“Num colégio custa cinco; aqui vai pagar dois”: vídeo encontra a folkcomunicação na Rua das Calçadas
Projeto experimental dirigido por Karla Laet em 2007 registra vendedores, camelôs, carros, bicicletas e caixas de som que transformavam uma rua do bairro de São José, no Recife, em um circuito próprio de comunicação popular
Para vender em uma rua movimentada, não basta colocar a mercadoria sobre o balcão. É preciso cantar, dançar, demonstrar o produto, comparar preços, encontrar uma frase capaz de interromper o passo apressado de quem atravessa o centro da cidade. Se a voz não alcançar o público, entram em cena o megafone, o alto-falante, o carro ou a bicicleta de som.
É essa paisagem comunicacional que aparece no vídeo produzido por Karla Laet como projeto experimental de conclusão do curso de Publicidade e Propaganda das Faculdades Integradas Barros Melo, em Olinda, em 2007. A produção também leva sua assinatura no argumento, roteiro e direção, com orientação acadêmica de Suely Figueiredo e montagem de Fábio Quirino.
O cenário escolhido é a Rua das Calçadas, no bairro de São José, área tradicional do comércio popular recifense. A própria produção apresenta o local como um “centro das dimensões comunicacionais” e acompanha Seu Zé na observação do que chama de “experimentos folkmidiáticos”. A expressão procura reunir os diferentes recursos utilizados por vendedores e anunciantes para conquistar atenção e fazer suas mensagens circularem.
A escolha da rua não é casual. A Rua das Calçadas integra um conjunto de vias comerciais especializadas do centro do Recife que mantêm uma clientela regular ao longo do ano, com aumento da procura em determinados períodos. Estudo sobre o comércio na área central recifense já destacava a permanência dessa dinâmica popular.
O vídeo abre espaço para uma sucessão de vozes. Um vendedor de loja anuncia preços enquanto canta e dança diante do estabelecimento. O corpo participa da mensagem: a performance produz visibilidade, estabelece ritmo e diferencia aquela oferta das muitas outras que disputam o mesmo espaço sonoro.
Em seguida, um camelô empurra seu carrinho carregado de CDs. Em 2007, antes da consolidação dos serviços de streaming e da circulação musical concentrada nos aplicativos, o vendedor ambulante ocupava uma posição importante na distribuição de músicas, filmes e outros conteúdos. Seu carrinho era, simultaneamente, ponto comercial, expositor e meio móvel de circulação cultural.
Outro vendedor apresenta uma espécie de régua destinada à criação de desenhos circulares. A venda começa pela demonstração do funcionamento do objeto.
“Na proporção que vai girando, vai descobrindo desenhos. São desenhos geométricos, desenhos circulares, desenhos da cultura indiana”, explica. Em seguida, acrescenta que se trata de um aparelho que “ensina, educa e contribui para a criança desenvolver a coordenação motora”.
O discurso combina informação, demonstração prática e promessa educativa. O vendedor não oferece apenas uma régua: apresenta um instrumento para desenvolver a criança. Depois de construir o valor simbólico do produto, introduz o argumento econômico que transforma a explicação em oferta irresistível. “Num colégio custa cinco; aqui vai pagar dois.”
A comparação estabelece dois espaços de consumo. De um lado, o colégio e o comércio formal, associados ao preço mais alto. Do outro, a rua, onde o mesmo objeto pode ser adquirido por menos. O camelô procura demonstrar que sua mercadoria não é inferior: a diferença estaria apenas no valor cobrado.
Mais adiante, uma vendedora utiliza um megafone para divulgar bebidas e alimentos. A mensagem se organiza como um cardápio falado, repetido para alcançar quem circula pelas proximidades. “Venha se deliciar na suqueria. Temos sucos, lanches, sobremesas, vitaminas. Temos guaraná da Amazônia, vitamina de morango turbinada. Venha se deliciar com nosso almoço.”
A enumeração produz abundância. Em vez de esperar que o consumidor se aproxime e pergunte o que está disponível, a comerciante projeta o cardápio para a rua. O megafone amplia a voz individual e transforma a calçada em extensão do estabelecimento.
Nem todas as mensagens registradas têm finalidade comercial. Um carro identificado como Fernando Som divulga um evento religioso contra a violência no Recife.
“Recife já não aguenta mais tanta violência. O caos tomou conta do nosso estado. Por este motivo, convide 33 pessoas do seu bairro para este grande dia de clamor pela paz”, anuncia a gravação.
O locutor informa horário, endereço, referências de localização, disponibilidade de estacionamento e vias de acesso. A mensagem sonora funciona como convite, serviço de utilidade e mobilização coletiva. O pedido para que cada ouvinte convide outras 33 pessoas pressupõe uma circulação em rede: o carro leva a informação até os bairros e espera que o público continue a propagá-la por meio de relações pessoais.
O vídeo registra ainda caixas de som instaladas em postes, criando pontos fixos de transmissão. Diferentemente do vendedor que precisa permanecer diante da loja, esses equipamentos espalham mensagens por uma área maior e constituem uma espécie de sistema local de radiodifusão. A programação sonora se incorpora ao território e alcança até mesmo quem não pretendia parar para ouvir.
A mobilidade reaparece com uma bicicleta identificada como Bigode Som. Acoplado ao veículo, o equipamento divulga o Motel Cristal Presidente. “Venha fazer a vida mais gostosa. Experimente”, convida o anúncio. Em outro trecho, o motel é apresentado como o lugar “onde o amor acontece”.
A bicicleta de som oferece uma alternativa popular ao carro equipado com alto-falantes. É menor, mais barata e capaz de atravessar ruas estreitas ou congestionadas. Ao pedalar, o comunicador desenha um percurso para a mensagem e seleciona, pelo deslocamento, os públicos e regiões que serão alcançados.
No espaço de poucos minutos, o vídeo reúne comunicação comercial, publicidade de rua, mobilização religiosa, entretenimento e circulação de produtos culturais. A mesma paisagem sonora anuncia vitaminas, materiais escolares, CDs, promoções de lojas, um encontro pela paz e um motel. Mensagens muito diferentes convivem e disputam o mesmo público.
A produção chama essas práticas de “experimentos folkmidiáticos”. Observadas hoje, elas também podem ser aproximadas da folkcomunicação oral, do comércio popular, do folkmarketing e das diferentes apropriações de tecnologias sonoras por agentes que não dependem dos grandes meios de comunicação. Megafones, caixas, carrinhos, bicicletas e carros convertem-se em veículos adaptados às condições da rua.
Seu Zé funciona como observador desse ecossistema, mas são os vendedores, locutores e equipamentos que conduzem a narrativa. O filme não procura silenciar a confusão sonora da Rua das Calçadas. Ao contrário, encontra nela seu principal argumento: a rua se comunica justamente porque muitas vozes falam ao mesmo tempo.
Vista quase duas décadas depois, a produção preserva também um momento específico da cultura urbana. As redes sociais digitais ainda não concentravam a publicidade dos pequenos comerciantes, e a conquista do público dependia fortemente da presença, da voz, do corpo e da ocupação do espaço. A calçada era vitrine, palco, estúdio e canal de distribuição.
Entre o canto do vendedor e a gravação levada pela bicicleta, o que aparece é uma comunicação inventada com os recursos disponíveis. Cada agente adapta linguagem, suporte e argumento às circunstâncias. Para vender, convocar ou convencer, transforma a própria rua em mídia.




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