“Falar de folkcomunicação é falar do diverso”: Cristina Schmidt discute cultura, mídia e resistência
- Andriolli Costa
- há 5 dias
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Em entrevista conduzida por Carolina Grimião, pesquisadora revisita sua trajetória, explica as transformações do campo e mostra como manifestações populares podem fortalecer identidades, disputar narrativas e pressionar pela criação de políticas públicas
O que aproxima um ex-voto, uma inscrição na carroceria de um caminhão, um grafite, um bloco de carnaval e uma transmissão produzida por uma comunidade indígena? Embora pertençam a universos diferentes, todos podem funcionar como formas de comunicação criadas por grupos populares para compartilhar experiências, afirmar identidades e disputar espaço na sociedade.
Foi a partir dessa compreensão ampliada que a pesquisadora Cristina Schmidt apresentou a folkcomunicação durante entrevista concedida a Carolina Grimião no programa Comunicação em Movimento. Transmitida em 2 de junho de 2023, a conversa teve como tema “Folkcomunicação e Diversidade Cultural” e integrou as atividades do Centro de Pesquisas e Produção em Comunicação e Emergência da Universidade Federal Fluminense, o EMERGE-UFF.
Ao longo do programa, Cristina percorreu a história da teoria criada por Luiz Beltrão, recuperou sua própria aproximação com o campo e analisou fenômenos contemporâneos, como a comunicação indígena, o ativismo antirracista, as redes sociais e as disputas pela ocupação dos espaços públicos.
A entrevista mostrou que estudar folkcomunicação não significa procurar manifestações preservadas fora do tempo. Significa compreender processos comunicacionais que continuam sendo produzidos, transformados e apropriados por diferentes grupos.
“Falar de folkcomunicação é falar do diverso”, sintetizou Cristina.
Uma trajetória construída coletivamente
Na abertura da entrevista, Carolina Grimião pediu que Cristina reconstituísse sua aproximação com a cultura popular e com os estudos folkcomunicacionais.
A pesquisadora relacionou esse percurso à sua formação na Universidade Metodista de São Paulo e à convivência com professores e pesquisadores como Luiz Roberto Alves e José Marques de Melo. Foi Marques de Melo quem a incentivou a assumir uma participação mais ativa na articulação de pesquisadores interessados na obra de Luiz Beltrão.
A proposta não era apenas aprofundar os estudos já existentes, mas também divulgar a folkcomunicação, criar conexões entre instituições e ampliar o número de pesquisadores dedicados ao campo.
Esse movimento culminou, em 1998, na realização da primeira Conferência Brasileira de Folkcomunicação, sediada pela Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional da Universidade Metodista. O encontro foi decisivo para a criação da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação, posteriormente formalizada em 2004.
Cristina passou, então, a aproximar a folkcomunicação de outras áreas, como políticas públicas, turismo, patrimônio, desenvolvimento regional e mídia local. Para ela, a comunicação não é um fenômeno isolado, mas um processo que atravessa diferentes dimensões da vida social.
Folkcomunicação não é o estudo de “coisas antigas”
Uma das principais questões levantadas por Carolina foi a transformação das pesquisas folkcomunicacionais. A entrevistadora observou que o campo costuma despertar o interesse de pessoas que estudam patrimônios, manifestações populares e culturas locais, mas perguntou como ele responde às mudanças sociais e tecnológicas contemporâneas.
Cristina recuperou os primeiros objetos analisados por Luiz Beltrão. O pesquisador estudou ex-votos, pagamentos de promessas, literatura de cordel, frases de para-choques de caminhão e inscrições encontradas em espaços cotidianos. Também identificou processos comunicacionais entre grupos rurais, urbanos e culturalmente marginalizados.
Esses exemplos, porém, não devem ser tratados como uma lista fechada de objetos que definiriam a folkcomunicação.
“Tem muita gente que acha que estudar folkcomunicação é estudar essas coisas antigas do folclore. Nós não fazemos um estudo do folclore propriamente. Nós fazemos um estudo dos processos de comunicação dessas manifestações”, explicou.
A diferença é fundamental. Uma pesquisa sobre cordel, por exemplo, não se torna folkcomunicacional apenas por analisar uma expressão popular. É necessário investigar quem comunica, para qual grupo, por quais meios, com quais linguagens e dentro de quais relações sociais.
O foco está nos processos por meio dos quais grupos produzem mensagens, compartilham interpretações e constroem maneiras próprias de participar da vida pública.
Essa perspectiva permite estudar tanto um folheto de cordel quanto um canal no YouTube. Cristina citou pesquisas sobre folkcomunicação na internet, no cinema e nas atividades de influenciadores digitais que podem exercer funções de liderança em suas comunidades.
Durante a pandemia de covid-19, o campo também acompanhou estratégias utilizadas para orientar a população, estimular a vacinação e enfrentar informações falsas. Práticas culturais, linguagens comunitárias e lideranças reconhecidas pelos grupos ajudaram a traduzir informações científicas e aproximá-las da experiência cotidiana.
A folkcomunicação, portanto, não permanece à margem das transformações tecnológicas. Ela acompanha as formas pelas quais os grupos se apropriam dessas tecnologias e as adaptam às próprias necessidades.
Políticas públicas: receber apoio e exercer pressão
A relação entre folkcomunicação e políticas públicas ocupou uma parte importante da entrevista.
Cristina explicou que essa relação pode ser observada em dois sentidos. No primeiro, políticas já existentes podem beneficiar artistas, artesãos, cantadores, produtores culturais e outros agentes ligados às manifestações populares.
Foi o que aconteceu, segundo ela, com a Lei Aldir Blanc durante a pandemia. Em um período marcado pelo fechamento de espaços culturais e pela suspensão de apresentações, o auxílio possibilitou que diferentes trabalhadores da cultura mantivessem parte de suas atividades.
No segundo sentido, os próprios grupos populares podem atuar como agentes de pressão para que novas políticas sejam elaboradas.
Grafites, canções, bordados, pinturas, performances, manifestações e produções audiovisuais podem denunciar desigualdades, chamar atenção para problemas sociais e inserir determinadas reivindicações na agenda política.
Cristina citou o ativismo antirracista como exemplo. Quando artistas e coletivos utilizam suas linguagens para contestar o racismo, não estão apenas produzindo obras. Também pressionam instituições, autoridades e meios de comunicação a reconhecerem o problema e adotarem medidas concretas.
Dessa forma, a comunicação popular pode tanto aproximar os grupos dos direitos já estabelecidos quanto estimular a criação de novas políticas.
A comunicação indígena como fortalecimento e mobilização
Para demonstrar como esse processo acontece, Cristina apresentou o caso de uma pesquisa desenvolvida junto a indígenas da região do Jaraguá, em São Paulo.
A comunidade estudada utilizava diferentes recursos para fortalecer sua identidade internamente e dialogar com a sociedade. Artesanato, pinturas corporais e canções conviviam com filmes, vídeos publicados no YouTube, transmissões ao vivo e manifestações realizadas diante de espaços políticos.
Essas práticas ajudavam os indígenas a reconhecer sua história e a fortalecer seus vínculos comunitários. Ao mesmo tempo, permitiam comunicar reivindicações relacionadas ao território, à saúde e à educação.
Quando as pinturas, músicas e produções audiovisuais chegavam às ruas ou às redes sociais, elas também pressionavam autoridades, mobilizavam apoiadores e disputavam as representações construídas externamente sobre os povos indígenas.
Cristina definiu esse conjunto de ações como uma forma de folkativismo.
A ideia evidencia que as manifestações culturais não são apenas símbolos identitários. Elas também podem ser instrumentos de organização social, participação política e enfrentamento das desigualdades.
A rua como arena política
A reflexão sobre as formas de ocupar a cidade surgiu quando Carolina recordou uma pesquisa sobre o carnaval de Recife. O trabalho analisava como, durante a festa, os foliões se apropriavam das ruas e passavam a estabelecer uma relação diferente com o espaço urbano.
Cristina aproximou essa experiência dos estudos sobre grafite, festas e procissões. Para ela, os muros e as ruas são espaços públicos e, justamente por isso, constituem arenas políticas.
Quando um grupo pinta um muro, realiza um cortejo, canta uma marchinha ou ocupa uma praça, ele registra sua presença na cidade. Ao mesmo tempo, produz uma mensagem sobre quem é, o que valoriza e quais direitos reivindica.
No carnaval, essa ocupação adquire uma dimensão ainda mais intensa. Cristina comparou a festa a uma espécie de procissão, não necessariamente no sentido religioso, mas pela importância simbólica que assume para as comunidades.
Durante alguns dias, o cotidiano é interrompido. Corpos, músicas, fantasias, pinturas e performances transformam a rua e criam outras maneiras de experimentar a cidade.
“Esse momento sagrado, essa suspensão do tempo ordinário, é o momento de se expressar: quem somos, nossa alegria. Nós vamos fazer do nosso jeito”, afirmou.
A pesquisadora diferenciou essa experiência dos desfiles submetidos aos padrões da mídia massiva. Quando as manifestações retornam às ruas e se organizam segundo as referências de cada comunidade, elas podem romper parte da padronização imposta pelo espetáculo televisivo.
Uma rua escolhe sua banda. Outra cria sua própria marchinha. Cada grupo estabelece sua estética e seu modo de brincar. Ao fazer isso, comunica-se com seu próprio universo, fortalece pertencimentos e reafirma o direito de ocupar a cidade.
Cristina retomou, nesse ponto, uma formulação inspirada em Luiz Beltrão: trata-se de uma comunicação “com um mundo”, e não simplesmente “para o mundo”.
Quando a cultura popular vira espetáculo
A representação das manifestações populares pela grande mídia também foi problematizada.
“Muitas dessas mídias massivas transformam essas manifestações em espetáculos”, observou Cristina.
A transformação em espetáculo pode aumentar a visibilidade, mas também provoca distorções. A cobertura tende a selecionar os aspectos mais coloridos, exóticos ou facilmente comercializáveis, enquanto apaga conflitos, trajetórias e reivindicações dos grupos envolvidos.
Manifestações complexas passam a ser apresentadas apenas como entretenimento. Seus participantes aparecem como personagens de uma festa, mas raramente são ouvidos como produtores de conhecimento e sujeitos políticos.
Em casos como o do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Cristina observou que a mídia massiva frequentemente constrói representações negativas ou simplificadas. O movimento, no entanto, possui processos internos de comunicação e articulações com veículos alternativos capazes de apresentar outras perspectivas sobre sua atuação.
É nesse contexto que as redes sociais ganham relevância. Por meio delas, movimentos e comunidades podem criar seus próprios espaços, mostrar quem são e fazer circular mensagens sem depender exclusivamente da seleção realizada pelos grandes veículos.
“O próprio movimento cria sua rede, cria seu espaço”, afirmou.
Cristina avaliou positivamente as possibilidades abertas pelas mídias digitais para os grupos marginalizados. Uma pauta popular pode encontrar dificuldades para chegar a uma grande emissora, a menos que produza forte impacto ou seja impulsionada por intensa mobilização. Nas plataformas digitais, porém, os próprios grupos podem produzir, publicar e distribuir seus conteúdos.
Isso não elimina as desigualdades de acesso ou de alcance, mas amplia as oportunidades de autorrepresentação e articulação.
Diversidade como ponto de partida
Ao responder a uma pergunta enviada pela professora Eula Cabral, Cristina explicou como a folkcomunicação lida com a diversidade cultural brasileira.
A resposta começou pela própria constituição do campo. Os pesquisadores estão distribuídos por diferentes regiões, universidades, grupos de pesquisa e movimentos sociais. Cada um traz experiências e questões relacionadas aos territórios em que vive e pesquisa.
Essa variedade também aparece nos congressos e grupos de trabalho, que reúnem pesquisas desenvolvidas no Brasil, em países latino-americanos, nos Estados Unidos e na Europa.
A preocupação, segundo Cristina, não é descrever os grupos como peças de um inventário cultural. A caracterização histórica, social e antropológica é necessária, mas deve conduzir à análise dos processos comunicacionais.
Interessa compreender como cada grupo produz seus sentidos, seleciona suas linguagens, escolhe seus mediadores, utiliza os meios disponíveis e dialoga com outras instâncias da sociedade.
Por isso, a diversidade não é um tema adicional da folkcomunicação. Ela está na própria base da teoria.
Uma entrevista que abre caminhos
Ao conduzir o diálogo, Carolina Grimião aproximou os conceitos apresentados por Cristina de situações concretas: o carnaval que transforma as ruas, os movimentos que lutam por reconhecimento e as mídias regionais que oferecem espaço às culturas locais.
Suas perguntas ajudaram a evidenciar uma folkcomunicação viva, capaz de dialogar com estudantes e pesquisadores que se interessam por cultura, política e processos de resistência.
A entrevista também antecipou discussões da 21ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada em agosto de 2023, entre Salvador e Cachoeira, com o tema “Processos folkcomunicacionais e ativismos antirracistas”.
Ao final do programa, Cristina convidou o público a conhecer as publicações, os congressos e os grupos de pesquisa dedicados à área. Mais do que apresentar uma definição pronta, a conversa abriu possibilidades para novos estudos.
Dos ex-votos pesquisados por Luiz Beltrão às transmissões realizadas por comunidades indígenas, dos muros grafitados aos vídeos publicados nas plataformas digitais, a folkcomunicação acompanha as maneiras pelas quais os grupos narram a própria existência.
Em cada uma dessas práticas, comunicar é também reconhecer-se, ocupar espaços e afirmar o direito de participar da sociedade em seus próprios termos.
Assista à entrevista completa: Folkcomunicação e Diversidade Cultural — Programa Comunicação em Movimento #35.
Entrevistadora: Carolina Grimião
Entrevistada: Cristina Schmidt
Coordenação: Adilson Cabral
Produção: EMERGE-UFF, com participação de Larissa Souza nos bastidores


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