

A reivindicação por reconhecimento registrada no vídeo ganhou um novo capítulo depois de sua realização.


Em 2020, o Grupo Folclórico Parafusos foi declarado Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado de Sergipe pela Lei nº 8.767. A medida reconheceu oficialmente o valor de uma manifestação mantida durante mais de um século por diferentes gerações de brincantes. A legislação foi sancionada pelo Governo de Sergipe.


O reconhecimento jurídico, entretanto, não encerra os desafios apontados pela videorreportagem. Um patrimônio continua precisando de integrantes, recursos, espaços de apresentação, presença nas escolas e políticas capazes de garantir sua transmissão.


É por isso que Direcionando a Lente permanece relevante. Ao registrar os Parafusos em um momento específico de sua história, o trabalho preserva também as perguntas que acompanham tantas manifestações populares brasileiras: quem continuará dançando, quem ensinará os movimentos e quais condições serão oferecidas para que a tradição permaneça viva?


No encerramento, as anáguas voltam a ocupar a imagem. Os brincantes giram, a música prossegue e o convite se repete.


Quem quiser compreender a beleza dos Parafusos precisa sair, aproximar-se e ver.

Mas também precisa escutar o que esses corpos em movimento continuam comunicando.


Ficha técnica

Estudante, produção, roteiro e edição: Flávio Menezes Santana

Orientação: Profa. Ma. Talita de Azevedo Déda

Instituição: Universidade Tiradentes

Imagens: Fábio Nascimento, Flávio Santana, Tony Souza e Sérgio Santos

Assistentes: Josevaldo Vieira e Renato Bispo

Imagens adicionais: MC News

Marca: Sabrina Andrade

Trilha sonora: “Quem Quiser Ver o Bonito”, do Trio Chamego do Forró

Entrevistados: Claudefranklin Monteiro, Agláe Fontes, Dênio Azevedo, Irineu Roberto de Oliveira, Maria Ione do Nascimento, Eder Santana, Jeferson Oliveira, Geniclaudio Santana e Wedson Henrique Andrade

Apoio: MC News, Stúdio Tony Souza e Complexo de Comunicação – CCS

Agradecimentos: Universidade Tiradentes, entrevistados, Associação Folclórica de Lagarto, Grupo Parafusos e colaboradores do projeto

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