“Não dá para contar a história de todos pela história de alguns”: Alberto Perdigão apresenta o cordel como mídia e documento histórico
No I Ciclo de Diálogos sobre Folkcomunicação, jornalista e pesquisador mostrou como os folhetos informativos disputam narrativas, registram mentalidades e preservam memórias frequentemente excluídas dos meios tradicionais.
Um jornal e um folheto de cordel podem narrar o mesmo acontecimento e chegar a versões completamente diferentes. Enquanto a imprensa convencional costuma organizar os fatos de acordo com suas rotinas, fontes e interesses institucionais, o poeta popular parte das experiências, dos sentimentos e das interpretações que circulam em seu território.
Foi dessa diferença que o jornalista, professor e pesquisador Alberto Perdigão partiu para apresentar o cordel como mídia informativa e fonte para a pesquisa histórica. Durante a aula, ele defendeu a necessidade de incorporar às narrativas sobre o Brasil as perspectivas de grupos historicamente afastados dos espaços de poder. “Não dá para contar a história de todos pela história de alguns”, sintetizou.
A atividade integrou o I Ciclo de Diálogos sobre Folkcomunicação e seus Campos de Pesquisas, iniciativa vinculada à disciplina de Folkcomunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O ciclo, registrado pela universidade como atividade de extensão, foi coordenado pelo professor Itamar de Morais Nobre e contou com a colaboração de Ermaela Cícera Silva Freire.
Com uma trajetória que atravessa redações de televisão, assessorias de comunicação, docência em telejornalismo e pesquisa acadêmica, Perdigão explicou que encontrou na aposentadoria a oportunidade de se dedicar com maior liberdade à investigação e à publicação de livros. Seu principal objeto é o folheto informativo, especialmente aquele que trata de temas políticos.
A exclusão que torna o cordel necessário
Antes de entrar diretamente na literatura de cordel, Perdigão apresentou uma premissa: o Brasil convive com uma exclusão comunicacional estrutural e histórica.
Essa exclusão, segundo ele, não se limita à falta de acesso à internet, ao rádio, à televisão ou a veículos locais. Também se manifesta na restrição do direito de informar, ser informado, expressar uma interpretação da realidade e participar do debate público.
O resultado é um ciclo de invisibilidade e minorização. Grupos que não são necessariamente minorias numéricas — como a população negra e as mulheres — têm sua cidadania diminuída quando suas pautas, experiências e perspectivas permanecem fora dos espaços de decisão e dos meios de comunicação.
Perdigão também chamou atenção para o desequilíbrio entre comunicação privada, estatal e pública no país. Diante de um sistema fortemente concentrado e associado aos interesses do mercado, surgem o que ele chamou de “escapes comunicacionais”: experiências comunitárias, alternativas, populares e de base tradicional. É nesse território que se encontra a folkcomunicação.
“O cordel só existe porque é necessário”, afirmou. Para o pesquisador, sua permanência por quase 150 anos demonstra que diferentes populações continuaram precisando de um meio próprio para falar, ouvir, interpretar acontecimentos e comunicar necessidades que não encontravam espaço nos jornais.
Do povo para o povo — e, sobretudo, com o povo
Perdigão dividiu a literatura de cordel em três grandes campos de conteúdo: a ficção, formada por histórias de valentia, humor e encantamento; as cantorias e pelejas posteriormente transcritas; e a não ficção, na qual está o folheto informativo.
Esse último funciona como uma mídia alternativa porque oferece outra maneira de informar, ser informado e colocar assuntos em circulação na esfera pública. Seu caráter popular, porém, não deve ser definido apenas pela renda, escolaridade ou origem social de autores e leitores. “O cordel é feito do povo para o povo. Mas o mais importante é que ele é feito com o povo”, ressaltou.
A afirmação aponta para uma relação diferente daquela estabelecida pelos meios convencionais. No jornal, explicou, a definição da pauta ocorre de maneira predominantemente vertical e sofre forte influência do mercado. No cordel, o público e o território exercem uma influência mais direta sobre os temas, os personagens e as formas de narrar.
O folheto torna-se contra-hegemônico porque pode apresentar conteúdos paralelos, divergentes ou até opostos aos da imprensa tradicional. Uma notícia publicada no jornal pode aparecer no cordel por outro ângulo, sem que o poeta precise ocultar sua posição.
Ao responder às perguntas do público, Perdigão fez uma ressalva importante: classificar o cordel como alternativo, popular e contra-hegemônico é uma forma didática de analisá-lo, não uma exigência para reconhecer sua legitimidade. Existem folhetos com posições políticas distintas e até antagônicas. O fundamental é compreender que esse dispositivo está relacionado a territórios e grupos comunicacionalmente excluídos.
Cinco caminhos para ler a política em versos
A partir de seu acervo, que reúne mais de 800 folhetos políticos, Perdigão propôs uma classificação composta por cinco eixos. O primeiro é o da ciência política, no qual aparecem conceitos como Estado e democracia, acontecimentos históricos e pensadores como Karl Marx, Paulo Freire e Celso Furtado. O segundo corresponde à disputa política, envolvendo eleições, candidatos, eleitores e propaganda.
O terceiro reúne personalidades da política: presidentes, revolucionários, mártires e lideranças locais, nacionais ou estrangeiras. O quarto contempla a notícia política, incluindo crises internas e internacionais, além dos folhetos opinativos nos quais o “poeta-repórter” assume uma posição semelhante à de um editorialista.
O quinto eixo é o das políticas públicas. Nele estão demandas cotidianas e estruturais relacionadas à educação, economia, corrupção, violência contra as mulheres, concentração de terras, discriminação racial e devastação ambiental, assim como ações governamentais voltadas a essas questões.
Questionado por Kênia Nogueira sobre a origem da classificação, Perdigão explicou que se trata de uma proposta própria, construída para organizar um campo amplo e heterogêneo. O modelo, contudo, permanece aberto a alterações.
“É como um quebra-cabeça em que as peças estão embaralhadas. Eu tentei organizar minimamente por cor; depois, as pessoas vão juntando como quiserem”, comparou.
A sistematização integra o livro Política e Literatura de Cordel — O folheto como mídia informativa alternativa, popular e contra-hegemônica, publicado em 2022 e, segundo o autor, a caminho da terceira impressão.
Quando os folhetos disputam a versão dos acontecimentos
Para demonstrar o potencial informativo e político do cordel, Perdigão apresentou sua análise de oito folhetos sobre o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, em 2016.
Nos títulos e versos examinados, o processo aparece descrito como golpe, farsa, conspiração e traição. O pesquisador não apresentou essas obras como registros neutros, mas como documentos de uma interpretação política que, naquele momento, não encontrava espaço equivalente nos grandes meios de comunicação.
O exemplo evidencia o papel do poeta-repórter: alguém que narra um acontecimento, organiza informações e, ao mesmo tempo, assume uma posição diante dele.
Para Perdigão, é justamente na política que o folheto se torna um espelho especialmente revelador da sociedade. É nesse campo que aparecem os conflitos, as disputas de discurso e as representações do pensamento e do sentimento coletivo.
Negritude, memória e protagonismo
Outro desdobramento de suas pesquisas resultou no livro Pretas e Pretos na Literatura de Cordel: o folheto como mídia folkcomunicacional de negritude. Na obra, Perdigão reúne folhetos relacionados a dez temas, organizados em três conjuntos. O primeiro trata de assuntos historicamente apagados ou distorcidos, como escravidão, abolição e racismo. O segundo recupera protagonismos por meio de rainhas, princesas, guerreiros e heróis negros. O terceiro aborda acontecimentos e datas invisibilizados, como o assassinato de Marielle Franco e os desafios para a aplicação da Lei nº 10.639/2003.
Segundo o pesquisador, os folhetos não apenas acrescentam personagens à narrativa dominante. Eles também revisam versões da história difundidas pela escola e pela mídia.
Em vez de começar a escravidão pela ideia de uma abolição concedida, por exemplo, o cordel pode iniciar a narrativa pelo sequestro de pessoas no continente africano, pelas resistências e pelo protagonismo da população negra. Nessa perspectiva, o folheto atua como lugar de reivindicação da memória. Ele devolve nomes, experiências e conflitos ao espaço público.
No cordel, Belchior não morre
A capacidade de construir outras representações também aparece no estudo Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel. Para a pesquisa, Perdigão colocou em diálogo nove livros biográficos e 19 folhetos dedicados ao cantor e compositor cearense. Posteriormente, seu acervo chegou a 27 cordéis sobre o artista.
O pesquisador identificou aproximações, afastamentos e rupturas entre as duas formas de narrar Belchior. A infância em Sobral e a juventude em Fortaleza aparecem de maneira relativamente semelhante. As diferenças aumentam quando as obras tratam da produção artística e de sua identidade latino-americana. A ruptura se torna mais evidente nos relatos sobre o desaparecimento, a morte e o período posterior ao falecimento.
Na imprensa e nas biografias apoiadas em conteúdos jornalísticos, argumentou Perdigão, Belchior foi frequentemente retratado sob um tom de condenação moral. Nos folhetos, ocorre o contrário: o artista é compreendido, absolvido e apresentado como alguém sacrificado pela indústria fonográfica, pela incompreensão e pela perseguição midiática.
Depois de absolver e santificar o personagem, o cordel o eterniza.
“No cordel, ninguém morre”, resumiu Perdigão.
Um espelho de um tempo e de um lugar
Na parte final da aula, o pesquisador aproximou a folkcomunicação da história cultural e da história das mentalidades. Seu objetivo é investigar o folheto como documento capaz de registrar o que diferentes grupos pensaram, sentiram e disseram sobre os acontecimentos de seu tempo.
“A realidade é primeiro o que se percebe e depois o que se conta dela”, afirmou.
Perdigão pretende rastrear episódios e personalidades da República brasileira narrados pela literatura de cordel. A proposta não é substituir os documentos já utilizados pela historiografia, mas ampliar as fontes e incluir perspectivas que permaneceram fora dos arquivos oficiais.
“O folheto é um espelho de um território, de um tempo e de um lugar”, observou. “Existe uma memória a ser reconhecida, uma história a ser reconhecida, vidas e perspectivas de mundo a serem reconhecidas.”
A dimensão afetiva dessa memória apareceu também na fala de Ermaela Cícera. Ao final do encontro, ela recordou o avô, que aprendeu a ler com os cordéis encontrados na feira de Taperoá, e as histórias que ele contava sobre personagens como Pedro Malasartes, Gonçalo Valente e a Princesa da Pedra Fina. Lembrou ainda a avó, que promovia encontros de repentistas em casa.
O relato reforçou aquilo que a aula havia demonstrado teoricamente: o cordel é mídia, documento e literatura, mas também é aprendizado, convivência e memória familiar.
Ao reconhecer essas diferentes dimensões, Alberto Perdigão propôs uma história mais ampla — capaz de escutar não apenas quem controlou jornais, arquivos e instituições, mas também aqueles que encontraram nos versos uma maneira de existir publicamente. Afinal, como advertiu o pesquisador, não é possível contar a história de todos preservando somente a versão de alguns.





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