Existir, pesquisar e insistir: Rede Folkcom apresenta diagnóstico preliminar da produção da última década na SBPC 2025
Durante painel organizado pela Socicom na 77ª Reunião Anual da SBPC, o presidente da Rede Folkcom, Andriolli Costa, apresentou os primeiros resultados de pesquisa coletiva que mobiliza mais de 40 integrantes e reuniu mais de 1.100 trabalhos publicados entre 2013 e 2023
Mais de 40 pesquisadores, um acervo inicial superior a 1.100 trabalhos e uma década de produção científica colocada sob análise. Essas são as dimensões da pesquisa coletiva organizada pela Rede Folkcom e apresentada pelo professor Andriolli Costa, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), durante a 77ª Reunião Anual da SBPC.
Presidente da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação, Costa participou do painel organizado pela Socicom sobre as especificidades territoriais das Ciências da Comunicação no país. Em sua exposição, mostrou os primeiros resultados de um esforço iniciado em 2024 para compreender como a teoria criada por Luiz Beltrão tem sido mobilizada entre 2013 e 2023.
O levantamento reúne artigos publicados em congressos e na Revista Internacional de Folkcomunicação, além de teses e dissertações recuperadas em bases acadêmicas. Depois da aplicação dos critérios de seleção, pouco menos de 800 trabalhos permaneceram no corpus que seguirá para a análise qualitativa.
Os números já apontam desafios. Mais de 30% do material inicialmente reunido não utilizava efetivamente a folkcomunicação, mesmo quando estava presente em espaços acadêmicos relacionados ao campo. Muitos trabalhos não explicitavam a metodologia adotada. Parte das teses e dissertações desapareceu da internet com o encerramento de programas de pós-graduação. Há ainda pesquisas que dialogam com a teoria, mas omitem seu nome para evitar resistências de orientadores, bancas e periódicos.
Para Costa, enfrentar esses problemas exige memória, rigor e autocrítica. A pesquisa não pretende apenas inventariar o que foi produzido. Seu objetivo é oferecer condições para que a própria comunidade científica avalie os caminhos percorridos e formule coletivamente os próximos passos da teoria.
Uma rede criada para articular pesquisadores
Antes de apresentar os dados, Andriolli Costa recuperou a história da Rede Folkcom. Sua origem remonta à primeira Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada em 1998 sob a liderança de José Marques de Melo, discípulo de Luiz Beltrão e um dos principais responsáveis pela consolidação do campo.
Marques de Melo não desejava criar apenas mais uma estrutura institucional. A proposta era formar uma rede de pesquisadores articulados a partir de diferentes áreas e objetos. Comunicação, Antropologia, Ciências da Religião, estudos do folclore e outros campos encontrariam na cultura popular uma grande heurística comum.
Essa origem explica o caráter transdisciplinar da Rede. A associação foi formalizada juridicamente em 2004, mas reconhece 1998 como marco fundador. Na gestão iniciada em setembro de 2024, uma das prioridades passou a ser a recuperação da memória institucional, acompanhada da reorganização jurídica e da ampliação da presença científica da entidade.
Outro marco foi a publicação de Metamorfoses da folkcomunicação, em 2013. Com mais de mil páginas, a obra reuniu e comentou textos fundamentais produzidos desde a década de 1960. Por oferecer um balanço extenso da trajetória anterior, o livro definiu o ponto de partida da nova pesquisa: investigar o que aconteceu nos dez anos seguintes, até 2023.
Beltrão encontrou mídia onde o campo via apenas cultura
Para situar a importância do levantamento, Costa retomou alguns fundamentos da folkcomunicação. Desde Iniciação à filosofia do jornalismo, Luiz Beltrão já questionava definições restritas de mídia, jornalismo e jornalista. Seu interesse estava em reconhecer agentes populares capazes de informar, interpretar acontecimentos e produzir opiniões em seus próprios contextos.
Essa reflexão tornou-se mais evidente em “O ex-voto como veículo jornalístico”, artigo publicado em 1965 e considerado seminal para a teoria. Diante de objetos oferecidos em agradecimento por graças alcançadas, Beltrão não enxergou apenas uma manifestação religiosa. Percebeu mensagens sobre o tempo presente, as condições de vida e os valores de uma comunidade.
Um conjunto de diplomas escolares depositados em uma sala de milagres, por exemplo, pode revelar que concluir a educação básica é uma conquista rara naquele território. A disposição dos objetos comunica antes mesmo de qualquer entrevista ou texto explicativo.
Beltrão deslocou, assim, o debate do suporte para a cultura. Jornalismo e comunicação não precisariam ocorrer apenas em jornais, emissoras de rádio ou canais de televisão. Práticas religiosas, festas, gestos, narrativas e objetos também poderiam constituir meios de expressão e comentário social.
Do líder de opinião ao ativista midiático
Outro elemento central é o líder de opinião, sujeito que realiza a mediação entre a comunidade e os meios de massa. Na formulação original, essa função poderia ser exercida por alguém com acesso privilegiado à leitura, às notícias ou às instituições.
Costa recorreu ao romance Torto arado, de Itamar Vieira Junior, para tornar o conceito mais visível. O personagem Severo transita entre os trabalhadores rurais e os movimentos sociais, leva novos conhecimentos à comunidade e carrega suas demandas para outros espaços. Sua posição híbrida permite traduzir códigos, organizar pessoas e estimular transformações.
Osvaldo Trigueiro atualizou essa figura por meio do conceito de ativista midiático. Em sociedades atravessadas por plataformas digitais, a mediação já não depende apenas da alfabetização tradicional. Exige também domínio das linguagens, tecnologias e regras de visibilidade dos meios contemporâneos.
Uma integrante de grupo contra-hegemônico pode tornar-se influenciadora, ocupar o Instagram ou o TikTok e utilizar essa presença para agir em favor de sua comunidade. Mudam as ferramentas, mas permanece a importância de sujeitos capazes de circular entre diferentes sistemas culturais e comunicacionais.
Uma teoria vigiada pela ditadura
A apresentação também recuperou documentos do Serviço Nacional de Informações que registraram a vigilância sobre Luiz Beltrão e atividades relacionadas à folkcomunicação. Durante a ditadura militar, sua tentativa de defender a primeira tese de doutorado em Comunicação do país foi acompanhada por suspeitas ideológicas.
O uso de autores ligados a interpretações dialéticas do folclore e ao pensamento de Antonio Gramsci bastou para que Beltrão fosse acusado de colaborar com ideias comunistas, embora se apresentasse politicamente como alguém de centro. Sua tese enfrentou obstáculos institucionais e só foi publicada integralmente em 2001.
Uma mesa sobre folkcomunicação e educação popular realizada durante o congresso da Intercom de 1980 também entrou no radar dos órgãos de informação. A própria ementa caracterizava o campo como expressão dos modos de pensar, sentir e agir das classes subalternas e como forma de resistência à cultura dominante e à marginalização social.
Para Costa, esses registros demonstram que a teoria nunca tratou a cultura popular apenas como entretenimento ou repertório de tradições. Desde suas bases, a folkcomunicação reconhece práticas culturais como tribunas populares, espaços de comentário e possibilidades de transformação social.
Mais de 1.100 trabalhos reunidos
A pesquisa coletiva foi proposta pelo professor Guilherme Fernandes e passou a ser coordenada por ele e Andriolli Costa. Mais de 40 integrantes, entre doutores, mestres, graduados e estudantes, foram distribuídos em grupos de trabalho responsáveis por levantar e validar o material.
O acervo inicial superou 1.100 registros. Foram reunidos trabalhos apresentados nos grupos de pesquisa das Conferências Brasileiras de Folkcomunicação, nos congressos da Intercom, nos encontros internacionais realizados em espaços como Ibercom e Alaic, além de 26 edições da Revista Internacional de Folkcomunicação.
O levantamento da pós-graduação acrescentou 41 dissertações e dez teses localizadas a partir do sistema da Capes. Esse conjunto permite observar não somente os temas apresentados em eventos, mas também pesquisas extensas nas quais a teoria orientou a formulação de problemas, objetos e métodos.
A quantidade de documentos exigiu uma estrutura de análise compartilhada. Cada registro recebeu informações sobre título, autoria, instituição, região, referências, teorias, metodologias, ano, palavras-chave e classificação dentro das taxonomias da folkcomunicação.
O formulário também procurou registrar o gênero dos autores, apesar dos limites de uma identificação realizada a partir dos dados disponíveis. A decisão permite observar a participação de mulheres e homens no campo, mas os pesquisadores reconheceram que o procedimento não representa adequadamente todas as identidades.
Três fases para revisar e renovar a teoria
O projeto foi dividido em três etapas. A primeira, apresentada na SBPC, teve caráter quantitativo: reuniu, organizou, selecionou e validou os documentos. Cada ficha preenchida por um integrante foi posteriormente conferida por outro pesquisador.
Uma regra metodológica buscou reduzir divergências: somente deveriam ser registradas as informações explicitadas pelos autores dos trabalhos. Se um artigo não declarava ter utilizado observação participante, por exemplo, o avaliador não poderia classificá-lo dessa maneira, ainda que o procedimento parecesse evidente. A inferência de dezenas de pessoas comprometeria a consistência do banco.
A segunda etapa é qualitativa. Os grupos analisarão os trabalhos a partir de cinco eixos: fundamentos teórico-epistemológicos; cultura popular e folclore; relações entre manifestações populares e meios de massa; objetos da folkcomunicação; e problemas de pesquisa.
Os três primeiros eixos concentram-se nos artigos publicados em periódicos e congressos. Os dois últimos examinam teses e dissertações. A divisão deverá produzir relatórios capazes de identificar continuidades, ausências, mudanças conceituais e tendências da última década.
A terceira fase será propositiva. Depois de compreender como a comunidade tem utilizado conceitos como folclore, cultura popular, mídia e marginalidade, a Rede pretende estabelecer posições, atualizar definições e sugerir caminhos comuns. Os resultados também deverão circular em livros publicados em mais de um idioma, podcasts, documentários e outros produtos.
Nem todo trabalho do campo mobiliza a teoria
A aplicação dos critérios reduziu o corpus de mais de 1.100 registros para pouco menos de 800. O primeiro motivo de exclusão foi a ausência de qualquer menção à folkcomunicação. O segundo envolveu trabalhos que empregavam o termo apenas no resumo, na introdução ou como rótulo, sem mobilizar seus conceitos ao longo da análise.
O resultado preliminar indica que mais de 30% do material inicialmente reunido não utilizava efetivamente a teoria. A constatação não significa que esses trabalhos sejam irrelevantes nem que devam ser excluídos dos espaços de diálogo da Rede.
Desde sua formação, a folkcomunicação acolhe pesquisadores de diferentes áreas interessados em culturas populares e processos comunicacionais. Para a finalidade específica do levantamento, porém, era necessário distinguir a participação em um congresso ou dossiê de uma pesquisa realmente fundamentada no campo.
O dado também provocou uma pergunta institucional. Pesquisadores da folkcomunicação utilizam referências vindas da Antropologia, da Sociologia, dos estudos culturais e de diversas tradições da Comunicação. Poucas dessas áreas, no entanto, recorrem à teoria brasileira em movimento inverso. Ampliar a circulação depende de tornar seus conceitos mais claros, acessíveis e reconhecidos.
A metodologia permanece invisível em muitos artigos
Outro problema identificado foi a ausência de informações metodológicas. Muitos artigos descrevem detalhadamente festas, personagens, produtos midiáticos e manifestações populares, mas não explicam como os dados foram coletados e interpretados.
Sem essa informação, os avaliadores não puderam preencher parte das categorias. A regra impedia deduzir o método a partir da leitura. O silêncio tornou-se, portanto, um resultado do próprio levantamento.
Costa reconheceu que a dificuldade não é exclusiva da folkcomunicação. Na graduação e na pós-graduação em Comunicação, é comum que o envolvimento com o objeto anteceda a reflexão sobre o procedimento. Pesquisadores desejam apresentar rapidamente a riqueza do fenômeno e deixam em segundo plano a explicação sobre o que fizeram com ele.
A análise coletiva oferece uma oportunidade de autocrítica. Explicitar a metodologia não é uma exigência burocrática: permite avaliar a coerência entre a pergunta, o material empírico e as conclusões, além de facilitar que outros pesquisadores compreendam e eventualmente reproduzam o percurso.
Quando um programa fecha, a memória desaparece
O levantamento encontrou ainda um problema de preservação. Com o encerramento de programas de pós-graduação, repositórios deixam de funcionar e dissertações e teses desaparecem da internet.
A Universidade Metodista de São Paulo ocupou um lugar decisivo na história da folkcomunicação, especialmente durante a atuação de José Marques de Melo. Depois do encerramento do programa de pós-graduação, parte de sua produção deixou de estar acessível. A equipe precisou localizar autores individualmente e solicitar cópias dos arquivos.
Em alguns casos, as pessoas já não utilizavam os mesmos nomes ou contatos da época da defesa. Recuperar um PDF tornou-se um trabalho de investigação. Situações semelhantes preocupam diante das crises enfrentadas por outros programas brasileiros.
Para a Rede Folkcom, a memória científica não pode depender exclusivamente da continuidade de uma instituição. A proposta é disponibilizar o banco de dados e, quando possível, os documentos reunidos no site da entidade. Além de preservar o material, o acesso permitirá que outros grupos verifiquem os procedimentos, reutilizem o acervo e desenvolvam novas análises.
Pesquisas escondem o nome da folkcomunicação
Os próprios critérios de seleção revelaram outro limite. Para localizar teses e dissertações, a equipe procurou a palavra folkcomunicação nos títulos, resumos e palavras-chave. Integrantes da Rede relataram, entretanto, ter sido impedidos de utilizar o termo nesses espaços.
Alguns orientadores recusavam a referência; algumas bancas condicionavam a aprovação à retirada da teoria. Desse modo, trabalhos efetivamente folkcomunicacionais podem não ter aparecido nas buscas automatizadas.
Durante anos, parte dos pesquisadores adotou uma estratégia de resistência: discutia a obra de Beltrão sem mencionar seu nome ou apresentava os conceitos sem utilizar a palavra folkcomunicação. A omissão facilitava a aprovação de artigos, projetos e pesquisas, mas também contribuía para manter o campo invisível.
As críticas frequentemente recorriam a expressões como “teoria tupiniquim”, utilizando a origem brasileira como desqualificação, ou reduziam o campo a um “gueto nordestino” por Luiz Beltrão ter nascido em Pernambuco. Para Costa, essas formulações revelam preconceito e desconhecimento, não uma objeção teórica ou metodológica fundamentada.
Rigor também deve valer para as críticas
A pesquisa coletiva pretende enfrentar interpretações repetidas sem exame suficiente. Uma delas define Luiz Beltrão simplesmente como funcionalista. Costa citou o trabalho de Iury Parente Aragão, que revisita os fundamentos teóricos e metodológicos da folkcomunicação.
Segundo a leitura apresentada, a presença de dois autores funcionalistas na bibliografia de Beltrão não basta para classificar toda a sua heurística dessa maneira. Parte das críticas ao funcionalismo também mistura divergências metodológicas com a associação política dessa corrente a interesses imperialistas e à manutenção da ordem social.
Essa descrição parece pouco compatível com uma teoria vigiada pela ditadura e orientada para as estratégias de resistência das classes populares. Isso não torna Beltrão imune a questionamentos. Significa apenas que as críticas devem ser submetidas ao mesmo rigor exigido dos pesquisadores do campo.
Ao recuperar trabalhos esquecidos e comparar uma década de produção, a Rede pretende desnaturalizar certezas, localizar divergências reais e documentar as bases de cada interpretação.
Existir, pesquisar e insistir
Andriolli Costa encerrou a apresentação recordando uma carta enviada por Luís da Câmara Cascudo a Beltrão depois da publicação do artigo sobre os ex-votos. Cascudo o aconselhava a não esperar o reconhecimento dos outros, a permanecer teimoso e a pensar aquilo que ainda não havia sido pensado.
A mensagem atravessa a história da folkcomunicação. A teoria enfrentou perseguição durante a ditadura, resistência nas universidades, apagamento de acervos e preconceito contra sua origem brasileira. Ainda assim, formou uma rede, produziu pesquisas e alcançou outros países.
O novo levantamento transforma a teimosia em trabalho coletivo. Seus resultados preliminares não encerram a discussão: oferecem dados para que a comunidade examine suas escolhas e formule posições mais consistentes.
“A gente existe, pesquisa e insiste”, afirmou Costa. A frase resume o compromisso apresentado na SBPC: recuperar a memória, realizar a autocrítica e assegurar que a renovação da folkcomunicação seja conduzida por quem estuda, pratica e mantém vivo o campo.





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