“A vida da gente foi muito sofrida”: Ceguinhas de Campina Grande transformam memória em canto
Edição especial do programa Gente Nossa reuniu Poroca e Indaiá durante o XV Seminário de Folkcomunicação e mostrou como rua, feira, cinema, universidade e streaming reorganizaram a circulação das vozes do trio

Durante décadas, as vozes de Maroca, Poroca e Indaiá fizeram parte da paisagem sonora de Campina Grande. Elas cantaram em calçadas, feiras, portas de igrejas e esquinas do centro. Acompanhadas pelo ganzá, interpretavam cocos, emboladas, cantigas e músicas solicitadas pelo público. Eram ouvidas por milhares de pessoas, mas nem sempre reconhecidas como artistas.
Na abertura do XV Seminário Os Festejos Juninos no Contexto da Folkcomunicação e da Cultura Popular, essa relação foi momentaneamente invertida. Em vez de permanecerem na margem da cena urbana, Poroca e Indaiá ocuparam o palco e receberam os microfones de uma edição especial do programa de extensão Gente Nossa, produzido por estudantes de Jornalismo da Universidade Estadual da Paraíba.
Realizada em novembro de 2018, a homenagem também preservou a memória de Maroca, falecida no ano anterior. Juntas, as três ficaram conhecidas como as Ceguinhas de Campina Grande e alcançaram projeção nacional com o documentário A Pessoa É para o que Nasce, dirigido por Roberto Berliner.
A presença das irmãs no seminário permitiu observar um percurso comunicacional complexo: da oralidade e do contato direto com o público à mediação cinematográfica; das ruas de Campina Grande aos palcos de outras cidades; da apresentação presencial à transmissão digital realizada pela universidade.
Três vozes no centro da cidade
Mestra Poroca é o nome artístico de Regina Barbosa; Mestra Maroca, o de Maria das Neves Barbosa; e Mestra Indaiá, o de Francisca Conceição Barbosa. Nascidas com deficiência visual e integrantes de uma família pobre e numerosa, elas começaram a cantar ainda crianças. A trajetória do trio está registrada em acervos como o Paraíba Criativa, que reúne informações sobre a vida, o repertório e a circulação artística das irmãs.
No Gente Nossa, Poroca e Indaiá recordaram as viagens entre municípios, muitas vezes feitas em condições precárias. Cantavam para receber contribuições e ajudar no sustento da família. A rua era, simultaneamente, espaço de trabalho, exposição, sociabilidade e violência.
“A vida da gente foi muito sofrida”, resumiu Indaiá.
As lembranças apresentadas durante a entrevista afastaram qualquer leitura romantizada da pobreza. As artistas relataram humilhações, agressões e brincadeiras cruéis. Algumas pessoas colocavam pedaços de papel no recipiente destinado às contribuições. Outras puxavam seus cabelos ou se aproximavam para importuná-las.
O fato de cantarem em espaços públicos não significava que fossem tratadas como trabalhadoras da cultura. A deficiência, a pobreza, o gênero e a posição social das irmãs atravessavam a recepção de suas apresentações. Podiam ser escutadas como parte habitual da cidade e, ao mesmo tempo, permanecer socialmente invisíveis.
Essa contradição apareceu na fala do professor Luiz Custódio da Silva. Ao participar do programa, ele recordou que ouvia as irmãs, ainda durante a infância, nas proximidades da antiga Livraria Pedrosa. O ponto transformou-se em uma espécie de referência afetiva e sonora para diferentes gerações de moradores.
As cantoras já estavam inscritas na memória urbana muito antes de receberem reconhecimento institucional. O problema não era a ausência de público, mas o modo como esse público e as instituições enquadravam sua presença.
Repertório construído pela escuta
Poroca, Maroca e Indaiá não dependiam de partituras ou de um repertório previamente fechado. Aprendiam canções pelo rádio, pela convivência, pelas festas e pelos pedidos feitos nas ruas. A memória funcionava como arquivo, enquanto a performance era adaptada às circunstâncias de cada apresentação.
No palco do seminário, Poroca e Indaiá cantaram e conversaram com os apresentadores, convidados e estudantes. A edição reuniu a cantora Gitana Pimentel, a pandeirista Vanusa Vieira e o músico Nato Santiago, criando encontros entre repertórios, gerações e formas de interpretar a música popular.
Entre as canções apresentadas estiveram “Deixei meu tamborim no sereno”, “Segredinho” e “Atirei no mar”. O ganzá continuava marcando o ritmo e funcionando como assinatura sonora das irmãs.
A presença do instrumento não era mero detalhe folclórico. O ganzá organizava a performance, sustentava as vozes e favorecia o contato com o público. Por meio dele, as cantoras participavam de um circuito comunicacional baseado na oralidade, na repetição, no improviso e na proximidade.
É nesse processo — e não simplesmente na classificação das músicas como “populares” — que a experiência pode ser examinada pela Folkcomunicação. As irmãs atuaram como agentes que selecionavam repertórios, rearticulavam mensagens e estabeleciam vínculos com diferentes grupos. Ruas, feiras e portas de igrejas constituíam canais de circulação; os ouvintes respondiam com pedidos, contribuições, comentários, reconhecimento ou hostilidade.
A comunicação acontecia no encontro, em condições marcadas por desigualdade. A mesma apresentação que produzia encantamento também podia expor as artistas à violência.
O cinema amplia a circulação
O encontro com o diretor Roberto Berliner alterou profundamente a escala de circulação dessa história. O material inicialmente registrado para o projeto televisivo Som da Rua deu origem a um curta-metragem premiado e, posteriormente, ao longa-documentário A Pessoa É para o que Nasce.
O filme acompanhou a vida das três irmãs, suas relações familiares, afetivas e profissionais. Em vez de limitar-se a registrar suas músicas, expôs tensões da convivência, conflitos, desejos e dificuldades materiais. A projeção nacional levou as artistas a festivais, apresentações e encontros com músicos conhecidos.
A versão integral do documentário está disponível na internet, permitindo que novas gerações tenham contato com a trajetória do trio.
Durante o Gente Nossa, Poroca e Indaiá reconheceram a importância do filme para a mudança na forma como eram recebidas. “Depois do documentário, todo mundo conhece a gente”, disseram ao comentar a repercussão alcançada.
A visibilidade cinematográfica trouxe viagens, apresentações e maior respeito. Mas a transformação também revela uma questão incômoda: por que foi necessária a mediação de um cineasta e a legitimação de festivais para que artistas ouvidas durante tantos anos fossem reconhecidas pela própria sociedade?
A câmera não criou o talento nem a história das irmãs. Criou uma nova mediação, capaz de transportar suas vozes para circuitos aos quais elas dificilmente teriam acesso por conta própria. Ao fazer isso, também reorganizou a maneira como o público passou a enxergá-las.
Essa passagem da rua para o cinema não eliminou todas as vulnerabilidades. O reconhecimento simbólico e a celebridade eventual não garantem, por si, segurança econômica, autonomia ou políticas permanentes de proteção aos artistas populares.
A universidade como espaço de memória
O programa Gente Nossa acrescentou outra etapa a esse circuito. Desenvolvido como projeto de extensão da UEPB, sob a coordenação da professora Goreti Sampaio, o programa foi apresentado como um espaço para construir e divulgar a memória de artistas paraibanos por meio de entrevistas, música, poesia e recursos audiovisuais.
A edição realizada durante o seminário recuperou elementos dos antigos programas de auditório radiofônicos: apresentação ao vivo, acompanhamento musical, interação com a plateia e alternância entre entrevista e performance. Ao mesmo tempo, utilizou gravação em vídeo, transmissão pela internet e circulação em plataformas digitais.
Jordani Matias, ex-integrante do projeto, observou durante a apresentação que o rádio não desapareceu diante das novas tecnologias. Ele se reorganizou. O Gente Nossa demonstrava justamente essa transformação ao combinar linguagem radiofônica, presença de palco e transmissão multimídia.
A participação dos estudantes também teve uma dimensão formativa. Produzir o programa significava pesquisar trajetórias, preparar entrevistas, organizar apresentações e transformar o conhecimento acadêmico em uma atividade aberta à sociedade.
Na Folkcomunicação, essa mediação universitária precisa ser observada com cuidado. A instituição pode contribuir para registrar e ampliar a circulação das vozes populares, mas não deve tomar para si a autoridade exclusiva de explicar essas experiências. Na edição especial, a força do programa esteve em permitir que Poroca e Indaiá narrassem a própria história, interviessem nas lembranças e escolhessem as músicas que desejavam cantar.
Reconhecimento sem apagamento
A homenagem às Ceguinhas de Campina Grande não foi apenas uma retrospectiva artística. Ao reunir fala, canto, memória e mediação tecnológica, o programa expôs as mudanças ocorridas na posição pública das irmãs.
Primeiro, elas cantaram em busca da sobrevivência e dependeram do contato direto com os moradores. Depois, foram transformadas em personagens de um documentário e passaram a circular em festivais e meios de comunicação nacionais. Mais tarde, chegaram ao palco universitário como mestras homenageadas e referências da cultura paraibana.
Cada deslocamento ampliou o alcance das vozes, mas também trouxe novos enquadramentos. Na rua, eram vistas muitas vezes pela chave da caridade. No cinema, tornaram-se personagens de uma narrativa dirigida por outra pessoa. Na universidade, foram apresentadas como patrimônio e memória cultural.
Por isso, o principal gesto do Gente Nossa talvez tenha sido devolver-lhes o microfone. Poroca e Indaiá não estavam ali apenas para confirmar o que pesquisadores, jornalistas ou cineastas diziam a respeito delas. Cantaram, brincaram, discordaram, lembraram de Maroca e reconstruíram publicamente a própria trajetória.
A Folkcomunicação ajuda a compreender esse percurso ao observar os agentes, os meios, as mensagens, as relações de poder e as respostas do público. O canto das irmãs não permaneceu preso a um único suporte: atravessou a calçada, a feira, o rádio, o cinema, o palco e a internet.
No centro desse movimento, porém, continuaram as vozes de três mulheres que já produziam cultura quando a cidade ainda não sabia reconhecê-las como artistas.





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