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Das margens às redes: Karina Janz Woitowicz atualiza o legado de Luiz Beltrão

11 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 14 de ago.


Em palestra no VI Simpósio de Discursividades Midiáticas, pesquisadora relacionou Folkcomunicação, minorias sociais, ativismo midiático e jornalismo independente — e alertou que nem toda prática popular é resistência nem toda presença digital significa democracia.



A comunicação popular não nasce necessariamente como resistência. Da mesma forma, o acesso às redes digitais não transforma automaticamente a internet em um espaço democrático. Entre essas duas advertências, a pesquisadora Karina Janz Woitowicz construiu uma leitura crítica e contemporânea do legado de Luiz Beltrão, criador da teoria da Folkcomunicação.


Professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Karina apresentou a palestra “Comunicação popular: do legado de Luiz Beltrão ao ativismo em rede” na abertura do VI Simpósio de Discursividades Midiáticas, promovido pelo Laboratório de Discursividades Midiáticas e Práticas Socioculturais (LabDim) da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Unidade Frutal.


Realizado de forma remota nos dias 22 e 23 de novembro de 2021, o evento teve como tema “Paulo Freire e Comunicação: diálogos e aproximações”, em referência ao centenário do educador. Para Karina, Freire e Beltrão podem ser aproximados pelo reconhecimento da cultura popular e pela compreensão da educação popular como um projeto essencialmente comunicacional.


Um pensamento brasileiro voltado às margens

Karina iniciou a palestra recuperando as contribuições de Luiz Beltrão para o ensino do Jornalismo, para a institucionalização da pesquisa em Comunicação e para a criação de uma teoria genuinamente brasileira.


Beltrão foi fundador do Instituto de Ciências da Informação, considerado o primeiro centro acadêmico brasileiro dedicado aos estudos da mídia, e da revista Comunicações & Problemas, lançada em 1963. Também se tornou, em 1967, o primeiro doutor em Comunicação do Brasil, com a tese Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de ideias. Esses marcos são reconhecidos pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.


Na avaliação de Karina, a obra de Beltrão deve ser observada a partir de duas frentes complementares. A primeira diz respeito à formação jornalística, marcada pela defesa da articulação entre teoria e prática, pela responsabilidade pública da profissão e pela relação entre Jornalismo e democracia. A segunda corresponde à formulação da Folkcomunicação, teoria voltada aos processos informais, artesanais e horizontais de comunicação desenvolvidos por grupos social e culturalmente marginalizados.


Ao deslocar o olhar dos grandes meios para os agentes e circuitos populares, Beltrão questionou uma estrutura comunicacional que privilegiava as elites e silenciava amplos setores da sociedade.


Um público que aceita, rejeita e reelabora

A leitura apresentada por Karina também afasta a Folkcomunicação de uma concepção que reduz o público à condição de receptor passivo. Em Beltrão, os sujeitos não apenas recebem os conteúdos produzidos pelos meios de massa: eles os aceitam, rejeitam, reinterpretam e incorporam às suas próprias experiências.


A relação entre cultura de massa e cultura popular constitui, portanto, um processo dialético. Informações difundidas pelos meios tradicionais podem ser traduzidas, criticadas e ressignificadas em cordéis, conversas cotidianas, celebrações, manifestações religiosas, performances, rádios comunitárias e outras formas de expressão.


Essa perspectiva permite compreender que os grupos populares elaboram sistemas próprios de circulação de informações e opiniões. Suas práticas não estão isoladas da mídia, mas estabelecem com ela relações de negociação, apropriação e conflito.


Resistência como potência, não como essência

Um dos pontos centrais da palestra foi a recusa de uma visão romantizada da cultura popular. Para Karina, uma manifestação cultural não deve ser classificada previamente como resistente apenas por ter origem popular.


“Não necessariamente de resistência, mas com um potencial que deve ser pensado a partir dessas dinâmicas de resistência”, afirmou a pesquisadora. A formulação é importante porque reconhece que as culturas populares também podem reproduzir preconceitos, hierarquias e valores dominantes. O caráter contestador de determinada prática precisa ser analisado em seu contexto, considerando os sujeitos envolvidos, as relações de poder, os discursos produzidos e os efeitos sociais alcançados.


Karina também propôs atualizar a categoria de “grupos culturalmente marginalizados” utilizada por Beltrão. Para a pesquisadora, o conceito pode dialogar hoje com a noção de minorias sociais: sujeitos que não possuem representatividade reconhecida nos espaços hegemônicos em razão de questões de gênero, raça, classe, geração, sexualidade, territorialidade e outros marcadores.


A marginalidade, nesse sentido, não descreve uma suposta inferioridade dos grupos. Ela revela uma posição produzida por estruturas de exclusão social, cultural e comunicacional.


Do líder de opinião ao ativista folk-midiático

Para aproximar a teoria de Beltrão da comunicação contemporânea, Karina recuperou o conceito de ativista midiático — ou ativista folk-midiático — desenvolvido por Osvaldo Trigueiro.


O conceito atualiza a figura do líder de opinião estudada pela Folkcomunicação. Esse agente não atua apenas como alguém capaz de influenciar sua comunidade. Ele articula redes de pertencimento, participa de movimentos culturais e sociais, circula entre os espaços cotidianos e midiáticos e utiliza estrategicamente diferentes meios para projetar demandas coletivas.


No artigo “O ativista midiático da rede folkcomunicacional”, Trigueiro argumenta que não é possível compreender a influência da mídia sem investigar também o que a sociedade faz com os conteúdos e bens culturais colocados em circulação.


Karina destacou que esses ativistas podem atuar tanto nas brechas dos meios hegemônicos quanto nos canais criados pelos próprios grupos. Em vez de uma liderança fundamentada exclusivamente no prestígio individual, o ativista folk-midiático ganha legitimidade por seu vínculo com a comunidade e por sua capacidade de expressar interesses coletivos.


A internet é um campo de disputas

As redes digitais ampliaram as possibilidades de circulação de vozes antes restritas a territórios ou grupos específicos. Movimentos sociais passaram a produzir conteúdos, organizar campanhas, criar veículos e estabelecer conexões que ultrapassam barreiras geográficas.


Para Karina, no entanto, esse potencial não elimina as desigualdades. Os grandes conglomerados também ocupam o ambiente digital, enquanto relações econômicas, algoritmos, concentração de visibilidade e diferentes formas de controle continuam determinando quais discursos alcançam maior repercussão.


A pesquisadora também lembrou que as redes podem ser utilizadas para espalhar desinformação e conteúdos contrários aos direitos humanos. Por isso, rejeitou uma compreensão celebratória das tecnologias:


“As mídias digitais seriam plenamente libertadoras? Não. Elas oferecem possibilidades.”

O ativismo também não pode permanecer restrito às plataformas. Para alcançar legitimidade e capacidade de transformação, ele precisa repercutir em outras esferas da sociedade civil e manter vínculos com ações, organizações e sujeitos concretos.


Jornalismo independente ocupa novas brechas

Na palestra, Karina relacionou o ativismo em rede ao crescimento das iniciativas de mídia independente. Projetos como Agência Pública, Gênero e Número, Portal Catarinas, Revista AzMina e Nós, Mulheres da Periferia exemplificam práticas jornalísticas que assumem posições editoriais, investigam temas pouco contemplados pelos meios tradicionais e oferecem visibilidade a grupos historicamente silenciados.


Para a pesquisadora, mídia independente não deve ser confundida com produção amadora ou com ausência de critérios profissionais. Muitas dessas iniciativas realizam jornalismo investigativo qualificado e apresentam maior transparência sobre os princípios que orientam suas coberturas.


Ao assumirem seus compromissos sociais, esses veículos também colocam em debate valores tradicionalmente tratados como universais no Jornalismo, entre eles uma noção de objetividade reproduzida sem o necessário questionamento.


Apesar das possibilidades, a sustentabilidade permanece como desafio. Financiamento coletivo, assinaturas, editais, apoio de fundações e redes colaborativas aparecem como alternativas, mas precisam ser acompanhados de transparência e análise crítica sobre as relações que podem estabelecer com as agendas editoriais.


Comunicar exige reconhecer o outro

Ao final da palestra, Karina retomou um dos elementos fundamentais da Folkcomunicação: o reconhecimento do público, de sua linguagem e de sua realidade.


Beltrão observava, por exemplo, como o cordelista traduzia uma informação divulgada pela imprensa para uma linguagem socialmente reconhecível. Nessa tradução, o agente popular não apenas simplificava o conteúdo: acrescentava sua crítica, sua percepção e sua proximidade com a experiência cotidiana da comunidade.


“É preciso reconhecer para quem se fala e tomar como base esse reconhecimento de uma realidade”, resumiu Karina.


Mais do que recuperar historicamente uma teoria, a palestra mostrou que o pensamento de Luiz Beltrão permanece vivo quando utilizado para interpretar novos agentes, circuitos e conflitos. Da comunicação artesanal ao ativismo em rede, a Folkcomunicação oferece instrumentos para perceber processos que costumam permanecer fora dos enquadramentos da mídia e, muitas vezes, das próprias teorias tradicionais do Jornalismo.


O legado de Beltrão, nessa leitura, não constitui uma resposta pronta. É uma chave para investigar quem pode falar, quais vozes são reconhecidas, como as comunidades reelaboram informações e em que condições uma prática comunicacional pode transformar sua potência de resistência em ação social efetiva.

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