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“A Folkcomunicação olha o processo a partir da própria sociedade”: Maria Cristina Gobbi relê o legado de Beltrão

11 de ago.
6 min de leitura

Na aula magna de inauguração da Cátedra Luiz Beltrão de Comunicação da Unicap, pesquisadora articulou biografia, prática jornalística e agenda científica para mostrar por que o pensamento do pernambucano permanece atual.



Uma cátedra dedicada a Luiz Beltrão não deveria apenas preservar documentos ou repetir conceitos. Precisaria transformar memória em novas perguntas. Foi esse o movimento proposto por Maria Cristina Gobbi na conferência “Luiz Beltrão: vida, legado e perspectivas”, realizada em 3 de maio de 2021, na inauguração da Cátedra Luiz Beltrão de Comunicação da Unicap.

Especialista na obra de Beltrão e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Gobbi organizou a exposição em três movimentos: vida, legado e perspectivas. A estrutura impediu que a homenagem se convertesse em simples celebração, pois cada passagem biográfica foi usada para compreender um modo de fazer ciência.

A cerimônia ocorreu no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, em plena pandemia de covid-19. Gobbi iniciou a fala lembrando que uma imprensa livre, ética e independente se tornava ainda mais necessária diante da crise sanitária. Estudar Beltrão, naquela noite, também significava discutir o direito à informação e a responsabilidade social da pesquisa.

Uma vida entre a redação, a sala de aula e a pesquisa

Ao reconstruir a trajetória de Luiz Beltrão, Gobbi evitou separar o jornalista do teórico. Nascido em Olinda, em 1918, ele passou pelo seminário, formou-se em Direito e construiu uma carreira que atravessou redações, rádio, revistas, entidades profissionais e instituições de ensino.

Essa circulação explica a natureza de sua produção intelectual. Livros e conceitos não nasceram do isolamento acadêmico, mas do contato com notícias, leitores, manifestações culturais e estudantes. As viagens ampliaram o repertório; a experiência jornalística ofereceu problemas que depois seriam sistematizados teoricamente.

O mesmo impulso aparece na defesa da formação universitária para jornalistas, ainda recebida com resistência por parte da categoria. Em 1961, Beltrão participou da criação do curso de Jornalismo da Unicap. Dois anos depois, fundou o Instituto de Ciências da Informação, o Icinform. Em 1965, lançou Comunicações & Problemas, reconhecida como a primeira revista científica brasileira dedicada à área. Esse percurso de pioneirismo institucional é destacado pela própria Universidade Católica de Pernambuco.

Para Gobbi, porém, o aspecto decisivo não está apenas na precedência histórica dessas realizações. Está na articulação entre teoria e prática. A realidade deve ser o objeto da análise; os conceitos são ferramentas para desvendá-la, não um fim em si mesmos. O cotidiano não aparece como ilustração de uma teoria pronta, mas como ponto de partida.

Essa atenção também permitiu a Beltrão reconhecer que o leitor não é passivo. Quando um tema afeta seus interesses, pessoas e grupos procuram redações, emissoras e, atualmente, redes sociais para se manifestar. A aproximação não o transforma em profeta da internet: mostra que sua atenção às mediações ajuda a estudar mudanças tecnológicas sem apagar processos anteriores. A trilogia Imprensa informativa, Jornalismo interpretativo e Jornalismo opinativo integra esse esforço de dar estatuto científico ao Jornalismo e interpretar uma prática profissional observada por dentro.

Folkcomunicação é processo, não ornamento cultural

A conferência encontrou seu núcleo conceitual ao tratar da Folkcomunicação. Gobbi recordou que o artigo “O ex-voto como veículo jornalístico”, publicado em Comunicações & Problemas, antecipou uma inquietação que seria desenvolvida na tese de 1967. Beltrão percebeu que grupos situados à margem dos circuitos midiáticos hegemônicos criavam meios próprios para narrar acontecimentos, expressar ideias, agradecer, reivindicar e compartilhar experiências.

Na explicação oferecida durante o debate, a pesquisadora recorreu ao frevo e ao carnaval. O objeto da Folkcomunicação não é a festa tomada isoladamente, nem a manifestação popular transformada em peça decorativa. Interessa perguntar que mensagens circulam nas fantasias, nos símbolos, na música, nas formas de organização e na participação coletiva. Em sua síntese: “A Folkcomunicação vai olhar o processo a partir da própria sociedade”.

Essa definição desloca a análise do inventário de objetos para as relações entre sujeitos, linguagens, meios e contextos. Uma manifestação não se torna folkcomunicacional apenas por ser antiga, artesanal ou popular. É preciso compreender quem comunica, por quais canais, com que códigos, para quais públicos e em meio a quais disputas. Da mesma maneira, a resistência não deve ser presumida como atributo automático de tudo o que nasce nas culturas populares; ela precisa ser examinada nas condições concretas em que os sentidos são produzidos, apropriados ou confrontados.

Gobbi relacionou essa perspectiva à concepção dialética de folclore de Edison Carneiro, na qual práticas populares podem carregar reivindicação e resistência. Sua ênfase no processo, porém, impede a cristalização da cultura. Ex-voto, cordel, carnaval ou produção digital tornam-se legíveis quando observados em circulação, inclusive nas tensões com a mídia de massa. A preocupação também aparece em pesquisas da autora sobre a web como espaço legitimado da Folkcomunicação.

Um legado que ainda contém lacunas

Na parte dedicada às perspectivas, Gobbi rejeitou a ideia de uma obra encerrada. Reuniu perguntas sugeridas por José Marques de Melo e indicou frentes pouco exploradas: as relações entre a prática jornalística e os métodos de pesquisa, os diálogos com intelectuais como Câmara Cascudo, Dom Helder Câmara e Paulo Freire, a posição de Beltrão diante dos confrontos teóricos posteriores a 1964 e seu papel no pensamento comunicacional latino-americano.

Há ainda territórios menos conhecidos: sua produção literária, as contribuições às Relações Públicas, as inovações pedagógicas e as relações entre Folkcomunicação, folkmídia e outras vertentes. Em lugar de uma estátua intelectual, surge um arquivo aberto, atravessado por lacunas e disputas de interpretação.

A Cátedra recebe, assim, dupla responsabilidade: preservar e tornar acessível a produção de Beltrão, mas também estimular pesquisas que a questionem. Gobbi associou essa tarefa à Rede Folkcom, à Revista Internacional de Folkcomunicação e ao Prêmio Luiz Beltrão. Ela própria recebeu o prêmio na categoria Maturidade Acadêmica em 2014, conforme o registro da Intercom.

Extensão começa pela escuta

Foi no diálogo com o público que Gobbi traduziu esse legado em orientação prática para a universidade. Questionada sobre a curricularização da extensão e a atuação da Cátedra em comunidades socialmente vulnerabilizadas, ela defendeu a retomada da presença universitária para além dos próprios muros. Mas fez uma ressalva essencial: não basta levar à população produtos concebidos antecipadamente pela academia.

O caminho inspirado em Beltrão seria retornar à comunidade, conhecer suas demandas e observar os instrumentos que os grupos já utilizam. O ex-voto foi novamente mobilizado como exemplo: além de agradecer por uma graça, narra um acontecimento, registra dificuldades e torna pública uma experiência.

“Temos muita arrogância de achar que sabemos do que todo mundo precisa”, advertiu Gobbi. A frase reposiciona a extensão como exercício de escuta e construção conjunta. O conhecimento técnico da universidade continua importante, inclusive porque pode contribuir para formular políticas públicas, enfrentar urgências e ampliar direitos. A diferença está em não definir unilateralmente o problema nem tratar a comunidade como destinatária passiva de uma solução pronta.

Se a realidade deve orientar a pesquisa, a demanda social também deve orientar a extensão. O encontro entre saber acadêmico e experiência popular exige tradução, reciprocidade e atenção às assimetrias de poder do próprio ato de pesquisar.

Teoria brasileira também precisa estar no currículo

Uma última questão levou Gobbi a discutir a ausência de autores brasileiros nas disciplinas de Teorias da Comunicação. Perguntada se Beltrão teria sofrido preconceito por formular uma teoria brasileira e nordestina, ela recordou pesquisas que encontraram pouca presença de pensadores nacionais nas bibliografias dos cursos. Para a pesquisadora, o campo ainda precisa fortalecer sua autoestima teórica.

O argumento não propõe fechar o currículo à produção estrangeira. Critica a hierarquia na qual autores de fora fornecem teorias universais e pesquisadores brasileiros aparecem apenas como fontes de casos locais. Reconhecer Beltrão é admitir que os fenômenos observados no país também produzem conceitos, métodos e perguntas.

Gobbi descreveu essa mudança como um “trabalho de formiguinha”, iniciado por pesquisadores como José Marques de Melo e Roberto Benjamin e continuado por sucessivas gerações. Ela própria integrou esse percurso ao organizar estudos, republicar textos e contribuir para tornar acessível uma obra que, sem o apoio da família de Beltrão e de pesquisadores dedicados à sua memória, permaneceria parcialmente desconhecida.

Ao final, os três termos do título da conferência deixaram de ser blocos separados. A vida explicou a formação de um método atento ao cotidiano; o legado apareceu na relação entre prática jornalística, ensino e pesquisa; as perspectivas assumiram a forma de perguntas abertas, currículos a rever e comunidades a escutar. Na leitura de Maria Cristina Gobbi, Beltrão permanece atual não porque ofereça respostas prontas, mas porque ensinou a começar pela realidade e pelas pessoas que nela produzem comunicação.

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