“Isso é mídia”: Jacqueline Dourado mostra como para-choques, cordéis e ex-votos comunicam
Em palestra realizada em 2010 no VIII Seminário Tradições Brasileiras: História, Memória e Folguedos, pesquisadora recupera a trajetória de Luiz Beltrão e apresenta o projeto Caçadores de Milagres, dedicado a mapear ex-votos e focos de peregrinação no Piauí
Uma frase pintada no para-choque de um caminhão, uma cruz erguida à beira da estrada, a malhação de Judas, um folheto de cordel ou uma peça de madeira depositada em pagamento de promessa. Para Jacqueline Lima Dourado, todas essas manifestações podem ser lidas como veículos pelos quais grupos populares comunicam experiências, opiniões, denúncias e modos de interpretar o mundo.
Esse é o percurso desenvolvido pela pesquisadora na palestra Folkcomunicação e Cultura Popular, apresentada em 23 de junho de 2010 durante o VIII Seminário Tradições Brasileiras: História, Memória e Folguedos, realizado na UESP. Preservada no YouTube em quatro partes sequenciais, além do vídeo de encerramento, a exposição aproxima as bases teóricas formuladas por Luiz Beltrão de uma pesquisa sobre religiosidade popular desenvolvida no Piauí.
Dourado começa pelo folclore. “Espontaneidade, desconhecimento da autoria, oralidade, tradicionalidade, aceitação coletiva, identificação e popularidade” estão entre as marcas enumeradas pela pesquisadora para reconhecer uma manifestação folclórica. A folkcomunicação incorpora essa reserva de conhecimentos e práticas populares ao estudo dos processos comunicacionais, especialmente daqueles estabelecidos nas fronteiras com a comunicação de massa.
“A folkcomunicação vai se aproveitar daquelas características do folclore, da sabedoria, da reserva intelectual que tem o folclore, e vai acrescentar a comunicação de massa”, explica.
É nesse ponto que surge Luiz Beltrão. Jornalista e primeiro doutor em Comunicação do Brasil, ele percebeu que os grupos afastados dos meios convencionais não permaneciam incomunicáveis. Criavam e utilizavam outros agentes, linguagens e suportes para transmitir informações e expressar ideias. Para Dourado, essa percepção permitiu que Beltrão enxergasse conteúdo jornalístico onde a academia de sua época via apenas curiosidade folclórica ou expressão de uma suposta cultura inferior.
Na palestra, ela recupera exemplos que ajudaram a formar esse olhar: inscrições em para-choques, grafites em banheiros e muros, cruzes de madeira nas estradas, vendedores ambulantes, cordéis, esculturas populares e celebrações como a malhação de Judas. Ao citar a frase “Pobre é igual barbante: quando não está esticado, está no rolo”, Dourado pergunta o que existe ali além da criatividade popular. Há comentário social, protesto e informação. “Isso é mídia”, conclui.
Essa interpretação começou a ganhar forma no artigo O ex-voto como veículo jornalístico, publicado por Beltrão no primeiro número da revista Comunicações & Problemas, em março de 1965. Dois anos depois, a pesquisa seria aprofundada na tese Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de ideias, defendida na Universidade de Brasília. Roberto Benjamin registra que a divulgação do trabalho foi prejudicada pelo afastamento de Beltrão da direção da Faculdade de Comunicação da UnB e pela demora na publicação integral da tese.
Dourado também recupera o diálogo de Beltrão com as teorias do fluxo da comunicação. Em vez de imaginar uma mensagem que sai dos meios, chega ao líder de opinião e depois é simplesmente repassada ao público, ela descreve um movimento realizado em múltiplos níveis. Uma pessoa recebe a informação, comenta com outra, leva o assunto aos estudantes e recebe deles novas interpretações. “Nós estamos aqui num ciclo dinâmico de comunicação, mesmo eu só falando e vocês ouvindo”, observa.
A pesquisadora enfatiza o componente político desse pensamento. Os meios populares estudados por Beltrão não comunicavam somente festas ou costumes. Manifestavam também conflitos pela terra, pobreza, doenças e desigualdades. Nos pagamentos de promessa dedicados a crianças mortas por verminoses, desidratação e outros problemas evitáveis, por exemplo, Dourado identifica uma denúncia indireta da falta de assistência médica e de acesso à água.
Além da fé, esses movimentos “clamavam por uma situação menos cruel”, afirma.
A promessa religiosa transforma, assim, a dor particular em registro público de um problema coletivo. Na interpretação apresentada por Dourado, foi também por revelar essas contradições que o trabalho de Beltrão encontrou resistência durante a ditadura militar. Sua pesquisa voltava-se para aquilo que as populações marginalizadas comunicavam, ainda que essas mensagens não circulassem nos jornais, emissoras e demais instituições reconhecidas.
A segunda metade da palestra apresenta o projeto Caçadores de Milagres, inicialmente desenvolvido de maneira informal e posteriormente cadastrado na Universidade Federal do Piauí. O objetivo era mapear o que Dourado chama de “focos difusores de peregrinação religiosa”: santuários, túmulos, monumentos, cruzeiros e outros lugares em torno dos quais se formaram práticas de devoção. “Não é uma análise religiosa, e sim comunicacional”, ressalta.
O interesse estava em compreender o que os ex-votos dizem, quem os produz, como são depositados, quais histórias fazem circular e de que maneira permitem conhecer as comunidades envolvidas. O ex-voto é apresentado como a materialização do compromisso assumido pelo devoto. “Quando você faz uma promessa, você faz um voto. Quando vai pagar, você faz o ex-voto”, explica Dourado.
O mapeamento citado na palestra percorre diferentes regiões do Piauí. Entre os exemplos estão o Cruzeiro dos Três Irmãos, em Jaicós, já mencionado por Luiz Beltrão; as almas do desastre do Marimbá, Sitônio e Castelete, em Altos; a escravizada Felicidade e as almas da Batalha do Jenipapo, em Campo Maior; Maria da Consolação, em Piripiri; João Cartomante, em Piracuruca; Auta Rosa, em Amarante; o mendigo Frutuoso, em Passagem Franca; Nossa Senhora da Conceição, em Bocaina; e o monumento ao motorista Gregório, em Teresina. Parte dessa cartografia seria sistematizada posteriormente no artigo sobre o novenário da Vila Operária.
Mais do que reunir lugares, a pesquisa procurava identificar os processos que transformavam pessoas comuns em santos populares. “O que vai caracterizar a maioria desses focos de peregrinação? A maneira como as pessoas morrem”, afirma Dourado.
A pesquisadora relata o caso de Castelete, descrito como um homem ligado ao crime, mas submetido a uma morte considerada cruel e covarde. Preso e acorrentado dentro de uma cela, teria sido morto sem possibilidade de defesa. A violência sofrida provocou comoção, fazendo com que o antigo bandido passasse a ser procurado como milagreiro.
“Esse bandido, morto de forma covarde, é que é o milagreiro”, resume.
O caso demonstra que a santificação popular não depende necessariamente de uma vida exemplar segundo os critérios oficiais da Igreja. A morte injusta, o sofrimento e a identificação da comunidade com a vítima podem ser mais importantes do que sua trajetória anterior. A história de Auta Rosa permite à palestrante discutir gênero, raça e exclusão social. Apresentada como uma jovem negra que vivia como “cria” em uma casa de família, Auta teria sido violentada e expulsa ainda adolescente.
“O que acontecia com essas meninas? Eram violentadas, estupradas e expulsas. Caíam na vida”, questiona Dourado, lembrando que a legislação de combate à pedofilia era recente.
Sem ter a quem recorrer, muitas dessas jovens eram classificadas socialmente como prostitutas. A exclusão continuava depois da morte: não podiam entrar na igreja nem ser enterradas junto às famílias consideradas respeitáveis. Auta Rosa foi sepultada do lado de fora dos muros do cemitério. A injustiça que a marginalizou em vida contribuiu para a comoção que posteriormente a transformou em santa popular. Ao estudar os objetos depositados nesses lugares, Dourado procura construir uma classificação. “Quando a gente vai fazer a pesquisa, a gente vai fazer a taxionomia dos ex-votos”, explica.
Há ex-votos figurativos, como braços, cabeças, pernas, figuras humanas e animais feitos de madeira, metal, cera, marfim, osso ou pedra. São objetos que reproduzem a parte do corpo curada, a pessoa beneficiada ou outro elemento diretamente relacionado à graça recebida.
Há também os representativos, nos quais o objeto comunica a graça por associação: diplomas e fardas indicam êxito escolar; dragonas representam conquistas militares; vestidos de noiva agradecem um casamento; umbigos de recém-nascidos registram um parto bem-sucedido. O objeto não representa visualmente o milagre, mas funciona como uma síntese da conquista.
Maria da Consolação, em Piripiri, aparece como outro exemplo. Estudante adolescente, ela foi vítima de estupro, tortura e assassinato. Por sua identificação com a juventude, muitos dos objetos depositados em sua homenagem estariam relacionados aos estudos e aos períodos de prova. Cadernos, fotografias, uniformes e bonecas passam a comunicar simultaneamente devoção, memória e expectativas de futuro. “É essa riqueza comunicacional que vale a pena”, destaca Dourado.
Também aparecem os ex-votos discursivos, formados por cartas, bilhetes, cartazes, faixas e outros textos. No início da quarta parte da gravação, Dourado menciona cartas com pedidos desesperados por emprego. O documento devocional volta a revelar algo maior do que uma necessidade individual: torna-se vestígio da precariedade profissional experimentada por uma parcela da população.
Na Vila Operária, em Teresina, a pesquisadora identifica ainda o predomínio do ex-voto testemunhal. Em vez de oferecer uma escultura ou objeto, o próprio devoto transforma o corpo em mensagem: entra de joelhos na igreja, caminha até a imagem da santa, participa regularmente da novena ou realiza publicamente outro gesto prometido. O pagador de promessa é, ao mesmo tempo, emissor, suporte e testemunho da graça recebida.
Vista hoje, a palestra registra uma etapa importante da consolidação dos estudos de folkcomunicação no Piauí. Ao passar da teoria de Luiz Beltrão para os santuários, túmulos, cartas e objetos encontrados em campo, Jacqueline Dourado demonstra que o popular não é apenas tema da comunicação: é também produtor de meios, mensagens e circuitos próprios.
Os ex-votos falam de fé, mas igualmente de desemprego, doenças, violência sexual, racismo, pobreza e abandono. Por trás de cada braço de madeira, vestido de noiva ou carta deixada diante de uma imagem existe uma história que encontrou naquele espaço uma possibilidade de circulação. É nesse deslocamento — da promessa particular para a experiência coletiva — que a palestra localiza uma das forças centrais da folkcomunicação.





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