Na SBPC, Guilherme Fernandes apresenta lições de Luiz Beltrão para fazer ciência com os saberes populares
Pesquisador defendeu uma Folkcomunicação capaz de articular diferentes formas de conhecimento, reconhecer a centralidade do território e analisar as manifestações populares como processos comunicacionais atravessados por conflitos.
Produzir ciência a partir das culturas populares não significa apenas transformar festas, narrativas, crenças e manifestações tradicionais em objetos que serão observados e explicados pela universidade. Exige reconhecer que o conhecimento científico convive e estabelece trocas com saberes populares, filosóficos e religiosos.
Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pelo professor Guilherme Moreira Fernandes na mesa virtual “(Re)concepção epistemológica da ciência frente às culturas populares e à ancestralidade: qual o papel da pesquisa brasileira?”, promovida pela Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom).
A atividade integrou a 75ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, realizada entre 23 e 29 de julho de 2023 na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. Com o tema “Ciência e democracia para um Brasil justo e desenvolvido”, o encontro reuniu atividades presenciais e virtuais de diferentes áreas do conhecimento.
Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), então presidente da Rede Folkcom e conselheiro da Socicom, Guilherme intitulou sua apresentação “Lições de Luiz Beltrão: modos de fazer ciência na Folkcomunicação”. Seu objetivo foi reconstruir princípios epistemológicos, teóricos e metodológicos presentes na obra do criador da primeira teoria brasileira da Comunicação.
Uma ciência que não isola os conhecimentos
Guilherme iniciou a exposição situando a Comunicação como uma ciência empírica de natureza social. Em diálogo com a ideia de “ciência do comum”, proposta por Muniz Sodré, defendeu que a área deve ser pensada de maneira pós-disciplinar, sem se limitar a um único objeto ou método.
Essa compreensão ganha uma dimensão particular quando a pesquisa se volta às culturas populares. Em vez de estabelecer uma separação rígida entre ciência e outros modos de conhecer, a Folkcomunicação permite observar como conhecimentos científicos, populares, filosóficos e religiosos se cruzam na vida cotidiana.
Uma promessa feita a um santo, por exemplo, pode envolver simultaneamente fé, memória familiar, conhecimentos sobre saúde, relações comunitárias e formas de expressão material. O trabalho científico não precisa validar o conteúdo religioso como verdade empírica, mas deve compreender o papel que essa crença desempenha na produção de sentidos e nas relações sociais.
Na perspectiva apresentada por Guilherme, os diferentes conhecimentos não vivem isolados. A ciência pode interrogá-los criticamente, mas também precisa reconhecer que as comunidades elaboram interpretações da realidade antes, durante e depois da chegada dos pesquisadores.
A primeira lição: olhar além da aparência
Para explicar como Luiz Beltrão chegou a essa concepção, Guilherme retomou o artigo “O ex-voto como veículo jornalístico”, publicado no primeiro número da revista Comunicações & Problemas.
Beltrão percebeu que os objetos depositados em espaços religiosos como agradecimento por uma graça alcançada não possuíam apenas valor artístico ou devocional. Eles também comunicavam acontecimentos, sofrimentos, esperanças e problemas vividos pela população.
“É tempo de não continuarmos a apreciar nessas manifestações folclóricas apenas os seus aspectos artísticos”, escreveu Beltrão, propondo que os pesquisadores procurassem compreendê-las como “a linguagem do povo”.
A observação representa uma mudança decisiva. O ex-voto deixa de ser tratado somente como objeto religioso e passa a ser lido como parte de um processo comunicacional. Seu formato, o local em que é colocado, a história que representa e sua repetição ao lado de outros objetos podem revelar questões sociais que não aparecem nos meios de comunicação convencionais.
Para Guilherme, essa inquietação fundamentaria a Folkcomunicação. O pesquisador precisa atravessar a aparência da manifestação para investigar as mensagens, os agentes, os meios, os códigos e as relações sociais nela envolvidos.
O folclore acontece no presente
A compreensão de folclore utilizada por Beltrão foi herdada principalmente do pesquisador baiano Edison Carneiro. Distante da imagem de uma cultura congelada ou destinada a desaparecer, o folclore aparece como fenômeno vivo, funcional e dinâmico.
O povo atualiza, reinterpreta e readapta seus modos de sentir, pensar e agir conforme os acontecimentos sociais e os repertórios disponíveis em cada tempo. Por isso, uma manifestação não deixa de ser folclórica quando incorpora recursos tecnológicos, circula na internet ou adota novas linguagens.
O cordel pode ser impresso em folheto, publicado em um site, transformado em vídeo ou receber animações. As mudanças de suporte integram a dinâmica da cultura e não significam necessariamente a perda de sua condição popular.
Esse princípio é fundamental para os modos de fazer ciência na Folkcomunicação. A pesquisa não deve procurar apenas sobrevivências do passado, mas observar como os repertórios tradicionais continuam sendo recriados para responder às experiências do presente.
Reconstruir um método pelas pistas de Beltrão
Um dos aspectos mais originais da apresentação foi a estratégia adotada por Guilherme para compreender o método de Luiz Beltrão. O pesquisador analisou os sumários e a organização interna da tese de 1967, do livro Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados, publicado em 1980, e de projetos de investigação esboçados posteriormente pelo autor.
A partir desses materiais, Guilherme reconstruiu o caminho científico percorrido por Beltrão.
O problema inicial era compreender como as parcelas da população brasileira sem acesso aos “meios ortodoxos” — jornais, rádio e televisão — conseguiam se informar, expressar opiniões e compartilhar ideias.
Beltrão articulou três grandes conjuntos teóricos disponíveis em sua época: as pesquisas norte-americanas sobre o fluxo da comunicação e os líderes de opinião; as interpretações sociais sobre a existência de diferentes “Brasis”; e a teoria do folclore de Edison Carneiro.
Sua hipótese era que os grupos sem acesso aos meios massivos possuíam força cultural para criar seus próprios canais de comunicação. Para investigá-la, realizou entrevistas, observações e revisões bibliográficas, recorrendo especialmente aos trabalhos dos folcloristas, que já haviam documentado oralidades, musicalidades, celebrações, narrativas e práticas coletivas.
Beltrão concluiu que existia um sistema formado por procedimentos orais, escritos, visuais e performáticos de informação e expressão de ideias. A esse sistema deu o nome de Folkcomunicação.
A manifestação isolada não é a unidade de análise
A leitura metodológica proposta por Guilherme ajuda a demarcar o objeto da Folkcomunicação. A teoria não estuda uma manifestação cultural apenas por sua origem popular. O que interessa é o processo comunicacional que envolve agentes, mensagens, meios, públicos, repertórios, conflitos e formas de recepção.
Um cordel, uma festa ou uma narrativa não carregam um sentido político fixo. Durante a palestra, Guilherme lembrou que uma mesma materialidade pode expressar visões de mundo conflitantes. O cordel tanto pode defender uma posição ideológica quanto servir à posição oposta.
Essa observação impede que a cultura popular seja romantizada como essencialmente contra-hegemônica. Sua potência de resistência depende do modo como os agentes acionam os repertórios, dos sentidos colocados em circulação e das relações de poder presentes em cada situação.
A materialidade popular, por si só, não garante um conteúdo emancipador. Ela também pode reproduzir preconceitos, reforçar hierarquias ou ser apropriada por atores hegemônicos. Por isso, o pesquisador deve analisar o processo, e não classificar previamente o objeto.
Artesanal não significa contrário à tecnologia
Outra lição destacada por Guilherme é que o caráter artesanal e horizontal da Folkcomunicação não deve ser confundido com ausência de tecnologia.
“Artesanal” indica que determinada comunicação não segue necessariamente a lógica industrial e massiva. Isso não impede que os grupos dominem prensas, equipamentos audiovisuais, celulares, redes sociais ou plataformas digitais e os incorporem aos seus circuitos.
Um cartaz levado a uma manifestação, uma frase escrita no corpo, um cordel eletrônico ou uma performance difundida pelas redes podem integrar processos folkcomunicacionais. A tecnologia torna-se parte da prática quando é apropriada pelos grupos e adaptada aos seus códigos.
Guilherme também abordou os cruzamentos entre os meios populares e a indústria cultural. Obras como O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, transitam entre teatro, cinema e televisão, articulando repertórios eruditos, massivos e populares. Esses processos revelam que as fronteiras culturais são permeáveis e estão em constante negociação.
Território, linguagem e sensibilidade do meio
Nas conclusões, Guilherme sistematizou algumas lições de Beltrão para a pesquisa contemporânea. Entre elas estão a articulação de diferentes formas de conhecimento, o reconhecimento da natureza empírica da Comunicação e a atenção à sensibilidade dos meios utilizados em cada território.
Uma mensagem folkcomunicacional adquire sentido porque estabelece vínculos com um grupo. Seus códigos podem não ser compreendidos por pessoas externas ou assumir significados diferentes quando deslocados para outros contextos.
Por isso, o alcance reduzido não deve ser interpretado como falha. Uma comunicação dirigida a uma comunidade específica pode produzir efeitos relevantes mesmo sem atingir um público massivo. A questão científica não é apenas quantas pessoas receberam a mensagem, mas como ela foi reconhecida, reelaborada e convertida em ação.
O território, nessa perspectiva, não representa somente uma delimitação geográfica. Ele reúne experiências, memórias, conflitos, relações de pertencimento e códigos compartilhados.
Cordel como práxis ambiental
Para exemplificar essa articulação, Guilherme recuperou a atuação do médico, folclorista e ambientalista paraense Camillo Martins Vianna, um dos fundadores da Sociedade de Preservação aos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia (Sopren).
Em ações de educação e mobilização ambiental, a entidade utilizou cordéis para alcançar comunidades sensíveis àquela linguagem. As mensagens tratavam da proteção da natureza e, simultaneamente, da “reanimação cultural” dos territórios.
A experiência não consistia apenas em utilizar o cordel como embalagem para informações científicas. O meio possuía legitimidade, vínculo cultural e capacidade de dialogar com os públicos envolvidos. O conhecimento ambiental era colocado em circulação por uma linguagem reconhecida pela comunidade.
É nesse encontro entre reflexão, prática e transformação que Guilherme situa a práxis folkcomunicacional. A teoria permite compreender o processo, mas a comunicação também participa de ações concretas relacionadas à preservação, à cidadania e à defesa de direitos.
Fé, esperança e amor como projetos científicos
Guilherme encerrou a apresentação recuperando projetos de pesquisa deixados por Beltrão sobre a comunicação da fé, da esperança e do amor. A organização dos sumários mostra como o autor articulava religião, filosofia, cultura popular e meios de comunicação.
Na pesquisa sobre a fé, Beltrão pretendia observar as representações do sobrenatural, as relações entre o profano e o religioso, o sincretismo e a transformação dos símbolos em diferentes meios. O percurso passava por folhetos, volantes, cordéis, carrancas, cinema, rádio, televisão e música.
Mais do que curiosidades de um arquivo, esses projetos revelam uma concepção metodológica. O pesquisador parte de uma experiência humana, observa suas formas de representação, identifica os meios pelos quais ela circula e acompanha as transformações produzidas na passagem de um circuito para outro.
As lições de Luiz Beltrão apresentadas por Guilherme Fernandes apontam, assim, para uma ciência que não fala apenas sobre as culturas populares, mas procura construir conhecimento em diálogo com os processos, agentes e saberes que as constituem.
O rigor científico permanece necessário, mas deixa de funcionar como instrumento de silenciamento. Em seu lugar, surge uma pesquisa capaz de reconhecer conflitos, acompanhar transformações e compreender que a cultura popular não é somente fonte de dados: ela também produz interpretações, tecnologias, conhecimentos e modos próprios de agir no mundo.





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