“Eu quero deixar o meu legado ali na minha Casa do Samba”: Folkcom 2023 celebra trajetórias e premia nova geração
Cerimônia homenageou Dalva Damiana, Robério Marcelo, Sérgio Mattos, Osvaldo Trigueiro e Luiz Custódio da Silva e anunciou os vencedores dos prêmios estudantis de podcast, fotografia, audiovisual e pesquisa em folkcomunicação.
Aos 95 anos, a poucas semanas de completar 96, Dona Dalva Damiana de Freitas não aproveitou a homenagem recebida para falar apenas do passado. Depois de agradecer pelo reconhecimento, lembrar sua vida como operária charuteira e celebrar o título de Doutora Honoris Causa concedido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, ela apresentou ao público um desejo voltado para o futuro.
“Eu quero deixar o meu legado ali na minha Casa do Samba”, afirmou.
A fala resumiu o espírito da cerimônia de homenagens e entrega dos Prêmios Estudantis, realizada em 19 de agosto de 2023, no auditório do Centro de Artes, Humanidades e Letras da UFRB, em Cachoeira.
No último dia da XXI Conferência Brasileira de Folkcomunicação, cinco trajetórias foram celebradas. Ao mesmo tempo, estudantes e jovens pesquisadores receberam prêmios que levavam os nomes dos homenageados. O encontro estabeleceu, assim, uma passagem simbólica entre gerações: aqueles que ajudaram a preservar saberes, formar pesquisadores e consolidar a folkcomunicação davam nome ao reconhecimento de quem começava a construir novos caminhos no campo.
Dona Dalva Damiana, Robério Marcelo Rodrigues Ribeiro, Sérgio Augusto Soares Mattos, Osvaldo Meira Trigueiro e Luiz Custódio da Silva representavam diferentes dimensões desse legado. De um lado, a cultura popular praticada e transmitida pela sambadeira cachoeirana. De outro, o ensino, a pesquisa, o jornalismo e a atuação institucional de professores que participaram da formação da Rede Folkcom e da expansão dos estudos folkcomunicacionais no Brasil.
Dona Dalva: do trabalho na fábrica à roda de samba
A primeira homenageada foi Dalva Damiana de Freitas, cantora, compositora, sambadeira, integrante da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e liderança do Samba de Roda Suerdieck, popularmente conhecido como Samba de Roda de Dona Dalva.
Nascida em Cachoeira, em 27 de setembro de 1927, Dona Dalva trabalhou durante muitos anos na fábrica de charutos Suerdieck. Foi entre o ritmo da produção de charutos, as conversas com as companheiras de trabalho e as lembranças das manifestações culturais do Recôncavo que muitas de suas composições começaram a surgir.
A homenagem foi conduzida pelo professor Hamilton Paixão Filho, que recordou o primeiro encontro com a sambadeira durante a Festa da Boa Morte de 2007. Na ocasião, ele a viu dançar a valsa dedicada a Nossa Senhora da Glória e decidiu permanecer em Cachoeira para acompanhar uma apresentação do grupo na praça.
O encontro deu início a uma amizade e a uma aproximação com as atividades culturais organizadas por Dona Dalva. Hamilton destacou sua atuação como sambadeira, irmã da Boa Morte, educadora popular e responsável pela transmissão de conhecimentos às crianças do grupo mirim Flor do Dia.
Mais do que manter um conjunto musical em atividade, Dona Dalva ajudou a formar novas gerações de sambadores e sambadeiras, a organizar encontros culturais e a inserir o samba de roda no calendário da cidade.
Em 2012, ela se tornou a primeira pessoa a receber da UFRB o título de Doutora Honoris Causa. A homenagem reconheceu sua contribuição para as artes, a memória social e a preservação dos saberes do Recôncavo.
Ao receber a homenagem da Rede Folkcom, Dona Dalva recordou com orgulho sua origem trabalhadora.
“Eu sou uma operária também. Com a Suerdieck foi onde eu vivi a minha vida”, declarou.
A sambadeira agradeceu à UFRB, à organização da conferência e às pessoas que acompanhavam sua trajetória. Em seguida, fez um apelo para que seu legado pudesse contar com uma sede capaz de acolher o samba, as crianças e as atividades culturais desenvolvidas pelo grupo.
O momento também foi atravessado pela urgência política. Antes da entrega dos prêmios, Ana Freitas, filha de Dona Dalva, pediu licença para lembrar o sambador e pandeirista Dunga, de São Félix, e a ialorixá e liderança quilombola Mãe Bernadete Pacífico, assassinada dois dias antes no Quilombo Pitanga dos Palmares.
“Isso não pode continuar”, protestou Ana.
A manifestação dialogava diretamente com o tema da conferência — “Processos folkcomunicacionais e ativismos antirracistas” — e recordava que a valorização da cultura negra não pode ser separada da defesa da vida de seus mestres, lideranças e comunidades.
Robério Marcelo e o jornalismo que se aprende na rua
O segundo homenageado foi o professor Robério Marcelo Rodrigues Ribeiro, cuja trajetória se confunde com a formação de gerações de jornalistas e com a implantação dos cursos de Comunicação da UFRB.
A primeira homenagem foi apresentada pelo estudante João Carneiro, que falou em nome da comunidade discente. Em seu depoimento, João destacou um professor que recusava a separação rígida entre universidade e território.
“Jornalismo não se faz no ar-condicionado”, foi uma das frases de Robério recuperadas pelo estudante.
As aulas levavam os alunos para as ruas de Cachoeira e para outras cidades do Recôncavo, onde aprendiam a observar, apurar, entrevistar e reconhecer histórias. No lugar de exercícios distantes da realidade, Robério estimulava produções ligadas às pessoas, aos acontecimentos e à riqueza cultural do território.
João recordou especialmente as experiências com fanzines. Em uma delas, estudantes produziram uma publicação sobre Jerônimo Rodrigues, quando ele ainda não era candidato ao Governo da Bahia. O trabalho demonstrava como uma pauta universitária podia adquirir circulação e importância pública quando os alunos recebiam liberdade para experimentar linguagens e personagens.
A homenagem também recuperou a participação de Robério na criação dos cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda. O bacharelado em Publicidade e Propaganda da UFRB, idealizado pelo professor, iniciou suas atividades em Santo Amaro, em novembro de 2013.
A professora Maria José Oliveira, impossibilitada de comparecer, enviou um texto lido durante a cerimônia. Nele, descreveu Robério como um mestre capaz de articular diferentes áreas do conhecimento, respeitar o silêncio dos outros e transformar o ensino em espaço de acolhimento, criação e questionamento.
Emocionado, o professor lembrou que se aproximava dos 50 anos de atuação no magistério. Sua trajetória passou por instituições como a Universidade Estadual de Londrina, a Universidade de São Paulo, a Universidade Federal do Espírito Santo, a Universidade de Uberaba, a Universidade Vale do Rio Doce e a própria UFRB.
“Para mim, jornalismo é na rua”, reafirmou.
Mais do que uma orientação técnica, a frase revela uma concepção de formação. O jornalista precisa caminhar, observar e estabelecer contato com pessoas e territórios. O conhecimento profissional não se encerra na sala de aula, da mesma forma que a universidade não pode permanecer indiferente ao mundo que existe ao seu redor.
Sérgio Mattos: jornalismo, pesquisa e formação de gerações
A professora Renata Pitombo Cidreira foi responsável pela homenagem a Sérgio Augusto Soares Mattos. Para sintetizar sua trajetória, escolheu duas palavras: dedicação e competência.
Jornalista, professor, pesquisador, escritor e poeta, Sérgio Mattos graduou-se em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia e concluiu mestrado e doutorado na Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Foi um dos primeiros doutores em Comunicação a atuar na Bahia e participou da implantação da pós-graduação na Faculdade de Comunicação da UFBA.
Na UFRB, integrou os cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda, participou da implantação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e exerceu a vice-coordenação do PPGCOM. Também esteve à frente da Editora da UFRB entre 2010 e 2019, período marcado pela consolidação da produção editorial da universidade.
Renata recordou ainda a contribuição de Sérgio para o jornalismo baiano. No jornal A Tarde, ele idealizou o caderno A Tarde Municípios, que ampliou a cobertura das cidades do interior do estado. Também trabalhou no caderno de utilidades e participou da fundação da Tribuna da Bahia.
Além da produção acadêmica e jornalística, Sérgio desenvolveu trabalhos literários e musicais. Durante a homenagem, Renata leu o poema “Independência”, publicado em 1987, no qual o autor defende que o sonho do poeta e o amor não precisam de autorização oficial para sobreviver.
Ao agradecer, Sérgio ressaltou que nenhuma trajetória é construída individualmente.
“A gente não constrói nada sozinho. Seja na universidade, seja em uma pesquisa, seja em qualquer coisa, a gente sempre está ao lado de alguém”, afirmou.
Para ele, uma homenagem recebida em vida funciona como uma semente: em vez de anunciar o encerramento de uma trajetória, lembra ao homenageado que ainda é possível continuar produzindo, pesquisando e formando pessoas.
Sérgio também fez uma defesa do jornalismo de campo. Criticou a dependência de entrevistas realizadas apenas por telefone, mensagens e e-mails, sem que o repórter acompanhe o acontecimento ou observe as reações do entrevistado.
“O jornalista tem que enfiar o pé na lama e a mão na massa”, defendeu.
Ao recordar uma antiga orientação oferecida aos estudantes, acrescentou que, apesar dos celulares e gravadores, a caneta e o papel continuam sendo armas fundamentais do jornalista.
Osvaldo Trigueiro e a pesquisa que percorre estradas
A homenagem ao professor Osvaldo Meira Trigueiro foi apresentada por Karina Janz Woitowicz. Em sua fala, a pesquisadora recuperou uma trajetória marcada pelo trabalho de campo, pelos estudos de recepção e pelo compromisso com as manifestações culturais das pequenas cidades.
Professor da Universidade Federal da Paraíba durante quase quatro décadas, Osvaldo pertence à geração pioneira que conviveu com Luiz Beltrão e participou da consolidação da folkcomunicação como área de pesquisa.
Enquanto parte expressiva dos estudos de Comunicação se concentrava nos grandes meios e nos fenômenos massivos, Osvaldo percorria comunidades do interior para compreender como as pessoas recebiam, interpretavam e transformavam as mensagens da televisão e de outros meios.
Seu trabalho demonstrou que entre a emissão midiática e a recepção popular existe uma intensa rede de conversações, apropriações e negociações. Dessa pesquisa surgiu uma de suas principais contribuições conceituais: o ativista midiático, sujeito que interpreta os conteúdos dos meios e os recodifica a partir dos interesses e das referências de seu grupo.
Karina também destacou a participação de Osvaldo nas discussões sobre folclore, sua presença na elaboração da Carta do Folclore Brasileiro de 1995, sua atuação nas entidades científicas e os registros compartilhados no blog FolkMídia.
Ao receber a homenagem, Osvaldo a dividiu com Rosinha Trigueiro, companheira de décadas de viagens e pesquisas. Recordou estradas difíceis, comunidades distantes, trabalhos financiados com recursos próprios e as incertezas sobre onde dormir ou fazer uma refeição durante as incursões de campo.
Também compartilhou o reconhecimento com três mestres que considerou fundamentais em sua formação: Luiz Beltrão, Roberto Benjamin e José Marques de Melo.
Osvaldo relembrou as dificuldades enfrentadas para transformar a folkcomunicação em disciplina e área reconhecida dentro da Universidade Federal da Paraíba. De um lado, havia estudiosos conservadores que temiam que a aproximação com a comunicação descaracterizasse a cultura popular. De outro, pesquisadores que não reconheciam a folkcomunicação como teoria ou metodologia legítima.
“Fácil foi fundar a Rede Folkcom. Difícil foi concretizar, foi expandir a Rede Folkcom”, observou.
O reconhecimento recebido em Cachoeira representava, assim, não apenas uma homenagem individual, mas a celebração de uma construção coletiva que atravessou universidades, grupos de pesquisa, congressos e diferentes gerações de pesquisadores.
Luiz Custódio e a comunicação das cantorias populares
O último homenageado foi o professor Luiz Custódio da Silva. Impossibilitado de comparecer, ele foi representado por Rosinha Trigueiro, que recebeu a homenagem em seu nome.
A professora Júnia Martins recordou Luiz Custódio como uma das primeiras pessoas que a acolheram quando se aproximou da Rede Folkcom. Destacou sua postura afetiva, seu sorriso e a participação em iniciativas dedicadas aos festejos juninos e à comunicação popular em Campina Grande.
Luiz Custódio integra, ao lado de Osvaldo Trigueiro e Roberto Benjamin, uma geração decisiva para os estudos folkcomunicacionais na Paraíba. Entre suas principais contribuições está a investigação sobre a influência do rádio na dinâmica cultural das cantorias.
Seu trabalho ajudou a demonstrar que o contato entre cultura popular e meios de comunicação não produz necessariamente o desaparecimento das tradições. A presença do rádio pode modificar formas de apresentação, ampliar circuitos e criar novas condições para a circulação dos cantadores, sem eliminar a capacidade de negociação dos agentes populares.
Ao encerrar a homenagem, Júnia sintetizou o sentimento coletivo: “Viva Custódio. Viva a Rede Folkcom”.
Premiação reconheceu podcasts, fotografias e produções audiovisuais
Além das homenagens, a cerimônia anunciou os vencedores de cinco categorias estudantis. Os nomes dos prêmios vinculavam a história dos homenageados às novas produções desenvolvidas no campo da folkcomunicação.
No Prêmio Dra. Dalva Damiana de Podcast, o primeiro lugar ficou com Laços de Travessia, de Gabriela Santos Souza, Rebeka Francis Santos e Santos e Victória Christyne Silva e Lima.
O segundo lugar foi concedido a Cultura & Pluralidades, de Joyce Clara do Lago Pereira dos Santos e Karina Janz Woitowicz.
Em terceiro lugar ficou Além de Hollywood, de Luiz Guilherme Guimarães Improta. Os três podcasts finalistas podem ser acessados na página oficial dos concursos da Folkcom 2023.
No Prêmio Prof. Dr. Osvaldo Trigueiro de Fotografia, o primeiro lugar foi conquistado por Miolo: representação da existência à resistência, de Mary Aurea de Almeida Costa Everton.
A fotografia Mãos que matam a fome, de Vinícius da Silva Coutinho, recebeu o segundo lugar.
Em terceiro ficou Sacis salvam vidas, de Matheus Schwab.
No Prêmio Prof. Dr. Luís Custódio da Silva de Produção Audiovisual, venceu Liderança e Ativismo: Folkcomunicação na Umbanda da Cabana da Vovó Maria Conga, de Jhoária Ferreira Carneiro.
O segundo lugar foi concedido a Nhamandú, de Marilaine Martins Camargo.
Pesquisas premiadas revelam a diversidade da folkcomunicação
Os artigos estudantis também foram reconhecidos em duas categorias, uma destinada à graduação e outra à pós-graduação.
No Prêmio Prof. Dr. Robério Marcelo de Pesquisa em Folkcomunicação, voltado aos estudantes de graduação, o primeiro lugar ficou com A teoria do folkmarketing e sua aplicabilidade: uma análise das estratégias da Pitú em torno do Carnaval de Pernambuco, de Priscilla Andrea Villarouco Contreras, com orientação de Pedro Paulo Procópio de Oliveira Santos.
O segundo lugar foi concedido ao trabalho Numa “Troca de Calçada” com Marília Mendonça: uma leitura folkcomunicacional, de Adrielle de Souza Silva, orientada por Adelson da Costa Fernando. A pesquisa analisa a canção de Marília Mendonça e a maneira como ela apresenta as experiências, a marginalização e o preconceito enfrentados por profissionais do sexo.
No Prêmio Prof. Dr. Sérgio Mattos de Pesquisa em Folkcomunicação, destinado à pós-graduação, venceu São João de Petrolina 2023: as estratégias de folkmarketing para atração turística e a descaracterização da festa junina, de Vinícius da Silva Coutinho e Antônio Jorlan Soares de Abreu.
O segundo lugar ficou com A toada como ferramenta folkcomunicativa: uma análise sobre questões raciais presentes no Boi-Bumbá de Parintins, de Onan Ferreira da Silva, orientado por Adelson da Costa Fernando.
Os quatro trabalhos estão disponíveis nos Anais da XXI Conferência Brasileira de Folkcomunicação, publicados em acesso aberto.
Uma homenagem que aponta para o futuro
Os objetos das produções premiadas mostram a amplitude alcançada pela folkcomunicação: o Carnaval pernambucano, o São João de Petrolina, as toadas do Boi-Bumbá, a música de Marília Mendonça, a Umbanda, os sacis, a alimentação, o podcast e a fotografia.
São trabalhos que aproximam teoria e cotidiano, observando como os grupos sociais produzem sentidos, reivindicam reconhecimento e negociam suas tradições diante das transformações econômicas, midiáticas e culturais.
Ao dar aos prêmios os nomes de Dona Dalva, Robério Marcelo, Sérgio Mattos, Osvaldo Trigueiro e Luiz Custódio, a Rede Folkcom não realizou apenas um gesto de memória. Vinculou cada nova produção a uma história anterior de trabalho, criação, pesquisa, ensino e resistência.
A homenagem, nesse sentido, não representa um ponto final. Como afirmou Sérgio Mattos, ela é uma semente. Como demonstrou Osvaldo Trigueiro, precisa ser compartilhada com aqueles que ajudaram a construir o caminho. E, como pediu Dona Dalva, deve produzir condições para que o legado encontre uma casa, permaneça vivo e possa ser transmitido às próximas gerações.





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