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“Ficar do lado da vida foi contestador”: live debate artivismo e cultura popular contra a desinformação

27 de ago.
8 min de leitura

Em encontro promovido pelo GP Folkcomunicação da Intercom, Cristina Schmidt Portéro e Djalma Thürler discutiram grafite, cordel, teatro, saberes populares e a responsabilidade de artistas, professores e ativistas diante do negacionismo



Durante a pandemia de covid-19, grafiteiros pintaram personagens de máscara, rappers participaram de campanhas de prevenção e cordelistas traduziram para seus públicos informações sobre vacinação e falsas curas. Ao reproduzir orientações defendidas pela ciência e pelas autoridades sanitárias, essas manifestações teriam perdido sua força contestadora? Para os pesquisadores Cristina Schmidt Portéro e Djalma Thürler, a resposta exige perguntar: qual era, naquele momento, o verdadeiro discurso oficial brasileiro?


A questão esteve no centro da live Cultura popular e artivismo midiático em tempos de (des)informação, realizada em 26 de maio de 2022. Promovido pelo GP Folkcomunicação durante a quarta temporada de lives da Cátedra Intercom, o encontro teve mediação de Marcelo Sabbatini, da Universidade Federal de Pernambuco, e Betania Maciel, então vinculada à ESUDA e ao Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura.


Realizada quando o Brasil ainda enfrentava as consequências sanitárias, sociais e políticas da pandemia, a conversa reuniu a pesquisadora em folkcomunicação Cristina Schmidt Portéro e o diretor teatral e professor da Universidade Federal da Bahia Djalma Thürler. Ao longo de pouco mais de uma hora, eles aproximaram culturas populares, arte, conhecimento científico, dissidências, educação e enfrentamento à desinformação.


Quando o poder reconhece a potência da arte

Thürler iniciou sua participação recordando que a arte não é atacada por ser irrelevante. Ao contrário: governos autoritários procuram censurar exposições, filmes e peças justamente porque reconhecem sua capacidade de desestabilizar certezas, questionar normas e conferir visibilidade a identidades dissidentes.


Entre os marcos recentes, o pesquisador mencionou o encerramento antecipado da exposição Queermuseu — Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, em Porto Alegre. A mostra, realizada no Santander Cultural, foi fechada em setembro de 2017 depois de uma campanha de pressão organizada nas redes sociais. O episódio foi seguido por outras disputas envolvendo obras com temáticas de gênero, sexualidade e diversidade.


Para Thürler, os ataques às políticas culturais não devem ser explicados somente como resultado da falta de interesse ou formação artística dos governantes. Eles revelam o reconhecimento da arte como força política. Ao produzir estranhamento e romper com aquilo que socialmente foi apresentado como “normal” ou “natural”, o trabalho artístico permite imaginar outras formas de existência.


Essa potência também nasce da aproximação entre a produção artística e os conhecimentos desenvolvidos nas universidades. Thürler define sua própria trajetória como uma atuação na encruzilhada entre as artes e as Ciências Humanas e Sociais. O palco e o gabinete não aparecem como espaços separados: o camarim também pode se transformar em lugar de pesquisa.


Durante a live, ele contou que um artigo acadêmico seu havia alcançado aproximadamente 300 downloads em 11 anos. Uma peça apresentada em quatro sessões para um teatro com 150 lugares poderia atingir 600 espectadores em apenas um fim de semana. A comparação não reduz a importância do artigo, mas demonstra a capacidade da arte de ampliar a circulação do conhecimento e alcançar públicos que dificilmente leriam uma publicação científica.


Culturas populares também produzem conhecimento

A discussão sobre desinformação começou antes mesmo das redes sociais. Cristina Schmidt Portéro observou que as culturas populares foram historicamente descritas como inferiores, desprovidas de ciência, sabedoria ou informação. Essa desqualificação contribuiu para marginalizar não somente determinadas práticas, mas também as pessoas responsáveis por conservar e transmitir seus conhecimentos.


Como exemplo, Cristina recuperou uma experiência vivida durante um seminário realizado no interior do Tocantins. O encontro reunia pesquisadores, estudantes, representantes políticos, uma benzedeira e um padre da cidade. Inicialmente, o religioso demonstrou resistência à ideia de que as benzedeiras possuíssem conhecimentos legítimos, considerando problemático que assumissem funções associadas à religião e à medicina.


A conversa sobre plantas, cuidados, transmissão de saberes e amparo emocional produziu, contudo, uma mudança. Ao final da atividade, segundo Cristina, o padre pediu desculpas publicamente às benzedeiras, reconhecendo que nunca havia observado suas práticas daquela perspectiva.


O episódio demonstra por que a folkcomunicação possui uma vocação interdisciplinar. Seu próprio nome provoca estranhamento ao aproximar dois campos que parte da academia aprendeu a manter separados: folclore e comunicação. Ao investigar a circulação de informações entre grupos populares, a disciplina também evidencia conhecimentos produzidos fora das instituições formais.


Cristina citou experiências nas quais benzedeiras dialogam com pesquisadores de Farmácia e Medicina para identificar plantas e compreender seus usos. Não se trata de apagar as diferenças entre conhecimento tradicional e investigação científica, mas de permitir que eles estabeleçam trocas sem pressupor que apenas um dos lados tenha algo a ensinar.


Grafite e cordel como veículos de informação

A pergunta mais provocadora da live foi apresentada por Marcelo Sabbatini. Durante a pandemia, ele e Betania Maciel haviam investigado separadamente manifestações de arte urbana. Ambos observaram que parte dos artistas incorporou orientações difundidas pelas instituições científicas e sanitárias: uso de máscaras, vacinação, prevenção e distanciamento.


Ao aderir a essas mensagens, a arte de rua teria sido domesticada?

Cristina respondeu a partir da experiência de um ex-orientando ligado ao movimento Arte e Cultura na Quebrada, posteriormente reconhecido como patrimônio cultural imaterial do município de São Paulo. Durante a pandemia, grafiteiros e rappers produziram trabalhos sobre a covid-19, ao mesmo tempo que continuaram abordando problemas e experiências dos próprios bairros.


Para a pesquisadora, essas produções não reproduziam passivamente uma comunicação institucional. Grafite, rap e literatura de cordel funcionavam como veículos de informação próximos de seus receptores. As mensagens eram selecionadas, traduzidas e apresentadas por linguagens reconhecidas pelas comunidades — processo que dialoga diretamente com a definição de folkcomunicação formulada por Luiz Beltrão.


Os artistas não abandonavam a contestação ao falar de máscaras e vacinas. Atuavam como mediadores entre o conhecimento científico e grupos que nem sempre se reconheciam nos discursos dos grandes veículos de comunicação.


Thürler acrescentou outra camada à resposta. No Brasil de 2020 e 2021, a minimização da pandemia, a demora na aquisição de vacinas e a contestação das medidas preventivas partiram do próprio governo federal. Nesse contexto, defender a ciência e a saúde não significava simplesmente acompanhar o poder instituído. Significava confrontar uma política que o pesquisador identificou como política de morte.


Assim, posicionar-se em favor das medidas sanitárias podia ser uma atitude profundamente contestadora. Os artistas não estavam aderindo ao discurso do governo, mas se contrapondo a ele por meio das orientações defendidas pela ciência.


A pandemia tinha endereço

A pandemia também não atingiu todos os grupos da mesma maneira. Pessoas das periferias, trabalhadores informais e aqueles que não podiam permanecer em casa foram expostos a riscos maiores. A recomendação de isolamento possuía limites evidentes para quem precisava enfrentar diariamente ônibus lotados ou perderia sua fonte de renda.

Thürler condensou essa desigualdade em uma frase: “A pandemia tem CEP e CPF”.

Charges, grafites e outras manifestações populares foram capazes de mostrar quem podia se proteger e sobre quais corpos recaíam os maiores custos da crise. A arte não apenas informava sobre o vírus: denunciava as condições sociais que tornavam determinados grupos mais vulneráveis.


Betania Maciel relacionou essa atuação às produções realizadas com celulares nas periferias. Durante a live, recordou o caso de um jovem que documentou um incêndio em palafitas localizadas nas proximidades de um shopping voltado às classes de maior poder aquisitivo no Recife. Ao publicar imagens e manifestar sua indignação, ele produziu uma reportagem popular sobre as desigualdades da cidade.


Nesse processo, pessoas que encontram pouco espaço nos meios tradicionais deixam de aparecer somente como fontes ou personagens. Elas próprias registram, interpretam e fazem circular os acontecimentos que afetam suas comunidades.


Arte, política e transformação

Realizada em ano eleitoral, a conversa também abordou a responsabilidade política dos pesquisadores e artistas. Thürler contou que havia desistido temporariamente de realizar um pós-doutorado fora do país porque considerava importante permanecer no Brasil durante as eleições de 2022.


Sua forma de participação não se restringia ao voto ou ao debate público. Passava pelo teatro. Naquele período, planejava montar espetáculos baseados em textos do filósofo Paul B. Preciado, utilizando o que chamou de “peça-conferência”: uma apresentação que combina reflexão intelectual e recursos ficcionais.


A proposta exemplifica como a arte pode produzir conhecimento sem se converter em aula ilustrada. Em vez de entregar uma resposta pronta, a encenação cria deslocamentos que levam o público a pensar sobre corpos, diferenças, subalternização e escolhas políticas.

Para Thürler, nenhuma disciplina isolada seria capaz de explicar o caos experimentado nos anos anteriores. A encruzilhada entre arte, filosofia e Ciências Humanas oferece instrumentos para compreender a complexidade e fortalecer a vontade coletiva de transformar o mundo.


Como furar as bolhas?

Uma pergunta enviada pelo público deslocou a discussão para as bolhas de informação. Cristina reconheceu que não existe uma fórmula simples para rompê-las. A pandemia e o ensino remoto intensificaram separações, aproximando cada pessoa apenas daquilo que lhe confortava ou confirmava suas posições.


A pesquisadora defendeu que professores e universidades promovam encontros capazes de produzir diálogo, debate e, quando necessário, embate. As diferenças precisam se confrontar para que possam ser reconhecidas. Essa aproximação pode ocorrer em sala de aula, mas também em festivais, seminários, territórios indígenas, manifestações culturais e outros espaços de convivência.


Segundo Cristina, estudantes retornavam das experiências de isolamento carregando dúvidas e “vazios” emocionais que as aulas tradicionais já não conseguiam responder. O trabalho docente precisaria, portanto, ultrapassar a mera transmissão de conteúdos e reconstruir vínculos entre conhecimento, experiência e realidade social.


Thürler complementou que as bolhas não nasceram com as plataformas digitais. Diferenças de repertório e pertencimento sempre produziram universos culturais relativamente separados. Rompê-los depende também de uma decisão pessoal: reconhecer que existe algo fora do próprio circuito e aceitar a necessidade de conhecê-lo.


Para ele, o sucateamento da educação, da ciência e da cultura não ocorre por acaso. Atinge justamente instituições e profissionais capazes de estimular esse deslocamento.


Ativistas contra o ecossistema da desinformação

Na parte final, os participantes discutiram como enfrentar estruturas de desinformação que possuem financiamento, interesses econômicos e objetivos políticos. Cristina recorreu às formulações de Osvaldo Meira Trigueiro sobre os ativistas midiáticos: agentes vinculados a movimentos culturais que criam estratégias de participação e cidadania.


O ativista não seria apenas mais um integrante do grupo. É alguém reconhecido como liderança e capaz de colocar informações em movimento. Pode ser professor, artista, benzedeira, cordelista, comunicador popular ou qualquer pessoa que transforme sua inserção comunitária em ação comunicacional.


Durante a pandemia, cordéis narraram a vacinação, denunciaram falsas curas e confrontaram a caracterização da covid-19 como uma simples “gripezinha”. Humor, música, imagens e narrativas ajudaram a separar fatos de informações manipuladas.

A resposta não depende apenas de desmentidos produzidos posteriormente por especialistas. Ela também envolve linguagens capazes de chegar às pessoas, afetá-las e estabelecer confiança.


Thürler recordou uma atriz travesti que conheceu em um festival de cenas curtas em Niterói. Questionada sobre a comunicação direta de seu trabalho, ela explicou que corpos como o dela morriam diariamente nas ruas e, por isso, não havia tempo para códigos que demorassem a ser compreendidos. A urgência da vida produzia uma estética sem rodeios.

Ao refletir sobre essa experiência, o pesquisador propôs que diferentes forças sociais se reunissem para “fazer o Brasil dar errado”. A frase não expressava uma recusa do país, mas o desejo de sabotar o projeto de Brasil sustentado pela violência, pela exclusão e pela desinformação.


Cristina acrescentou que esse enfrentamento passa pelo afeto — entendido não somente como acolhimento, mas como aquilo que produz impacto e reação. Uma obra, manifestação ou narrativa popular pode alcançar alguém por vias que uma explicação formal não consegue percorrer.


Uma conversa que se tornou publicação

A live integrou a programação preparatória do 45º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado em setembro de 2022 na Universidade Federal da Paraíba com o tema “Ciências da Comunicação contra a Desinformação”. A gravação permanece disponível na página da quarta temporada da Cátedra Intercom.


Posteriormente, a conversa foi transcrita e transformada no capítulo 11 do livro Comunicação e ciência: reflexões sobre a desinformação, publicado pela Intercom ainda em 2022. O texto é assinado por Betania Maciel, Marcelo Sabbatini, Cristina Schmidt Portéro e Djalma Thürler.


Vista alguns anos depois, a discussão conserva sua atualidade. Plataformas, formatos e mecanismos de produção de conteúdos falsos continuam se transformando, mas a resposta proposta pelos participantes não se restringe à tecnologia. Ela depende de reconhecer os saberes populares, fortalecer professores e agentes comunitários, ampliar o acesso à cultura e criar linguagens que façam a informação circular entre pessoas concretas.


A folkcomunicação contribui para esse enfrentamento ao mostrar que os grupos populares não são receptores passivos de mensagens verdadeiras ou falsas. Eles possuem seus próprios agentes, meios, repertórios e formas de interpretar o mundo.

Contra a desinformação, portanto, não basta entregar dados. É necessário construir confiança, produzir encontros e disputar sentidos. Em tempos de políticas de morte, fazer a informação chegar também pode ser uma maneira de escolher a vida.

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