Rede Folkcom publica carta aberta em defesa da cultura popular e da democracia
Documento repudia o projeto político representado por Flávio Bolsonaro, apoia a continuidade das políticas culturais do governo Lula e reafirma a autonomia crítica da entidade.

Diante do segundo turno da eleição presidencial de 2026, a Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação (Rede Folkcom) publica a carta aberta “Pela cultura popular, pela democracia e pelo Brasil que não pode voltar atrás”. Dirigido à sociedade brasileira e às associadas e aos associados da entidade, o documento apresenta um posicionamento fundamentado na defesa da cultura popular e das comunidades que a produzem.
Na carta, a Rede repudia o projeto político liderado por Jair Bolsonaro, que governou o país entre 2019 e 2022, e se opõe ao retorno desse projeto ao governo federal, representado nesta eleição pela candidatura de Flávio Bolsonaro. A entidade também manifesta apoio à continuidade e ao aprofundamento da reconstrução das políticas públicas de cultura conduzida pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Há momentos em que uma entidade científica precisa falar para além dos limites da universidade. Este é um deles”, afirma a abertura. O texto relaciona essa posição aos objetivos previstos no Estatuto da Rede, entre eles a promoção da cultura popular e a defesa do patrimônio histórico, artístico, material e imaterial brasileiro.
O documento reafirma a Rede Folkcom como espaço plural de pesquisa e debate, preservando a liberdade de suas associadas e de seus associados para pensar, discordar e exercer sua cidadania. Ao mesmo tempo, sustenta que esta mesma pluralidade não pode significar indiferença.
PELA CULTURA POPULAR, PELA DEMOCRACIA E PELO BRASIL QUE NÃO PODE VOLTAR ATRÁS
Carta da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação à sociedade brasileira e às suas associadas e aos seus associados
Há momentos em que uma entidade científica precisa falar para além dos limites da universidade. Este é um deles. A Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação (Rede Folkcom) reúne pesquisadoras e pesquisadores interessados em compreender um Brasil que nem sempre encontra espaço nos grandes meios de comunicação: o Brasil das festas populares, das comunidades tradicionais, das periferias, das manifestações religiosas, das narrativas orais, das artesãs e dos artesãos, dos mestres e mestras da cultura e das inúmeras formas pelas quais o povo comunica sua experiência e produz cultura. É desse lugar que falamos.
Nosso Estatuto estabelece entre os objetivos da Rede Folkcom promover a cultura popular regional e nacional, estimular a preservação e o conhecimento dos bens e valores culturais brasileiros e desenvolver estudos e ações em defesa do patrimônio histórico, artístico, material e imaterial do país.
Não seria coerente assumir esses compromissos em nossos congressos, pesquisas, artigos e livros e permanecer em silêncio quando o futuro das políticas responsáveis por proteger e fomentar esse patrimônio está em disputa. A teoria que dá fundamento à Rede dedica-se ao estudo das dinâmicas das classes populares, de suas formas de comunicação, resistência e reexistência. É a partir desses compromissos e da avaliação das políticas que afetam esses sujeitos que assumimos esta posição.
Nós nos lembramos
Entre 2019 e 2022, o Brasil viveu um processo de enfraquecimento de sua política cultural. Uma das primeiras medidas do governo Jair Bolsonaro foi extinguir o Ministério da Cultura, retirando da área o status ministerial.
Não foi uma mudança apenas burocrática. O período foi marcado por instabilidade administrativa, conflitos com setores artísticos e culturais e enfraquecimento de instrumentos públicos de fomento.
Em maio de 2022, foi anunciado um contingenciamento de R$ 93,2 milhões do orçamento da então Secretaria Especial da Cultura. Jair Bolsonaro também vetou o projeto da Lei Paulo Gustavo, que previa mais de R$ 3,8 bilhões para o setor cultural, profundamente atingido pela pandemia. O veto precisou ser derrubado pelo Congresso Nacional. O governo igualmente vetou o projeto que instituiu a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, decisão também revertida pelo Congresso.
A aprovação dessas políticas e a derrubada dos vetos envolveram também a mobilização de artistas, trabalhadoras e trabalhadores da cultura e organizações culturais. São conquistas construídas com a participação da sociedade e que precisam ser preservadas como políticas de Estado.
Quando recursos e políticas desaparecem, as consequências chegam principalmente a quem possui menos acesso ao mercado e aos grandes patrocinadores: artistas independentes, produtoras e produtores populares, pequenos municípios, coletivos comunitários, grupos tradicionais e mestres e mestras responsáveis por manter conhecimentos e manifestações transmitidos entre gerações. São grupos e sujeitos diretamente envolvidos nos estudos de pesquisadoras e pesquisadores da Rede.
A cultura voltou a ocupar espaço
Desde janeiro de 2023, o Brasil passou a percorrer outro caminho. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva recriou o Ministério da Cultura. A Lei Paulo Gustavo foi regulamentada e implementada, com o repasse de aproximadamente R$ 3,8 bilhões a estados, municípios e ao Distrito Federal em 2023 para apoiar o setor cultural. A Política Nacional Aldir Blanc passou a construir uma perspectiva continuada e descentralizada de financiamento cultural.
Também consideramos especialmente importante a retomada da Política Nacional Cultura Viva. Em maio de 2026, o país contabilizava aproximadamente 16 mil Pontos de Cultura certificados em mais de 2,2 mil municípios. Pesquisa divulgada neste ano pelo Ministério da Cultura, em parceria com o Consórcio Universitário Cultura Viva, formado pela UFBA, pela UFF e pela UFPR, estimou cerca de um milhão de atividades culturais gratuitas por ano e um alcance de aproximadamente três milhões de pessoas por mês na rede de Pontos e Pontões de Cultura.
Somam-se a isso a Política Nacional para as Culturas Tradicionais e Populares, a Rede Nacional de Mestras e Mestres das Culturas Tradicionais e Populares e iniciativas de valorização dos festejos populares. Essas políticas dialogam diretamente com aquilo que a Folkcomunicação aprendeu a reconhecer desde Luiz Beltrão: o valor de agentes, grupos, manifestações, linguagens e processos comunicacionais produzidos pelo povo.
O Brasil cultural está nas grandes cidades, mas também está na Amazônia, no sertão e no Pantanal; nas comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas; nos terreiros e periferias; nos bois, quadrilhas, congadas, maracatus, folias, cirandas, festas religiosas e tantas outras manifestações que constituem nosso patrimônio cultural.
Uma política cultural democrática precisa chegar a esse Brasil. Defender a cultura popular é também defender a liberdade de expressão e de criação, o respeito à diversidade e o direito à comunicação. A democracia exige que pessoas e comunidades possam produzir e fazer circular seus conhecimentos, organizar-se e participar das decisões públicas que afetam seus territórios.
Não queremos voltar atrás
É impossível observar a eleição presidencial de 2026 ignorando o que aconteceu entre 2019 e 2022. A candidatura de Flávio Bolsonaro reivindica o legado político do governo de Jair Bolsonaro. Por isso, é legítimo perguntar o que representaria para a cultura brasileira o retorno desse projeto ao comando do governo federal.
Não fazemos essa comparação com base em divergências pessoais, mas em uma experiência histórica recente. Sabemos o que significou extinguir o Ministério da Cultura. Sabemos que o projeto da Lei Paulo Gustavo foi vetado. Sabemos que a Política Nacional Aldir Blanc também encontrou resistência. E sabemos das tensões que marcaram as relações daquele governo com diferentes setores culturais.
Também sabemos o que aconteceu desde 2023: o Ministério da Cultura foi recriado, mecanismos nacionais de financiamento foram retomados, os Pontos de Cultura ganharam novo impulso e as culturas tradicionais e populares passaram a ocupar maior espaço na agenda pública.
São diferenças concretas que a Rede Folkcom não pode ignorar.
Apoiar não significa silenciar
Reconhecer esses avanços não significa considerar concluída a reconstrução da política cultural brasileira. Os recursos ainda precisam ser mais descentralizados, especialmente nos mecanismos de incentivo fiscal que dependem da captação de patrocínio. Norte, Nordeste e Centro-Oeste precisam ampliar sua participação nesses mecanismos. Pequenos municípios necessitam de melhores condições para acessar programas públicos. Povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e tradicionais precisam ocupar posição ainda mais central na formulação e na execução das políticas culturais.
Também é necessário avançar na proteção das trabalhadoras e dos trabalhadores da cultura e na criação de mecanismos permanentes de reconhecimento e sustentabilidade para mestres e mestras dos saberes populares. Apoiar uma direção política não significa abrir mão da crítica. Significa também cobrar mais descentralização, mais participação social, mais recursos chegando aos territórios e mais reconhecimento para quem mantém vivas nossas tradições. Esses compromissos orientarão nossa avaliação de qualquer governo.
De que lado está a Rede Folkcom
Nossa história e nosso Estatuto nos colocam ao lado da cultura popular brasileira. É desse lugar que fazemos nossa escolha. Diante da experiência concreta dos projetos políticos que novamente se confrontam no Brasil, a Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação manifesta seu apoio à continuidade e ao aprofundamento do processo de reconstrução e fortalecimento das políticas públicas de cultura conduzido pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Essa posição significa reconhecer que, apesar das insuficiências que continuaremos apontando, o caminho iniciado em 2023 restabeleceu instituições, retomou investimentos e ampliou possibilidades para as culturas populares, tradicionais e comunitárias.
Da mesma maneira, manifestamos nossa oposição ao retorno do projeto político que governou o Brasil entre 2019 e 2022, liderado por Jair Bolsonaro e que, nesta eleição, encontra continuidade política na candidatura de Flávio Bolsonaro.
Não queremos novamente uma cultura sem ministério.
Não queremos políticas culturais relegadas a um lugar secundário.
Não queremos que os instrumentos destinados a financiar artistas, produtoras e produtores, comunidades e manifestações populares sejam novamente enfraquecidos.
Nossa escolha é também pela memória
Quem trabalha com Folkcomunicação sabe que memória não significa simplesmente guardar o passado. Memória também nos ajuda a escolher o futuro. Luiz Beltrão ensinou o campo da Comunicação a olhar para grupos que durante muito tempo permaneceram à margem dos grandes sistemas midiáticos. Ensinou-nos que o povo não é apenas receptor: cria mensagens, produz conhecimentos, inventa linguagens, constrói redes de comunicação e interpreta o mundo a partir de suas próprias experiências.
Essa lição permanece atual. A cultura popular não é peça de museu. Está viva, transforma-se, incorpora tecnologias, ocupa redes digitais, reinventa tradições e cria novas formas de pertencimento. Mas sua continuidade depende de algo essencial: as pessoas e comunidades que produzem cultura precisam ter o direito e as condições para continuar produzindo cultura. É esse direito que defendemos. As políticas públicas devem fortalecer sua autonomia, respeitando suas formas próprias de organização e criação.
A Rede Folkcom continuará sendo um espaço plural de pesquisa, reflexão e debate. Suas associadas e seus associados continuarão livres para pensar, discordar e exercer individualmente sua cidadania. Mas pluralidade não significa indiferença. Quando a cultura popular está em jogo, precisamos dizer de que lado estamos.
Estamos ao lado dos mestres e das mestras, de brincantes, de artistas, de comunicadoras e comunicadores populares, das artesãs e dos artesãos, dos povos tradicionais, das comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas e de todas as pessoas que mantêm vivos conhecimentos, festas, celebrações, narrativas e tradições.
Estamos ao lado de um Brasil que reconhece na diversidade cultural uma de suas maiores riquezas.
Estamos ao lado da cultura popular.
Estamos ao lado da democracia.
E não queremos que o Brasil volte atrás.
Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação (Rede Folkcom).
Brasil, outubro de 2026.





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