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“A festa é algo essencial para a própria existência humana”: Bruna Castelo Branco compara os São Joões de Fortaleza e Braga

24 de ago.
8 min de leitura

No sexto encontro do I Ciclo de Diálogos sobre Folkcomunicação e seus Campos de Pesquisa, pesquisadora analisou como mídia, políticas culturais, religiosidade e transformações urbanas reorganizam as festas juninas no Brasil e em Portugal.



Quando maio termina e junho se aproxima, Fortaleza começa a mudar. Padarias, lojas e centros comerciais recebem bandeirolas. As comidas de milho voltam a ocupar as vitrines. Quadrilhas intensificam os ensaios. Emissoras alteram cenários, vinhetas e modos de falar.


Para Bruna Franco Castelo Branco Carvalho, a cidade “começa a respirar diferente”.

Foi a partir dessa transformação do cotidiano que a pesquisadora apresentou um recorte de seus estudos sobre os circuitos juninos de Fortaleza e de Braga, em Portugal, durante o sexto encontro do I Ciclo de Diálogos sobre Folkcomunicação e seus Campos de Pesquisa.


Promovida de forma on-line pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a atividade integrou o ciclo coordenado pelo professor Itamar de Morais Nobre, do Departamento de Comunicação Social, com a colaboração da pesquisadora Ermaela Cícera Silva Freire.


Jornalista, socióloga e doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Bruna desenvolve pesquisas sobre televisão regional, cultura popular e folkcomunicação. A aula retomou resultados da tese Viva São João! Um paralelo luso-brasileiro dos circuitos juninos (Braga × Fortaleza) e seus processos folkmidiáticos audiovisuais, defendida em 2024 sob orientação da professora Maria Érica de Oliveira Lima e coorientação de Alberto Pena Rodríguez.


O estudo compara os modos de organização das duas festas, seus elementos culturais e a atuação dos meios audiovisuais. Mais do que identificar semelhanças e diferenças, Bruna procurou compreender como cada cidade seleciona, preserva e reinventa aquilo que reconhece como tradição.


Um tempo fora do tempo

Antes de apresentar os dois circuitos juninos, Bruna propôs uma reflexão sobre a própria ideia de festa. Frequentemente tratada como uma pauta secundária diante de áreas consideradas mais urgentes pela administração pública, a cultura é parte constitutiva da vida coletiva. “A gente precisa pensar na festa não como algo banal, como algo secundarizado, mas como algo essencial para a própria existência humana”, afirmou.


Toda festa possui uma motivação. Pode celebrar uma data religiosa, uma colheita, uma vitória, uma memória ou uma experiência comunitária. Mesmo quando inventada ou recriada, ela necessita de um sentido capaz de reunir as pessoas.


A festa também instaura uma temporalidade particular. Bruna retomou autores que a descrevem como um “tempo fora do tempo”: um intervalo que interrompe as rotinas, modifica os espaços e permite que os papéis sociais assumam outras configurações. Ela pertence ao calendário cotidiano, mas produz uma experiência extraordinária dentro dele.


Esse tempo festivo pode diminuir distâncias, fortalecer vínculos comunitários e permitir que emoções, conflitos, lembranças e identidades sejam compartilhados publicamente. Também transforma a paisagem da cidade e registra a passagem das gerações.


Por isso, estudar uma festa exige perguntar por que ela continua existindo, quais elementos foram modificados e quais grupos participam dessas transformações. Longe de ser um fenômeno estático, a tradição é constantemente negociada.


Uma cidade de muitos São Joões

Ao olhar para Fortaleza, Bruna sugeriu que talvez fosse mais adequado falar em “São Joões”, no plural. A capital cearense reúne celebrações religiosas, quadrilhas organizadas nos bairros, competições profissionais, festas privadas, eventos em centros comerciais e grandes programações promovidas pelo poder público e pelos meios de comunicação.


Parte dessa diversidade está relacionada à formação da própria cidade. Os processos de migração levaram famílias do interior e de áreas rurais do Ceará para Fortaleza. Com elas vieram modos de vida, hábitos alimentares, religiosidades, músicas e formas comunitárias de celebração.


O forró, as comidas de milho, as fogueiras e as quadrilhas mantêm na metrópole referências a uma ruralidade que não desapareceu com a urbanização. Essas práticas foram incorporadas a novos espaços e passaram a conviver com a profissionalização dos grupos, os editais públicos, o turismo e o interesse dos patrocinadores.


Em Fortaleza, as políticas culturais voltadas às festas populares ganharam maior força a partir dos anos 2000. Eventos antes organizados principalmente de maneira espontânea por bairros e comunidades passaram a receber financiamento, estrutura, divulgação e reconhecimento público.


A mudança ampliou a visibilidade das manifestações, mas também alterou suas dimensões. Quadrilhas que se apresentavam nas ruas passaram a disputar campeonatos em arenas montadas em praias, praças, estacionamentos e centros comerciais. Figurinos, cenografias, coreografias e enredos tornaram-se mais elaborados. A festa comunitária passou a conviver com o espetáculo profissional.


Um dos casos analisados por Bruna foi o Arraiá do Ceará, realizado pela Federação das Quadrilhas Juninas do Ceará (Fequajuce) e promovido pela TV Verdes Mares. A quadrilha vencedora representa o estado na competição regional organizada pela Globo Nordeste.


A presença de uma emissora na promoção do evento evidencia o processo folkmidiático. O meio de comunicação percebe uma manifestação cultural existente na cidade, reorganiza sua apresentação e a transmite por suas próprias lentes. Ao mesmo tempo, a cultura popular ganha visibilidade, recursos e novos públicos.


Entre a associação comunitária e a emissora de televisão

Para construir a comparação, Bruna organizou a pesquisa em três eixos: as formas de organização, os elementos culturais e os processos folkcomunicacionais.


Em Fortaleza, o recorte concentrou-se no Arraiá do Ceará e em sua relação com a TV Verdes Mares. Em edições anteriores, o evento chegou a ocupar a Praia de Iracema, com grandes palcos, shows de artistas conhecidos, arena para as quadrilhas e uma ampla estrutura urbana. Depois da interrupção provocada pela pandemia, retornou em 2023 em formato reduzido, instalado no estacionamento de um centro comercial de bairro periférico.


No caso de Braga, a organização não está concentrada em uma emissora. A Associação de Festas de São João de Braga mobiliza diferentes espaços da cidade, entre praças, avenidas, coretos e igrejas. No período estudado, a programação se estendeu por cerca de dez dias e reuniu cortejos, novenas, apresentações musicais, artesanato, manifestações populares e atividades destinadas ao público jovem.


A celebração portuguesa também preserva uma dimensão religiosa mais explícita. Braga, conhecida pela forte presença histórica da Igreja Católica, mantém quadros bíblicos, procissões e devoções diretamente relacionadas a São João Batista.


Em Fortaleza, embora o nome do santo permaneça identificando a festa, Bruna encontrou uma presença religiosa menos visível fora das paróquias. No espaço público e nos grandes eventos, predominam as dimensões lúdica, cultural, musical e espetacular.


“Eu sinto uma festa pouco religiosa para o nome que ela leva”, observou. Para encontrar celebrações diretamente dedicadas ao santo, foi necessário acompanhar a programação de uma paróquia de São João Batista.


A comparação mostrou, portanto, diferentes equilíbrios entre religiosidade, entretenimento, participação comunitária e atuação midiática. Em Braga, uma associação local organiza uma festa distribuída pelos espaços históricos da cidade. Em Fortaleza, uma emissora de televisão ocupa posição central na realização e na visibilidade de um circuito competitivo de quadrilhas.


Há, contudo, semelhanças curiosas. Braga disputa com o Porto o reconhecimento de maior ou melhor São João de Portugal, rivalidade que encontra paralelo, no Nordeste brasileiro, nas provocações entre Campina Grande e Caruaru.


Quando a mídia veste o chapéu de palha

A atuação da TV Verdes Mares não se limita à transmissão das apresentações. A cobertura começa antes do evento, acompanha as competições e continua depois da escolha da quadrilha vencedora.


Notícias, reportagens, programas de entretenimento, rádio, portais e redes sociais integram uma estratégia crossmidiática. Durante o mês junino, cenários e identidades visuais são modificados. Apresentadores adotam uma linguagem mais regionalizada e a própria sereia que simboliza a emissora aparece usando chapéu de palha.


Esses elementos ajudam a construir um reconhecimento entre o público, a mídia e as tradições locais. A festa atravessa a programação e modifica temporariamente a imagem institucional da empresa.


Em Braga, a pesquisadora analisou a cobertura da Braga TV, emissora on-line que utiliza portal, YouTube e redes sociais para divulgar a programação. A comunicação começa com maior antecedência e acompanha os diferentes acontecimentos espalhados pela cidade. No entanto, Bruna não identificou uma transformação tão acentuada da identidade visual ou da linguagem da emissora em função da festa.


A diferença permitiu discutir a folkmídia não apenas como cobertura da cultura popular, mas como uma troca de apropriações. Os meios selecionam símbolos, músicas, roupas e modos de falar. A manifestação cultural, por sua vez, utiliza a infraestrutura midiática para alcançar outros públicos, fortalecer grupos e ampliar sua presença na cidade.


Para Bruna, trata-se de “uma permuta” entre os meios de comunicação e a dimensão simbólica da cultura. Essa circulação pode envolver televisão, rádio, jornal impresso, portais, redes sociais, podcasts e até meios populares como o próprio folheto de cordel.

“Não é um processo simples. É um processo complexo que envolve uma cadeia enorme de pessoas, cenários, meios de comunicação, grupos culturais e a própria população”, explicou.


A festa que não morreu durante a pandemia

A pandemia de covid-19 atravessou toda a pesquisa de doutorado. Bruna iniciou o estudo em 2020, justamente quando os encontros públicos foram suspensos. Como investigar duas grandes festas quando não era permitido reunir pessoas? “Eu passei a maior parte do doutorado preocupada: vai ter festa, não vai ter festa, meu objeto morreu, o que eu vou fazer?”, recordou.


A festa, porém, não desapareceu. Bandas, quadrilhas, paróquias e emissoras passaram a utilizar transmissões ao vivo e redes sociais para manter parte da programação. A TV Verdes Mares produziu conteúdos juninos adaptados ao isolamento, com artistas separados, uso de máscaras e uma identidade visual que convidava o público a participar de casa.


Em Braga, as plataformas digitais também permitiram que celebrações e conteúdos relacionados ao São João circulassem durante as restrições sanitárias. A ausência do encontro presencial transformou a forma da festa, mas não eliminou inteiramente seu sentido. “Os meios de comunicação foram o que deu para manter a chama acesa do próprio São João”, sintetizou Bruna.


A experiência tornou a tese também um registro histórico de como os circuitos juninos responderam à pandemia. Se a festa depende da reunião comunitária, aquele período demonstrou que a comunicação pode sustentar memórias, símbolos e expectativas até que o encontro volte a ser possível.


Ao mesmo tempo, o deslocamento para as plataformas abre novas perguntas. O que permanece da festa quando os corpos não dividem o mesmo espaço? Como o público participa? Quais elementos são preservados e quais são reorganizados para a transmissão? Para Bruna, investigar o futuro tecnológico das manifestações sem perder de vista seus sentidos simbólicos constitui um caminho importante para novas pesquisas.


Quem pode narrar a festa?

O debate após a apresentação ampliou as questões da aula. José Primitivo relatou uma pesquisa sobre uma festa de padroeiro marcada pela disputa entre a tentativa de controle da Igreja e manifestações populares envolvendo grupos de bacamarteiros. A partir do exemplo, perguntou se Bruna havia encontrado conflitos semelhantes em Fortaleza e Braga.


A pesquisadora recuperou o processo histórico pelo qual antigas celebrações agrícolas e sazonais foram incorporadas ao calendário católico. Segundo ela, as festas continuam sendo apropriadas, questionadas e reinventadas por diferentes grupos.


A discussão também abordou a crescente atuação do mercado. Alberto Perdigão observou que as festas juninas possuem uma base territorial, comunitária e rural, mas muitas vezes são apropriadas mais intensamente pela indústria cultural do que pelos trabalhadores que lhes deram origem.


Temas como concentração da terra e da água, agricultura familiar, comunidades quilombolas e indígenas e movimentos de atingidos por barragens ainda aparecem pouco nos enredos das quadrilhas, avaliou. “Essas festas falam muito da gente. Falam das nossas ancestralidades e das nossas transformações”, afirmou.


Bruna concordou que algumas dessas questões ainda carecem de maior atenção. Por outro lado, percebeu avanços na incorporação da diversidade às quadrilhas, com a presença de pessoas trans, casais homossexuais e novos modos de representar relações afetivas.


A profissionalização dos grupos e o amadurecimento dos enredos podem abrir espaço para abordagens mais críticas. Para a pesquisadora, pautas ligadas à desigualdade, à reforma agrária, à seca e aos conflitos do mundo rural poderão aparecer com maior intensidade nas próximas produções.


Ermaela Cícera Silva Freire chamou a atenção para a coexistência entre os megaeventos e as pequenas quadrilhas organizadas por ruas e bairros. Mesmo diante da espetacularização e da midiatização, as formas comunitárias não deixam necessariamente de existir. Elas permanecem lado a lado com os grandes circuitos.


Tradições em movimento

A aula mostrou que não existe uma única maneira de celebrar o São João. Fortaleza e Braga compartilham referências históricas, mas organizaram circuitos diferentes. Em cada cidade, a festa responde às relações entre comunidade, religião, políticas públicas, turismo, mercado e meios de comunicação.


A tradição não aparece como uma herança intocada. Ela é selecionada, transmitida, disputada e recriada. Pode sair de uma praça e entrar em um shopping, passar do encontro presencial para uma transmissão ao vivo ou incorporar ao enredo de uma quadrilha debates que antes não encontravam espaço.


Nesse movimento, a folkcomunicação permite observar quem produz a festa, quais agentes ajudam a fazê-la circular e como os meios se apropriam de seus símbolos. Permite também perguntar quem permanece fora do enquadramento e quais experiências populares ainda precisam ser ouvidas.


Quando junho chega, portanto, não são apenas as bandeirolas e os cenários que mudam. A cidade realmente começa a respirar de outra maneira. E, ao transformar o ritmo, a paisagem e as relações entre as pessoas, a festa revela por que continua sendo essencial à vida coletiva.

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