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“Sou também fruto do folclore dessa cidade”: Guilherme Fernandes relembra trajetória ao receber o Prêmio Luiz Beltrão

18 de mai. de 2025
7 min de leitura

Atualizado: 27 de ago.

Reconhecido como Liderança Emergente em 2023, professor da UFRB relacionou cultura popular, universidade pública, diversidade e formação científica em discurso emocionado



“Telenovelas inteiras passaram na minha cabeça.” Foi assim que Guilherme Moreira Fernandes começou a reconstituir a própria trajetória ao receber o Prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação, na categoria Liderança Emergente. A cerimônia ocorreu em 6 de setembro de 2023, no Teatro São João Paulo II da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), em Belo Horizonte, durante o 46º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.


A expressão escolhida pelo pesquisador não era apenas uma figura de linguagem. As telenovelas dividem com a Folkcomunicação o centro de sua produção acadêmica. Em seu discurso, as duas áreas apareceram entrelaçadas a lembranças da infância, experiências de preconceito, políticas de permanência estudantil, encontros com professores e a formação de uma rede de pesquisadores.


Mineiro, Guilherme destacou o significado de receber a homenagem em seu estado natal. O prêmio foi entregue por Marialva Barbosa, sua orientadora no doutorado e uma das pesquisadoras que exerceram papel decisivo em sua formação.


Mais do que enumerar títulos e instituições, ele transformou o agradecimento em uma narrativa sobre as condições que possibilitam a construção de uma carreira acadêmica. A história começava longe dos grandes centros universitários, em uma cidade da Zona da Mata mineira.


“Sou fruto do folclore dessa cidade”

Guilherme nasceu em Senador Firmino, município próximo a Ubá, Viçosa e Juiz de Fora. É filho de Fátima, costureira e quitandeira, e de Etelvino, funcionário público estadual.

Na noite da premiação, vestia uma camisa costurada pela mãe e dada ao pai quando os dois ainda namoravam. Depois da morte de Etelvino, a peça ficou para o filho como herança. A roupa transformava a presença dos pais em parte material da homenagem.


O interesse pela pesquisa começou ainda na escola. Guilherme recordou um trabalho sobre a cidade histórica de Sabará. Embora nunca tivesse visitado o município, pesquisou sua história para uma feira de ciências e memorizou até trechos do hino local.


Em Senador Firmino, as experiências formadoras também estavam nas festas, ruas, igrejas e celebrações comunitárias. Guilherme foi príncipe da pipoca, folião-mirim e príncipe da Festa do Divino. Dançou quadrilha, participou de procissões, fez teatro na igreja e conviveu com artesãos e detentores de saberes populares.


Na época, ainda não conhecia a teoria desenvolvida por Luiz Beltrão. Reconheceria mais tarde, naquelas experiências, diferentes processos de comunicação produzidos e transmitidos pela cultura popular. “Sou também fruto do folclore dessa cidade”, afirmou.


A frase ajuda a compreender por que a Folkcomunicação não surgiu em sua trajetória apenas como uma escolha bibliográfica. Antes de se tornar conceito, ela já estava nas experiências de infância, nas formas de sociabilidade do município e nos conhecimentos compartilhados por seus moradores.


A universidade que transformou um destino

Guilherme deixou Senador Firmino para cursar o ensino médio no Colégio Técnico Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde também se formou como técnico em Turismo. Naquele período, já imaginava que sua trajetória não terminaria na graduação: queria tornar-se mestre, doutor e pós-doutor.


Em seu discurso, apresentou a UFJF como a primeira instituição a que precisava agradecer. Foi ali que cursou Jornalismo, recebeu apoio para permanecer estudando, participou de eventos científicos, trabalhou como jornalista e, posteriormente, tornou-se professor. “A UFJF transformou minha vida, mudando o destino comumente reservado a um menino gay e do interior”, declarou.


A permanência na universidade foi assegurada por auxílios, bolsas e pelos R$ 200 enviados mensalmente pela avó Teresinha. As viagens financiadas pela instituição permitiram que conhecesse congressos, pesquisadores e espaços acadêmicos que ampliaram sua formação para além da sala de aula.


Embora não tenha sido bolsista de iniciação científica, Guilherme encontrou professores e colegas que o estimularam a escrever artigos. Ao lado dos amigos Marcelo Machado, Adriana Cossul e Diogo Rodrigues, começou a participar de eventos em diferentes cidades.


O contato inicial com a Folkcomunicação ocorreu depois de uma palestra ministrada pela professora Maria José Oliveira. A teoria despertou tamanho interesse que os estudantes passaram a experimentá-la em trabalhos sobre objetos variados, entre eles o Profeta Gentileza, o funk carioca e os programas infantis de auditório.


A orientação da professora levou o grupo à Conferência Brasileira de Folkcomunicação. No evento, Guilherme encontrou autores que conhecia por meio dos livros e foi acolhido por pesquisadores envolvidos na continuidade do campo.


Na edição seguinte da conferência, realizada em Ponta Grossa, recebeu a primeira distinção de sua trajetória acadêmica: a Homenagem Pedro Rota, concedida ao terceiro melhor artigo produzido por estudante de graduação.


O trabalho contou com a orientação de Paulo Roberto Figueira Leal, professor que passou a acompanhar suas inquietações científicas e a incentivar sua participação nos eventos da Intercom e da Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional.


Marques de Melo e a formação de um pesquisador

Entre os mestres recordados no discurso estava José Marques de Melo. Guilherme nunca foi formalmente seu aluno, mas reconhece no pesquisador um dos responsáveis por sua formação.


Marques de Melo ofereceu oportunidades quando Guilherme ainda iniciava a pós-graduação. Por indicação dele, o jovem pesquisador assumiu a Diretoria Administrativa da Rede Folkcom. Os dois também organizaram Metamorfose da Folkcomunicação: antologia brasileira, obra de mais de mil páginas que reuniu textos fundamentais para a história e a consolidação da teoria.


A parceria prosseguiu na organização dos três volumes de Pensamento comunicacional brasileiro: o legado das Ciências Humanas, publicados pela Paulus.

Guilherme também recuperou uma passagem ligada à memória da ditadura militar. Ao saber que ele pesquisaria no Arquivo Nacional, em Brasília, Marques de Melo contou que o processo sobre sua cassação na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo havia desaparecido dos arquivos da instituição.


Durante a pesquisa, Guilherme localizou dois processos relacionados à perseguição sofrida pelo professor. Segundo relatou, a documentação seria posteriormente utilizada no processo que levou ao reconhecimento da anistia de Marques de Melo, em 2015.

A coincidência adquiriu novo significado na cerimônia de 2023: além de Guilherme, o próprio Arquivo Nacional recebeu o Prêmio Luiz Beltrão, na categoria Instituição Paradigmática.


“Este prêmio é também da Rede Folkcom”

A aproximação com José Marques de Melo levou Guilherme à gestão da Rede Folkcom. Ele passou a integrar a diretoria em 2012 e presidiu a associação entre 2019 e 2024.

Em sua fala, recordou que Marques de Melo participou da criação de diferentes entidades acadêmicas, mas mantinha um carinho especial pela Rede dedicada à continuidade dos estudos de Folkcomunicação.

“A Rede Folkcom me acolheu, menino pequeno, e me transformou em pesquisador referenciado”, declarou Guilherme.


O pesquisador agradeceu às diferentes gerações que contribuíram para sua formação e para a manutenção da entidade. Entre os nomes mencionados estavam Karina Janz Woitowicz, Júnia Martins, Flávio Santana, Maria Érica de Oliveira Lima, Marcelo Pires de Oliveira, Marcelo Sabbatini, Fábio Corniani, Osvaldo Trigueiro, Luiz Custódio da Silva e Severino Lucena Filho.


“Entendo que este prêmio é também da Rede Folkcom”, sintetizou.

O reconhecimento como Liderança Emergente considerava, assim, não apenas uma produção individual, mas uma trajetória construída em encontros, orientações, livros, eventos e projetos coletivos.


Quando a telenovela se transformou em problema de pesquisa

A Folkcomunicação não foi a única paixão científica despertada durante a infância em Senador Firmino. As telenovelas também atravessaram a formação de Guilherme, embora de maneira dolorosa.


Quando surgia na televisão um personagem homossexual, seu nome frequentemente se transformava no apelido utilizado contra Guilherme no cotidiano escolar. Os trejeitos das personagens alimentavam o bullying dirigido aos seus gestos e comportamentos considerados afeminados.


A experiência ajudou a formular questões que o pesquisador levaria posteriormente para o mestrado e o doutorado. No Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFJF, sob orientação de Maria Cristina Brandão de Faria, estudou as representações e identidades de personagens homossexuais nas telenovelas da TV Globo durante a ditadura militar.


Na mesma época, passou a integrar a Rede Brasileira de Pesquisadores de Ficção Televisiva, o Obitel Brasil, liderado por Maria Immacolata Vassallo de Lopes. A pesquisadora participou das bancas de defesa de seu mestrado e doutorado.

Ao identificar a escassez de estudos sobre a censura às telenovelas, Guilherme encontrou o tema de sua tese. Ingressou no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde foi orientado por Marialva Barbosa.


O encontro com a professora fechava um círculo iniciado anos antes. Guilherme a conhecera em seu primeiro congresso da Intercom, justamente quando Marialva recebeu o Prêmio Luiz Beltrão na categoria Maturidade Acadêmica. Em 2023, foi ela quem entregou ao antigo orientando o troféu de Liderança Emergente.


Guilherme defendeu o doutorado em 2018 e iniciou um estágio de pós-doutorado em Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa, sob supervisão de Karina Janz Woitowicz. No mesmo ano, foi aprovado em concurso para a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.


Do interior mineiro ao Recôncavo Baiano

Mudar-se para Cachoeira, no Recôncavo Baiano, representou para Guilherme uma aproximação com o universo interiorano do qual sempre se orgulhou. Também lhe permitiu trabalhar com estudantes de origens sociais semelhantes à sua.

Na UFRB, passou a atuar na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, orientando pesquisas atravessadas pela Folkcomunicação. No momento da premiação, coordenava o Bacharelado em Comunicação Social/Jornalismo e participava do Grupo de Pesquisa Corpo e Cultura.


Ao final do discurso, Guilherme refletiu sobre a geração de pesquisadores à qual pertence. Recorreu à professora Helena, da novela infantil Carrossel, como referência afetiva de quem cresceu no fim do século XX e chegou à universidade em um período de questionamento das estruturas e dos conhecimentos consolidados.


Para ele, a responsabilidade dessa geração não consiste apenas em reproduzir os conceitos aprendidos. É preciso experimentá-los, atualizá-los e produzir outras formas de ensinar e pesquisar. “Nosso desejo é o de uma universidade verdadeiramente mais inclusiva e, sobretudo, diversa”, defendeu.


A trajetória recuperada no discurso mostra como as perguntas científicas podem nascer das experiências mais próximas: uma festa religiosa, uma quadrilha, um personagem de telenovela, uma situação de preconceito ou uma pesquisa escolar sobre uma cidade ainda desconhecida.


Ao conceder a Guilherme Fernandes o Prêmio Luiz Beltrão, a Intercom reconheceu uma liderança construída por meio da universidade pública, da colaboração entre pesquisadores e do compromisso com a diversidade. Reconheceu também uma trajetória que nunca abandonou suas primeiras referências.


Do menino que foi príncipe da pipoca ao professor que orienta novas pesquisas no Recôncavo Baiano, permaneceu a compreensão expressa naquela noite: antes de pesquisar o folclore, Guilherme já havia sido formado por ele.

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