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Documentário registra Folia de Reis de Sarandi como comunicação, fé e resistência

24 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 26 de ago.

Produzido por Marcio Tcheques e Talitta Emanuela Silva, vídeo acompanha a Companhia Nossa Senhora da Esperança e utiliza a Folkcomunicação para compreender a preservação da tradição no espaço urbano



Quando famílias de pequenos agricultores deixaram a zona rural e passaram a viver na área urbana de Sarandi, no Paraná, levaram consigo mais do que seus pertences. Trouxeram também cantos, crenças, memórias e formas coletivas de celebrar a visita dos Reis Magos ao menino Jesus. Esse processo de permanência e transformação cultural é o tema do documentário *Folia de Reis: Comunicação e Cultura – O Folclore em Sarandi-PR*, dedicado à Companhia de Folia de Reis Nossa Senhora da Esperança.


O trabalho foi produzido pelos então estudantes de Jornalismo Marcio Tcheques e Talitta Emanuela Silva, da Faculdade Maringá, com orientação da professora Luzia Yamashita Deliberador. Associado a uma pesquisa sobre a manifestação, o vídeo foi submetido ao XVI Prêmio Expocom, em 2009, na categoria Jornalismo, modalidade Documentário em Vídeo.


Disponível no [YouTube](https://www.youtube.com/watch?v=jpnCYtPX4Ag), o documentário alterna cantorias, apresentações públicas e depoimentos de foliões para investigar como a tradição religiosa se tornou também um espaço de pertencimento, organização comunitária e comunicação popular.


Em Sarandi, a Folia de Reis ganhou força com a chegada de famílias provenientes do campo, especialmente durante as décadas de 1970 e 1980. Na cidade em crescimento, os antigos agricultores reconstruíram redes de sociabilidade em torno da devoção. A manifestação ajudava a preservar vínculos com o lugar de origem e, ao mesmo tempo, oferecia uma identidade comum diante das transformações provocadas pela urbanização.


“Esse povo que veio, na grande maioria, da zona rural, com essas tradições, está fazendo um esforço enorme para preservar isso na cidade”, afirma um dos entrevistados. Para ele, a Folia possui um valor que ultrapassa a dimensão religiosa: oferece aos devotos “um sentido da vida” e uma identidade que o cotidiano urbano tende a diluir.


Uma devoção aprendida em família

O documentário acompanha integrantes da Companhia Nossa Senhora da Esperança, formada por amigos, parentes e trabalhadores de diferentes profissões, entre eles pedreiros, encanadores e aposentados. Muitos começaram a participar ainda crianças, conduzidos por pais, avós e tios.


Os relatos evidenciam que o conhecimento necessário para integrar uma companhia não é transmitido por manuais. Aprende-se acompanhando os mais experientes, observando os rituais, memorizando os versos e compreendendo os momentos adequados para cada canto.


Um dos foliões recorda o nervosismo sentido na primeira vez em que precisou “embaixar”, assumindo uma das vozes que respondem ao mestre durante a cantoria. Diante do presépio, tremia e suava, mas cumpriu a função. Depois da experiência inicial, continuou cantando e permaneceu na Folia. O episódio mostra como a tradição se mantém pela participação direta e pela transmissão oral entre os integrantes.


“É uma devoção, não é uma brincadeira”, ressalta outro participante. Para ele, seguir a bandeira dos Santos Reis exige compreender o sentido religioso da caminhada e reconhecer que o nascimento de Cristo deve ser anunciado a todos.


Seu Lázaro e a criação do festival

Um dos personagens centrais do documentário é José Lázaro Pereira, apresentado como coordenador do movimento de Folia de Reis de Sarandi. Criado entre foliões, ele recebeu da família o interesse pela manifestação e ajudou a organizar os primeiros encontros realizados no município.


No vídeo, Seu Lázaro recorda as condições precárias da primeira edição: Sarandi ainda possuía pouca infraestrutura, não havia salão disponível e a programação precisou acontecer ao ar livre. Com a continuidade do evento, o encontro passou a receber companhias de diferentes cidades do Paraná, chegando a reunir dezenas de grupos.


A iniciativa cresceu e ajudou a consolidar Sarandi como uma referência para a manifestação. A Lei estadual nº 13.296, de 2001, autorizou a instituição do município como “Capital Turística e Folclórica da Festa de Folia de Reis”. O festival, iniciado no começo da década de 1980, chegou à 43ª edição em 2024.


José Lázaro Pereira faleceu em 2022, aos 92 anos. Em reconhecimento à sua atuação como um dos fundadores e principais incentivadores do festival, o troféu entregue às companhias participantes passou a levar o seu nome. A informação confere hoje uma dimensão adicional ao documentário: além de apresentar uma pesquisa acadêmica, o vídeo preserva a voz e as memórias de uma figura fundamental para a história cultural de Sarandi.


Cada folião como agente de comunicação

A produção interpreta a Folia de Reis a partir da teoria criada por Luiz Beltrão. “A Folkcomunicação é a comunicação através do folclore”, anuncia a narração. Por meio desse canal popular, grupos socialmente marginalizados expressariam suas crenças, reivindicariam reconhecimento e comunicariam sua maneira de compreender o mundo.


A pesquisa apresentada no Intercom Sul procurou verificar a presença do líder de opinião descrito por Beltrão. A conclusão dos autores foi que, na Companhia Nossa Senhora da Esperança, a mediação não se concentrava em uma única pessoa.


O processo seria coletivo: cada folião atuaria como um líder de opinião ao interpretar informações, discuti-las com os companheiros e transmiti-las às suas redes de relacionamento. A própria manifestação funcionaria como meio de circulação de ideias, valores religiosos e posições sobre a vida comunitária.


Essa leitura aparece no documentário quando a Folia é apresentada como um instrumento de afirmação diante das desigualdades sociais. Ao vestir o uniforme, carregar a bandeira e cantar diante da comunidade, trabalhadores que nem sempre encontram reconhecimento em seu cotidiano ocupam uma posição de autoridade simbólica. Tornam-se portadores de uma mensagem considerada sagrada e representantes de uma memória coletiva.


Entre o medo do desaparecimento e a transmissão aos jovens

Os integrantes entrevistados não escondem o receio de que a Folia de Reis desapareça. Entre as dificuldades mencionadas estão as jornadas de trabalho, as mudanças religiosas, a falta de interesse de parte da juventude e a redução do número de pessoas disponíveis para acompanhar as caminhadas.


O documentário, entretanto, apresenta também estratégias de continuidade. Durante o festival, estudantes de uma escola eram convidados a representar uma companhia, desfilando caracterizados e chamando a atenção da população para a tradição. A ação buscava aproximar crianças e adolescentes de uma manifestação que muitos conheciam apenas superficialmente.


Ao registrar os cantos, os rituais, as histórias de vida e as preocupações dos devotos, a própria produção audiovisual passou a integrar esse esforço de transmissão. O vídeo permite que o conhecimento compartilhado oralmente pela companhia alcance outros públicos e atravesse o tempo.


Mais de uma década depois de sua realização, o documentário permanece como registro de uma comunidade que encontrou na devoção aos Santos Reis uma maneira de preservar suas origens e afirmar seu lugar na cidade. Como resume sua narração final, a Folia de Reis não é apenas uma festa da religiosidade popular: por meio dela, as pessoas reconhecem sua história, percebem sua cultura e comunicam coletivamente quem são.

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