“O folclore é a matéria-prima da folkcomunicação”: documentário de 2005 preserva vozes de um campo em consolidação
- Andriolli Costa
- há 1 dia
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Produzido por José Carlos Aronchi, o filme reúne pesquisadores ligados à trajetória da Rede Folkcom e apresenta conceitos, objetos e desafios de uma teoria brasileira da comunicação.
O que aproxima um ex-voto depositado em agradecimento por uma graça, uma frase pintada no para-choque de um caminhão, um folheto de cordel, a lenda urbana do roubo de órgãos, uma festa de São João e a aparição do ET de Varginha?
Todos esses fenômenos produzem, transportam ou reelaboram mensagens. Eles ajudam comunidades a interpretar acontecimentos, expressar crenças, transmitir valores e participar da vida pública. Por isso, podem ser observados como objetos da folkcomunicação.
É a partir de exemplos como esses que o documentário Ver e Entender a Folkcomunicação apresenta as bases da teoria criada por Luiz Beltrão. Produzido em 2005, o filme de aproximadamente 30 minutos reúne alguns dos principais pesquisadores responsáveis pela recuperação e pela expansão do pensamento folkcomunicacional no Brasil.
O documentário foi realizado pelo Laboratório de Imagem e Som do então Centro Universitário Nove de Julho, atual Universidade Nove de Julho, sob coordenação do pesquisador José Carlos Aronchi. A produção abriu a série didática Ver e Entender e foi lançada em DVD no primeiro semestre de 2006.
À época, uma resenha publicada na Revista Internacional de Folkcomunicação apresentou a obra como o primeiro documentário em DVD dedicado à folkcomunicação de que se tinha notícia no país. Duas décadas depois, o filme permanece como documento importante da memória intelectual do campo e pode ser assistido no canal da Rede Folkcom.
Um campo explicado por diferentes vozes
Ver e Entender a Folkcomunicação é construído por meio de uma montagem de depoimentos. Em vez de apresentar uma definição única e fechada, o documentário faz com que diferentes pesquisadores completem, tensionem e aprofundem as explicações uns dos outros.
Participam do filme nomes como José Marques de Melo, Roberto Benjamin, Antonio Hohlfeldt, Osvaldo Meira Trigueiro, Cristina Schmidt, Sebastião Breguez e Severino Lucena. São pesquisadores que acompanharam diferentes momentos da trajetória da folkcomunicação, alguns deles como alunos, discípulos ou interlocutores diretos de Luiz Beltrão.
Essa pluralidade é um dos méritos do documentário. A teoria não aparece como um verbete imóvel, mas como um campo em construção, formado por pesquisas que analisam religiosidade, jornalismo, literatura de cordel, festas populares, publicidade, turismo, lendas, televisão, política e manifestações urbanas.
O filme procura responder à pergunta mais elementar — afinal, o que é folkcomunicação? — sem esconder que a resposta abre outras questões.
Folkcomunicação não é sinônimo de folclore
Uma das preocupações mais frequentes entre os entrevistados é estabelecer a diferença entre folkcomunicação, folclore e cultura popular.
Cristina Schmidt sintetiza essa distinção ao afirmar que a folkcomunicação estuda a comunicação realizada por meio de processos e expressões populares, enquanto o folclore corresponde à manifestação cultural propriamente dita.
Antonio Hohlfeldt apresenta uma formulação complementar: “O folclore é a matéria-prima da folkcomunicação”.
Isso significa que uma pesquisa folkcomunicacional não se limita a descrever uma festa, uma dança, um ritual ou um personagem tradicional. Seu objetivo é investigar como aquela manifestação comunica, quais mensagens coloca em circulação, quem as produz, quem as interpreta e como seus sentidos se transformam.
Diante de um grupo de Bumba Meu Boi, por exemplo, o pesquisador pode perguntar como aquela manifestação se relaciona com a comunidade, que memórias transmite, quais personagens exercem funções de mediação e de que maneira o espetáculo é recebido pelo público.
No caso de um folheto de cordel, não basta observar sua forma literária ou sua origem histórica. Interessa compreender como o poeta recolhe um acontecimento ocorrido na sociedade mais ampla, reorganiza a narrativa em uma linguagem reconhecida pelo grupo e devolve aquela informação a seus leitores e ouvintes.
O objeto não é apenas a manifestação cultural. É o processo comunicacional que acontece por meio dela.
Luiz Beltrão: o repórter que observou as margens
O documentário dedica uma parte significativa à trajetória de Luiz Beltrão, apresentado como criador da folkcomunicação enquanto disciplina acadêmica.
Jornalista e professor pernambucano, Beltrão encontrou parte de suas perguntas teóricas no trabalho cotidiano de reportagem. Ao cobrir periferias, festas, práticas religiosas e acontecimentos populares, percebeu que muitos grupos possuíam sistemas próprios de informação e de expressão.
Poetas populares, cordelistas, líderes religiosos, brincantes e outras figuras reconhecidas pelas comunidades atuavam como mediadores. Eles recebiam informações da imprensa, da política ou das instituições, reinterpretavam os conteúdos e os colocavam novamente em circulação.
Beltrão percebeu que a comunicação não acontecia apenas na relação direta entre um veículo de massa e seu público. Entre a emissão e a recepção existia um amplo campo de mediações.
Um receptor poderia interpretar a mensagem, conversar com outras pessoas e tornar-se um novo emissor. Nessa cadeia, o conteúdo não permanecia intacto. Era traduzido, questionado, adaptado e relacionado às experiências do grupo.
Essa observação levou Beltrão ao estudo dos líderes de opinião e dos meios populares de comunicação. Seu artigo sobre o ex-voto como veículo jornalístico tornou-se uma das sementes da teoria.
Em 1967, o pesquisador defendeu na Universidade de Brasília a tese Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de ideias. O trabalho é reconhecido como marco dos estudos brasileiros de comunicação.
O público nunca foi simplesmente passivo
Uma das ideias mais importantes recuperadas pelo documentário é a crítica à noção de recepção passiva.
Quando Beltrão começou a formular sua teoria, era comum imaginar a comunicação de massa como um fluxo predominantemente linear: a mensagem sairia do emissor, alcançaria o receptor e produziria determinado efeito.
A observação da cultura popular revelou um cenário mais complexo.
As comunidades recebiam os conteúdos da mídia, mas não os aceitavam obrigatoriamente da maneira pretendida pelos emissores. As mensagens atravessavam conversas, experiências, crenças, performances e códigos culturais.
Nesse percurso, surgiam interferências, recomposições e novos sentidos.
A folkcomunicação ajuda a compreender justamente o que acontece nesse espaço de mediação. Um acontecimento político pode ser transformado em cordel. Uma notícia extraordinária pode alimentar uma lenda. Um personagem tradicional pode reaparecer em uma campanha publicitária. Uma festa comunitária pode ser convertida em atração turística e espetáculo televisivo.
Entre o popular e o massivo não existe apenas oposição. Há negociações, apropriações, conflitos e movimentos de ida e volta.
Da entrega do ex-voto às lendas da internet
Embora tenha sido produzido em 2005, o documentário já demonstrava que a folkcomunicação não deveria ser associada somente a manifestações antigas ou rurais.
Ex-votos, folhetos populares, festas religiosas, artesanato e inscrições em caminhões aparecem ao lado de lendas urbanas, programas de televisão, campanhas publicitárias e narrativas disseminadas pela internet.
Os entrevistados mencionam histórias sobre pessoas dopadas para o roubo de órgãos, personagens sobrenaturais que circulavam entre estudantes e as diferentes versões sobre o ET de Varginha.
São narrativas contemporâneas que utilizam mecanismos conhecidos da tradição oral: anonimato da fonte, testemunho indireto, circulação de advertências e adaptação dos detalhes a cada novo contexto.
A diferença é que a internet ampliava a velocidade e o alcance dessas histórias.
O documentário foi produzido antes da consolidação das atuais plataformas de redes sociais. Mesmo assim, já identificava piadas políticas, montagens e narrativas populares circulando em redes digitais.
O filme antecipava, dessa maneira, questões que se tornariam ainda mais relevantes nos anos seguintes: a recomposição coletiva das mensagens, a circulação entre diferentes meios e a transformação de receptores em produtores e distribuidores de conteúdos.
Quando a mídia se apropria da cultura popular
O percurso contrário também recebe atenção. Não são apenas as comunidades que reinterpretam as mensagens da mídia. As indústrias culturais se apropriam constantemente de mitos, personagens, festas e repertórios populares.
O documentário menciona produções como O Auto da Compadecida e Hoje é Dia de Maria. Embora concebidas para televisão, essas obras trabalham com narrativas, músicas, cantigas, crenças, figurinos e personagens vinculados a diferentes tradições populares.
Esse processo de recodificação transforma repertórios populares em produtos midiáticos destinados a públicos amplos.
O mesmo acontece na publicidade. Sereias, sacis, festas juninas, tentações, pecados, crenças e personagens folclóricos são retirados de seus contextos originais e associados a marcas ou mercadorias.
As relações entre comunicação popular e mídia industrial podem gerar visibilidade, reconhecimento e circulação para determinadas manifestações. Também podem produzir simplificações, apagamentos ou mudanças orientadas pelos interesses do mercado.
É nesse ponto que o documentário se aproxima das discussões sobre folkmídia e folkmarketing. Uma tradição pode fortalecer vínculos comunitários e, simultaneamente, tornar-se recurso para campanhas publicitárias, estratégias turísticas e ações de patrocinadores.
O São João de Campina Grande e o Festival de Parintins são apresentados como exemplos de celebrações que preservam fortes referências populares, mas dependem de estruturas de financiamento, divulgação, turismo e espetáculo.
A folkcomunicação permite observar essas tensões sem reduzir a festa a uma mercadoria ou tratá-la como manifestação isolada das transformações sociais.
Conhecer o popular para não produzir uma reportagem vazia
O filme também defende a importância da folkcomunicação para a formação de jornalistas, publicitários e outros profissionais da área.
Um jornalista encarregado de cobrir uma festa popular precisa conhecer sua origem, suas transformações e os sentidos atribuídos pelos participantes. Caso contrário, corre o risco de produzir uma matéria superficial, concentrada apenas no espetáculo visual ou na programação oficial.
A mesma dificuldade aparece na cobertura de lendas, crenças e acontecimentos extraordinários. Sem conhecer os repertórios acionados pela comunidade, o profissional pode ridicularizar os relatos ou repetir interpretações estereotipadas.
“A gente tem que ver que a folkcomunicação não é só coisa antiga. É coisa atual”, afirma um dos depoimentos.
A frase continua válida. Os códigos populares permanecem presentes em memes, vídeos, festas, protestos, campanhas políticas, produtos audiovisuais e narrativas jornalísticas.
Para o publicitário, esse conhecimento ajuda a compreender como uma comunidade reconhece símbolos, personagens e valores. Para o profissional de marketing, permite analisar as relações entre marcas e identidades locais. Para o jornalista, favorece uma cobertura mais contextualizada das manifestações culturais.
O conhecimento da folkcomunicação não deve servir apenas para tornar uma campanha comercial mais eficiente. Ele também pode impedir que culturas populares sejam tratadas como cenários exóticos ou bancos de imagens disponíveis para apropriação.
Uma proposta de formação ligada à comunidade
O documentário sugere três movimentos básicos para o estudante interessado em pesquisar o campo.
O primeiro é conhecer a história de sua própria comunidade. Isso inclui as narrativas que não aparecem nos registros oficiais: remédios populares, cantigas, histórias familiares, memórias, celebrações, práticas de trabalho e formas locais de circulação das notícias.
O segundo movimento é realizar um levantamento conceitual. O estudante precisa compreender o que são comunicação, folclore e cultura popular para, somente então, delimitar o processo folkcomunicacional.
O terceiro é elaborar uma pesquisa capaz de articular o conhecimento empírico encontrado no território com o debate acadêmico.
A investigação folkcomunicacional nasce, assim, do encontro entre teoria e experiência. Ao estudar como sua comunidade se comunica, o pesquisador também entra em contato com histórias e sujeitos que frequentemente permanecem fora dos arquivos institucionais.
A recomendação mantém o documentário próximo da prática. Ver e Entender a Folkcomunicação não apresenta apenas um conjunto de definições. Ele convida estudantes e profissionais a observar praças, igrejas, feiras, terreiros, festas, ruas, meios comunitários e ambientes digitais como espaços de produção de conhecimento.
O preconceito acadêmico como desafio
Na parte final, os pesquisadores discutem as dificuldades de consolidação da folkcomunicação no ambiente universitário.
Um dos obstáculos identificados é o preconceito contra a cultura popular. Parte da academia privilegia repertórios eruditos e considera determinadas manifestações populares pouco relevantes para uma investigação científica da comunicação.
O documentário não rejeita a formação erudita. O problema surge quando ela é apresentada como único conhecimento legítimo e impede professores e estudantes de compreender a vida cultural da maioria da população.
Outro risco é produzir um trabalho exclusivamente descritivo. O pesquisador da folkcomunicação pode recorrer à antropologia, à sociologia, à história e a outras disciplinas, mas precisa manter seu interesse no processo comunicacional.
“O pesquisador da folkcomunicação não é um folclorista, não é um antropólogo, não é um sociólogo. Ele é um comunicólogo”, afirma um dos entrevistados.
A declaração procura demarcar um lugar para o campo em uma época na qual a folkcomunicação ainda disputava maior presença nos cursos de graduação e pós-graduação.
O filme registra, ao mesmo tempo, sinais de expansão. Os pesquisadores mencionam as conferências nacionais, a formação de grupos de trabalho, a atuação da Rede Folkcom e a circulação da teoria em países da América Latina e em Portugal.
Uma história da Rede publicada posteriormente também destaca o papel do documentário nesse processo de divulgação. O texto registra que a produção de José Carlos Aronchi reuniu pesquisadores dedicados ao fortalecimento de uma teoria que encontrava diferentes possibilidades de aplicação e combinações de enfoques.
Um retrato histórico que continua atual
Mais de vinte anos depois de sua produção, Ver e Entender a Folkcomunicação pode ser assistido de duas maneiras.
A primeira é como material didático. O documentário oferece uma introdução acessível aos conceitos fundamentais, diferencia folkcomunicação de folclore, apresenta Luiz Beltrão e demonstra a diversidade de objetos possíveis.
A segunda é como documento histórico. O filme registra pesquisadores que participaram diretamente da consolidação do campo e permite observar quais preocupações mobilizavam a Rede Folkcom no início dos anos 2000.
Alguns exemplos carregam as marcas daquele período: campanhas publicitárias, produtos televisivos, formas iniciais de circulação pela internet e debates políticos específicos.
As perguntas, porém, permanecem atuais.
Como as comunidades interpretam as mensagens recebidas? Quem atua como mediador? O que acontece quando a indústria cultural se apropria de uma tradição? Como o jornalista pode cobrir uma manifestação sem esvaziar seus sentidos? De que maneira os conhecimentos populares podem ser reconhecidos pela universidade?
O documentário mostra que a folkcomunicação não é apenas uma teoria sobre objetos pitorescos. É uma forma de compreender como pessoas e comunidades produzem sentidos, reinterpretam acontecimentos e disputam espaço em uma sociedade atravessada pela mídia.
Ao colocar lado a lado o ex-voto e a televisão, o cordel e a internet, o Bumba Meu Boi e a publicidade, o filme ensina que tradição e contemporaneidade não ocupam mundos separados.
Ver e Entender a Folkcomunicação cumpre, desse modo, o movimento anunciado em seu próprio título. Primeiro, convida o público a ver práticas comunicacionais que muitas vezes permanecem invisíveis. Depois, oferece instrumentos para entender que, onde existe cultura popular em circulação, também existem mensagens, mediações e sujeitos produzindo comunicação.


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