A Importância de Luiz Antônio Barreto para a Folkcomunicação
- Andriolli Costa
- 24 de fev.
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Por Osvaldo Meira Trigueiro

Em maio de 1976 fui ao Primeiro Encontro Cultural de Laranjeiras, acompanhando o meu professor Roberto Benjamim, do curso de jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. A viagem no fusquinha de Roberto foi mais uma aventura na nossa vida de andarilhos para observar as manifestações folclóricas brasileiras e, especialmente, nordestinas. Sabíamos que em Laranjeiras estariam reunidos importantes estudiosos do folclore e das culturas populares das diferentes regiões do país e, aquela seria uma oportunidade para ampliar os nossos contatos e novos conhecimentos. Ficamos hospedados no Hotel Flecha, que era um ponto de apoio da Empresa de Ônibus Itapemirim, distante do centro de Laranjeiras.
Não fomos como convidados da organização do evento e achamos melhor ficar mais afastados, mas com a intenção de, aos poucos, nos aproximarmos dos convidados e dos grupos folclóricos que lá se encontravam. Eu, um jovem que tinha colado grau no curso de jornalismo em dezembro de 1975, na Universidade Católica de Pernambuco-UNICAP, estava para assumir o cargo de professor da Universidade Federal da Paraíba-UFPB. O professor Roberto Benjamin já era referência no campo dos estudos do folclore, conhecido de alguns ilustres convidados e eu iniciando a minha trajetória de pesquisador, que se alongou por toda minha vida acadêmica e, sem dúvida, foi no Encontro Cultural de Laranjeiras que dei a partida inicial para as pesquisas empíricas e teóricas com base nas fundamentações metodológicas aqui aprendidas.
Chegando em Laranjeiras próximo do horário previsto para abertura do evento encontramos os professores e pesquisadores pernambucanos Valdemar Valente e Mário Souto Maior, que além do Roberto Benjamin eu também os conhecia e foi um grande alívio para mim encontrar os dois ilustres convidados que, animadamente, faziam elogios às nossas atividades como estudiosos e pesquisadores do folclore e das culturas populares, ao nos apresentar a Luiz Antônio Barreto, idealizador e coordenador do evento, e ao Braulio Nascimento, presidente da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro/CDFB e da Comissão Nacional de Folclore. Esse encontro foi um acontecimento que marcou muito a minha vida como estudioso e pesquisador nos campos da recepção midiática e da folkcomunicação e as ressignificações do folclore e das culturas populares nos contextos da sociedade midiatizada.
Roberto Benjamin, foi meu professor na graduação no curso de jornalismo e na pós-graduação como orientador no mestrado e sempre participou da minha formação acadêmica. Mas, a partir daquela noite de 28 de maio de 1976 Luiz Antônio Barreto e Braulio Nascimento incorporaram, com muita honra, o time dos meus grandes mestres e com eles sempre estava aprendendo como fazer uma investigação de campo, ser ético, respeitar os mestres, as mestras e os brincantes dos grupos folclóricos, os verdadeiros detentores dos sabres populares. E assim foi por longas décadas de convivência, de amizade e respeito, muitas vezes com divergências de opiniões e definições de conceitos.
Este depoimento é para prestar a minha homenagem a Luiz Antônio Barreto, porém não podia deixar de citar esses dois importantes mestres e amigos, Roberto Benjamin e Braulio Nascimento que, quase sempre, estávamos juntos participando de congressos, simpósios, reuniões, projetos de pesquisas e de tantos outros eventos culturais em diferentes lugares. Mas foi nos encontros culturais da histórica cidade de Laranjeiras que nossa amizade consolidou-se e junto vieram tantos outros que gostaria de citar, até porque continuamos mantendo contato e resguardando o legado deixado por Luiz Antônio Barreto, assim como: Jackson da Silva Lima(SE), Algaé D’Ávila Fontes (SE), Beatriz Góis Dantas (SE), Lindolfo Amaral (SE ), Luiz Fernando Soutelo (SE), Jorge de Carvalho, Antônio Alves do Amaral (SE), Verônica Nunes (SE), José Maria Tenório (AL) Cáscia Frade (SP), Maria Thereza de Camargo (SP), Marlei Sigrist (MS), Toninho Macedo (SP), Severino Lucena (PE), José Fernando Sousa e Silva (PE), Affonso Furtado (RJ), Eleonora Gabriel (RJ), Raul Lody (RJ), Fernando Aguiar (SE), José Ronaldo de Menezes – o mestre Zé Rolinha (SE) e tantos outros que constituem uma rede de estudiosos e pesquisadores que deram significativas contribuições para os novos entendimentos do folclore e da cultura popular na atualidade.
Luiz Antônio Barreto, historiador, jornalista, folclorista e um importante aglutinador de pessoas com opiniões divergentes e com essa capacidade mediadora fez do Encontro Cultural de Laranjeiras um dos mais importantes e longevos eventos temáticos sobre o folclore e a cultura popular no Brasil. O encontro de Laranjeiras rompeu a barreira dos 40 anos ininterruptos, por lá passaram ilustres intelectuais brasileiros e estrangeiros que deixaram importantes contribuições na formação de várias gerações de estudiosos, de pesquisadores e principalmente de jovens, assim como eu que cheguei para participar do primeiro encontro cultural como aprendiz, continuo participando e aprendo cada vez mais.
O Encontro Cultural de Laranjeiras, possibilita o diálogo para uma melhor compreensão de novos entendimentos do folclore e da cultura popular, onde se ouvem opiniões diversas, narrativas de novas experiências, de importantes ideias e de fundamentações teóricas (palestras, seminários, etc.) e práticas (oficinas, minicursos e as trocas de saberes com os mestres populares). Luiz Antônio Barreto, foi o grande idealizador do Encontro Cultural de Laranjeiras e sempre teve o apoio dos seus pares sergipanos e de tantos outros estudiosos de diferentes regiões do Brasil, que acreditavam na sua proposta, no seu projeto de pesquisa, de registro, de divulgação e de apoio aos grupos folclóricos. Era impressionante o poder de articulação e de diálogo que Luiz Antônio tinha com autoridades públicas e com os empresários, não media esforços para conseguir apoio, os patrocínios necessários para a realização do encontro de Laranjeiras, é bom que se diga, sem fazer concessões dos seus objetivos e mesmo em tempo de crises políticas e financeiras o evento acontecia.
Ao longo dos anos o encontro foi ampliando o seu espaço para divulgar Laranjeiras como uma cidade detentora de importantes patrimônios culturais materiais e imateriais. Um dos principais objetivos do encontro é reunir estudiosos e pesquisadores da nossa cultura popular para conhecer de perto as manifestações dos grupos folclóricos, as igrejas, os casarões, o mercado, o trapiche e as ruas históricas de cidade. O encontro cultural contribuiu ainda mais para a projeção de Laranjeiras no cenário nacional e internacional. Assim como disse Luiz Antônio Barreto:
Quando a somação do Governo do Estado com a Prefeitura Municipal, apoiada pela então Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, Laranjeiras foi a destinatária de um conjunto de ações, em torno do I Encontro Cultural, como a restauração da velha Casa de Laranjeiras e instalação do Museu Afro Brasileiro de Sergipe, iniciando uma série de restauros que devolveu ao uso público monumentos sociais, como o Mercado da cidade, o Trapiche, a Casa da Câmara, bem como recuperou ruas de calçamento de pedra, enquanto pavimentou outras, tornando melhor o piso da cidade. Com o Encontro Cultural de Laranjeiras Sergipe foi grande beneficiado, porque foram gravados, pela primeira vez, os sons dos grupos folclóricos e editados discos, livros, cadernos de folclore, dando visibilidade a um variado elenco de grupos, cada um com sua característica (2000/Infonet/Recurso Eletrônico).
O Encontro Cultural de Laranjeiras não pertence só ao povo sergipano é um patrimônio de todos nós, é uma sala de aula aberta aos estudiosos, pesquisadores, aos mestres e brincantes das manifestações das culturas populares, como afirmou Braulio Nascimento:
Na verdade, não é possível falar no desenvolvimento dos estudos da cultura popular no Brasil sem passar por Laranjeiras. Muitas ideias aqui expostas e debatidas constituíram o núcleo de trabalhos de maior fôlego, que motivaram e estimularam debates em outros pontos do país, em outros contextos culturais. Muitos dos problemas, atualmente na ordem do dia das preocupações dos estudiosos de nossa cultura popular foram levantados em Laranjeiras e levados “pera longes terras”; como dizia Almeida Garrett. (Anais Encontro Cultural de Laranjeiras: 20 anos, p. 11-12).
No encontro de 1977 cerca de 200 grupos estiveram presentes durante a realização do evento e Laranjeiras passou a se chamar, simbolicamente a capital do folclore brasileiro no mês de janeiro. A professora e pesquisadora Aglaé Fontes, na apresentação da publicação comemorativa dos 20 anos do encontro afirma que:
Ao longo dos 20 anos O Encontro Cultural de Laranjeiras, vem se constituindo um foco de resistência cultural em defesa do folclore. Com as mais diversas formas de ver, pesquisadores e estudiosos da cultura popular, apresentam, a partir de temas, informações e aprofundamento de estudos, que fazem do simpósio um fórum aberto das discussões de ideias (Anais dos 20 anos do Encontro de Laranjeiras, p. 09).
A professora e pesquisadora Aglaé, ressalta a riqueza desse imaginário popular brasileiro e da importância que são os estudos para a cultura nacional. O Encontro Cultural foi crescendo, tomando dimensões que extrapolam o território da cidade histórica de Laranjeiras e do seu entorno, ultrapassando o território sergipano, passando a ser reconhecido por instituições culturais, estudiosos e pesquisadores nacionais e internacionais.
Aproximação de Luiz Antônio Barreto com a Folkcomunicação
Em 1976 realizamos na cidade de Pombal na Paraíba o I Encontro de Folclore e um dos conferencistas foi Luiz Beltrão, o criador da teoria da Folkcomunicação. Beltrão fez uma exposição sobre a Comunicação e Folclore, tema de sua tese de doutorado na Universidade de Brasília (UnB), publicada em livro pela Melhoramentos em 1971. O professor Braulio Nascimento que era também um dos convidados do encontro ficou muito entusiasmando com a exposição proferida pelo fundador da Folkcomunicação e o convida para o próximo encontro cultual de laranjeiras. Luiz Beltrão aceitou o convite do professor Braulio e de Luiz Antônio Barreto para participar do segundo Encontro Cultural de Laranjeiras, realizado em 1977. O tema central do encontro foi “Linguagem Popular” e a palestra proferida por Beltrão foi sobre “O Folclore como Discurso” e por ser, na época, uma abordagem inovadora sobre os estudos do folclore provocou um amplo debate entres os pesquisadores e estudiosos que participavam daquele encontro. Iniciava-se a aproximação de Luiz Beltrão com Luiz Antônio Barreto sobre os estudos da influência dos meios de comunicação de massa no folclore e nas culturas populares. Como consequência da aproximação, dos dois Luiz, os temas folkcomunicação, comunicação de massa, folclore e culturas populares estão presentes em quase todos os encontros culturais de Laranjeiras. Portanto, Luiz Antônio Barreto passa a ser um importante apoiador dos estudos da Folkcomunicação convidando estudiosos e pesquisadores como expositores e debatedores nesses 50 anos do encontro em Laranjeiras e aqui cito alguns como José Marques de Melo, Roberto Benjamin, Severino Lucena, Altimar Pimental, Marlei Sigrist, Luiz Beltrão e tantos outros que por aqui passaram e deixaram suas contribuições no campo do folclore e da comunicação e suas ressignificações nos diferentes contextos da sociedade cada vez mais midiatizada.
Nos anos 80 do século passado estava em discussão, nos meios acadêmicos e na intelectualidade brasileira quais seriam as consequências dos avanços das novas tecnologias da comunicação e em especial da televisão, para o folclore e para as culturas populares. Era a indústria cultural que estava chegando com valores culturais alienantes nas mais distantes localidades do Brasil e que seria um “perigo” para sobrevivência das culturas tradicionais do local. Na sua exposição no encontro de 1977 Luiz Beltrão chamava atenção para a riqueza de diversidades de comunicação existente nas manifestações folclóricas e das culturas populares, quando assim dizia:
O discurso folclórico, em toda a sua complexidade, não abrange apenas a palavra, mas também meios comportamentais e expressões não-verbais e até mitos e ritos que, vindos de um passado longínquo, assumem significados novos e atuais, graças à dinâmica da folkcomunicação. (Anais dos 20 anos do Encontro de Laranjeiras, p. 43).
Luiz Beltrão, desta forma iniciava, no encontro de Laranjeiras, um novo debate sobre as incertezas e o “medo” do improvável desaparecimento do folclore e das culturas populares com os avanços dos meios de comunicação de massa. No XXI encontro Cultural o tema foi “Globalização da Cultura, Folclore e Identidade Regional - 1996. O tema desse encontro traz mais uma vez o debate sobre as preocupações com a influência das novas tecnologias da comunicação nas culturas locais. E um dos participantes foi o renomado professor e pesquisador José Marques de Melo, Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM e fundador da Rede de Estudos e Pesquisas da Folkcomunicação – REDE FOLKCOM. Marques, foi um dos principais discípulos de Luiz Beltrão e faz a palestra de abertura do encontro abordando a Cultura Global: a questão da identidade e as celebrações do Natal no Brasil no contexto da sociedade de consumo e a influência massiva das mídias. José Marques, na sua fala, chama atenção para a contribuição de Luiz Antônio Barreto nos estudos e pesquisas no campo da folkcomunicação, quando diz:
Inspirados, aliás, nessa “dinâmica do folclore”, (referindo-se ao livro A dinâmica do folclore de Édison Carneiro, 1965), dois pesquisadores nordestinos trouxeram contribuições significativas para um “novo entendimento do folclore” (referindo-se ao livro de Barreto, 1994). O pernambucano Luiz Beltrão construiu a sua teoria da folkcomunicação, evidenciando a “mediação” dos agentes da cultura popular na “decodificação” dos modos de pensar, sentir, e agir que a mídia massiva dissemina cotidianamente. Por sua vez, o sergipano Luiz Antônio Barreto vem de esboçar uma tipologia para a identificação dos fatos folclóricos, tendo a “comunidade” como locus e a “comunicação” como suporte validador (Anais do XXI Encontro de Laranjeiras, 1996, p. 29-30).
A pesquisa coordenada por José Marques, sobre o Natal brasileiro é um estudo comparativo dos festejos natalinos nas casas, ruas, praças, igrejas e seus deslocamentos para centros comerciais e grandes shoppings. Melhor dizendo, os festejos natalinos tradicionais e os ofertados nos negócios de compras e vendas para atender as demandas da sociedade de consumo atual. Nessa perspectiva Marques, ressalta mais uma vez a importância dos estudos de Luiz Antônio Barreto sobre fatos inovadores e atuais “inusitados” inseridos simultaneamente nas tradições do folclore e das culturas populares. Sobre a pesquisa do Natal José Marques diz.
Trata-se de captar “fatos folclóricos” a partir daquela característica que Luiz Antônio Barreto denomina expressividade, desencadeadora dos outros requisitos que lhe são essenciais: genuinidade, dinamicidade e coletividade. “A comunidade é para a sociedade o que o instante é para o tempo: uma extremidade (...) Cada comunidade produz sua própria cultura e com ela contacta, interagindo com outras comunidades, mais e mais, formato universal pelas suas referências e símbolos” (Anais do Encontro de Laranjeiras, 1996, p. 30).
No desenvolvimento da pesquisa foram analisados as tradições e inovações, os símbolos natalinos tradicionais e contemporâneos, a natureza da festa, espaço e tempo, público e privado, o que desta forma possibilitou fazer uma análise comparativa das festas natalinas nas diferentes regiões do Brasil na passagem do século XX para o XXI e as circularidades cada vez mais velozes dos fluxos comunicacionais dos processos de globalização das culturas e as ressignificações das culturas tradicionais.
Luiz Antônio Barreto, publicou vários textos sobre os novos processos de ressignificação, de atualização das manifestações folclóricas e das culturas populares no contexto atual, mas cito dois livros que são referências importantes para quem estuda e pesquisa a folkcomunicação, o primeiro “Um novo entendimento do folclore: e outras abordagens culturais (1994)” e o segundo “Folclore: invenção e comunicação (2005)”. Luiz Antônio Barreto fez a conferência de abertura no Seminário Festejos Juninos no Contexto da Folkcomunicação e da Cultura Popular em Campina Grande 1988 cujo tema foi: Folclore, Midia e Turismo. Na sua exposição Barreto, ao abordar algumas questões para uma melhor compreensão do novo entendimento do folclore afirma:
Folclore e Mídia são o poço e a caçamba, no sentido da relação entranhada dos dois. O poço pode permanecer, tempo afora, minguando-se lentamente, em vapores, ou pode fornecer, balde por balde, a água de beber e de gastar, no dizer antigo dos nordestinos sem água, amadrastados pela natureza, como diria José Américo de Almeida. A comunicação, em suas múltiplas formas, fez circular e recircular os repertórios populares, como suporte oral, escrito, gestual, mímico, pantomímico, levando-os e servindo-os, como partilha justa da renda cultural (2005, p.106).
Luiz Antônio participou também da Conferência Brasileira de Folkcomunicação - III Folkcom realizada pela UFPB e Rede Folkcom em João Pessoa, em junho de 2001, e na sua palestra de abertura sobre O Jeitinho Brasileiro de Comunicar, aborda outras formas de processos de comunicação próprios das classes brasileiras marginalizadas socioculturalmente, processos da não acomodação, processo de comunicação de resistência e interpelação dos modos dominantes e muitas vezes visíveis, outras vezes dissimulados e camuflados. Assim como diz Barreto na sua palestra.
O povo brasileiro ajeitou o seu poder de comunicação, conciliando a tradição dos repertórios transplantados, transformando-os em mensagens permanentes, invariantes, com as quais tem vivido. Antes era a fantasia de reinos e cortes, fidalgos e vassalos, como uma lúdica a aplacar o fadário da ocupação e da colonização da terra. A diversidade dos repertórios fez do brasileiro um ser do mundo, de cada palavra um abre-te Cézamo, de cada verso ou cantiga, dito ou romance, uma senha de entrada ou de regresso ao mundo velho da história humana. E fez mais, celebrizou personagens insurgentes como Antônio Conselheiro, Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião, do mesmo modo como sonhou outra utopia, a da fartura, saciando a fome, fazendo da terra alheia uma Cocanha, com seus rios de leite e de coalhada (2005, p. 77).
Por tudo isso, posso afirmar que a contribuição direta e indireta de Luiz Antônio Barreto aos estudos e às pesquisas no campo da folkcomunicação foi e continua sendo referência importante. As suas experiências e os anos de convivência com grandes estudiosos e pesquisadores da folkcomunicação, como o próprio Luiz Beltrão, fundador da teoria da folkcomunicação, como José Marques de Melo, Roberto Benjamin, Severino Lucena, Altimar Pimentel e posso, modestamente, incluir o meu nome nesta lista, credenciou Luiz Antônio como importante referência no processo de atualização da folkcomunicação no contexto da sociedade midiatizada.
Finalizando
Em janeiro de 2012 participei XXXVII Encontro de Laranjeiras com o tema Patrimônio cultural: consciência da preservação. E, como não poderia deixar de ser, estive com Luiz Antônio Barreto em Aracajú, no Instituto Tobias Barreto de Educação e Cultura-ITBEC, instalado no prédio da Biblioteca Central da Universidade Tiradentes, quando estava totalmente dedicado às atividades do ITBEC, cheio de ideias para novos projetos de curto e médio prazos, mas não sentia aquele entusiasmo quando falávamos do Encontro Cultural de Laranjeiras e das atuais políticas públicas de apoio os grupos folclóricas e às culturas populares tradicionais. Na sua opinião os grupos folclóricos que tradicionalmente participam do encontro cultural já não são os protagonistas da festa, são atualmente coadjuvantes e estão em segundo plano. Foi um dia de boas conversas, de recordação dos encontros que participámos, a saudade de alguns amigos que não estavam mais aqui com a gente, isso tudo durante as quase três horas andado pelas instalações do ITBEC. Fomos almoçar e continuamos conversando e já no final da tarde deixou-me no hotel e nos despedimos com um até breve e jamais poderia imaginar que seria o nosso encontro final. Foi assim a nossa amizade que durou de 1976 até o dia 17 de abril de 2012 quando recebi a notícia do seu falecimento por telefone da nossa amiga Aglaé Fontes. E assim, Luiz Antônio Barreto deixa o seu legado, não só nas importantes publicações em livros, nos anais dos encontros de Laranjeiras, nos colóquios de Tobias Barreto, nos seminários de Estudos Medievais, em incontáveis artigos publicados, como secretário de educação e de cultura, mas também como incentivador e apoiador de diferentes eventos culturais, organizados por ele. E por último, deixo aqui a seguinte mensagem de Luiz Antônio Barreto sobre o Encontro Cultural como uma demonstração de respeito e admiração que tinha pela histórica cidade de Laranjeiras e do simpósio cultural.
O Encontro Cultural de Laranjeiras é um campus avançado de cultura que está ensinando a pensar o povo e sua existência no tempo histórico e no espaço da região com suas tipicidades que, em muitos pontos, converge inteira para espelhar o Brasil. Talvez falte apenas um detalhe: é a consciência da importância do Simpósio para Sergipe e para a comunidade intelectual brasileira (citação do texto: Laranjeiras, a Revisão Religiosa, publicado na edição comemorativa dos 20 anos do Encontro Cultural de Laranjeiras, p. 356).
Referências
Anais do Encontro Cultural de Laranjeiras 20 anos. Aracajú: Governo do Estado de Sergipe/Secretaria Especial de Cultura/Fundação Cultural, 1994.
Anais do XXI Encontro Cultural de Laranjeiras. Laranjeiras 04 a 07 de janeiro de 1977. Globalização da Cultura, Folclore e Identidade Regional. Aracajú, Secretaria de Estado da Cultura, 1997.
BARRETO, Luiz Antônio. Folclore: invenção e comunicação. Aracaju: Typografia Editorial/Scortecci Editora, 2005.
BARRETO, Luiz Antônio. Um novo entendimento do folclore: e outras abordagens culturais. Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe, 1994.
Osvaldo Trigueiro é Prof. Associado aposentado da Universidade Federal da Paraíba-UFPB. Membro da Comissão Nacional de Folclore-CNF. Presidente de Honra da Comissão Paraibana de Folclore-CPF Sócio Fundador da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação - Rede Folkcom





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