“A feira livre sempre foi uma mídia popular”: Ermaela Cícera discute comunicação e midiatização no Nordeste
Pesquisadora da UFRN mostrou como pregões, gestos, cores, cheiros, cartazes e relações de confiança fazem da feira um sistema folkcomunicacional, agora também atravessado pelas plataformas digitais.
Antes de se transformar em objeto científico, a feira livre já fazia parte da história familiar de Ermaela Cícera Silva Freire. Sua mãe foi feirante. A avó e o avô também mantinham relações com esse universo. O avô paterno, segundo ela, aprendeu a ler por meio dos folhetos de cordel encontrados na feira. Foi a partir dessas memórias, posteriormente articuladas às teorias da Comunicação, que a pesquisadora construiu o percurso desenvolvido no mestrado e aprofundado no doutorado.
“Por que você vai pesquisar uma feira livre? Porque a feira é comunicação”, afirmou Ermaela durante a aula “Midiatização das feiras livres nordestinas”. A atividade integrou o I Ciclo de Diálogos sobre Folkcomunicação e seus Campos de Pesquisa, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Realizado de forma on-line, o ciclo é coordenado pelo professor Itamar de Morais Nobre, do Departamento de Comunicação Social da UFRN, com a colaboração da própria Ermaela. A iniciativa busca aproximar estudantes do campo da folkcomunicação, estimular a formação de novos pesquisadores e divulgar estudos em andamento ou já concluídos.
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia da UFRN, Ermaela apresentou as feiras livres como espaços capazes de produzir e fazer circular informações, afetos, identidades e formas populares de conhecimento. Para a pesquisadora, aquilo que muitas vezes parece apenas uma atividade cotidiana revela, quando observado cientificamente, “um espaço cheio de camadas”.
Muito além da troca comercial
As feiras acompanham a formação das cidades há séculos. Elas surgiram como lugares de comercialização e abastecimento, mas também como territórios de convivência, trabalho, amizade e circulação de notícias.
No Brasil, explicou Ermaela, sua formação está relacionada a matrizes africanas, ibéricas e indígenas. A pesquisadora chamou a atenção especialmente para as práticas de comércio e intercâmbio entre povos indígenas anteriores à colonização, uma contribuição frequentemente apagada pelas narrativas históricas convencionais.
No Nordeste, as feiras se consolidaram em cidades situadas entre diferentes regiões produtivas e rotas de circulação. Campina Grande, na Paraíba, e Caruaru, em Pernambuco, objetos das pesquisas de Ermaela, estão entre os exemplos mais conhecidos.
A permanência desses espaços não significa que tenham atravessado o tempo sem mudanças. Ao contrário: as feiras resistem porque se transformam, acompanham novos contextos sociais e incorporam outras tecnologias. Ainda assim, continuam exercendo funções que ultrapassam o abastecimento das cidades e a geração de renda.
São lugares onde diferentes classes sociais se encontram, relações de confiança são construídas e práticas culturais são transmitidas. A compra e a venda estão entrelaçadas às conversas, aos apelidos, às brincadeiras, às lembranças e aos vínculos que se renovam a cada visita.
“É uma comunicação mais afetiva, mais próxima”, observou Ermaela. Em algumas bancas, o freguês antigo ainda compra fiado e tem a dívida anotada em um caderno. Em outras, o atendimento começa com uma piada, uma história ou uma pergunta sobre a família. A mercadoria importa, mas a relação construída em torno dela também faz parte da negociação.
Quando o corpo se torna mídia
Ao perguntar o que comunica dentro de uma feira, Ermaela propôs que os estudantes observassem não apenas as palavras, mas também os gestos, os sons, as cores, os cheiros e a organização visual das bancas.
O feirante anuncia produtos, estabelece preços, chama o freguês e constrói sua própria presença pública. Muitas vezes, a divulgação é transportada no corpo: vendedores ambulantes circulam com mercadorias, placas, adereços e demonstrações dos produtos que comercializam.
“Eles são os próprios marqueteiros. Eles mesmos são os produtos”, afirmou a pesquisadora ao destacar a dimensão performática da venda. O pregão, o humor, a gestualidade e a capacidade de contar histórias transformam o trabalhador em comunicador popular.
Também existe uma comunicação visual produzida com os recursos disponíveis. Caixas, lonas, pedaços de madeira, embalagens, letreiros pintados à mão e diferentes tipos de improviso compõem aquilo que Ermaela apresentou como um design periférico. As chamadas “gambiarras” não aparecem apenas como respostas à falta de recursos, mas como soluções criativas para organizar o espaço, expor mercadorias e atrair os consumidores.
Durante o mestrado, dedicado à Feira Central de Campina Grande, a pesquisadora utilizou a taxionomia da folkcomunicação elaborada por José Marques de Melo para identificar essas manifestações.
Na comunicação oral, encontrou os cantos de trabalho, as emboladas, as conversas, as cantorias, as gírias, as anedotas, os apelidos e os bordões. Na dimensão visual, observou folhetos de cordel, panfletos, xilogravuras, adesivos, inscrições nas paredes e cartazes artesanais. A comunicação icônica aparecia nos alimentos, bordados, utensílios e objetos expostos. Já a dimensão cinética envolvia manifestações como o forró, o coco de roda, as quadrilhas, os blocos carnavalescos e outras atividades culturais relacionadas ao cotidiano das feiras.
Essas linguagens convivem em um mesmo ambiente, formando um sistema híbrido e multifacetado. Inspirada também pela classificação de Harry Pross, Ermaela explicou que mídias primárias, secundárias e terciárias coexistem nesses espaços. O corpo, o cartaz artesanal, o rádio e o telefone celular não necessariamente se substituem. Eles passam a operar juntos.
A feira antes e depois da internet
A entrada das feiras nas plataformas digitais foi o ponto central da segunda parte da aula. Ermaela apresentou vídeos produzidos em mercados e feiras de países como Alemanha, Bélgica, Taiwan e Chile, além de conteúdos dedicados às feiras nordestinas.
Embora as paisagens, os produtos e os modos de organização variassem, os exemplos compartilhavam uma característica: a feira havia se transformado em conteúdo. Os vídeos apresentavam narração, edição, legendas, enquadramentos e linguagens típicas dos influenciadores digitais.
A pesquisadora ressaltou, porém, que a internet não inaugurou a capacidade comunicacional desses espaços.
“A feira livre sempre foi uma mídia popular, antes mesmo da internet”, sintetizou. “Ela sempre foi um lugar de trocas simbólicas, de narrativas orais, de experimentação de sensações, de sons, cheiros e performances.”
Na feira já circulavam notícias, boatos, tendências, informações sobre preços, relatos da vida comunitária e referências à moda, à música e à gastronomia. Por isso, Ermaela a define como um “império do diverso”: um ecossistema no qual diferentes linguagens e experiências se encontram.
Durante o debate, Itamar Nobre reforçou essa compreensão: “Antes de a feira ser midiatizada pela internet, a própria feira midiatiza”.
As plataformas, portanto, não criam a comunicação da feira. Elas acrescentam novas formas de produção, circulação e visibilidade a um sistema comunicacional muito mais antigo.
Do espaço físico ao recorte do feed
No doutorado, Ermaela investiga os processos de midiatização relacionados aos perfis digitais da Feira Central de Campina Grande e da Feira de Caruaru. O estudo procura compreender como esses territórios populares passam a existir também dentro de um ecossistema organizado por redes sociais, vídeos, comentários e estratégias de divulgação.
A passagem para o ambiente digital amplia o alcance das feiras, mas também produz recortes. Nem todos os trabalhadores, produtos ou manifestações culturais aparecem com a mesma frequência. Por isso, a pesquisadora formulou perguntas que orientam a análise: quais feirantes ganham visibilidade? Eles aparecem como protagonistas ou apenas como personagens de conteúdos produzidos por outras pessoas? Quais linguagens são utilizadas? Que valores são associados às feiras? O que permanece fora do enquadramento?
Nos perfis analisados, Ermaela encontrou diferentes prioridades. Na comunicação sobre Campina Grande, aparecem com frequência bancas de temperos, castanhas, doces e personagens conhecidos pelos fregueses. Em Caruaru, a divulgação apresenta forte presença da indústria têxtil, da Feira da Sulanca e do movimento de comerciantes que chegam à cidade durante a madrugada.
Os comentários também revelam que o público digital não está separado do público presencial. Pessoas que deixaram Campina Grande ou Caruaru acompanham as publicações para reencontrar lembranças da infância, matar a saudade e manter vínculos com a terra natal. Algumas chegam a comprar produtos mostrados nos perfis e recebê-los em outras cidades.
A feira física, desse modo, não é simplesmente transportada para a internet. Ela é selecionada, enquadrada e reorganizada segundo as linguagens das plataformas. O que chega ao feed é uma parte de um universo muito mais extenso.
Patrimônio, memória e resistência
A dimensão cultural das feiras também apareceu no debate com os participantes. A Feira Central de Campina Grande é reconhecida pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2017. A Feira de Caruaru recebeu o registro em 2006. As duas estão inscritas no Livro de Registro dos Lugares.
O reconhecimento reforça que esses espaços não podem ser compreendidos somente pelo seu papel econômico. Artesanato, gastronomia, cordel, música, capoeira, blocos carnavalescos, emboladas e celebrações populares fazem das feiras territórios de continuidade e recriação cultural.
Uma das participantes aproximou a discussão da Feira de São Joaquim, em Salvador, destacando a presença da culinária baiana, do samba e do abastecimento relacionado a celebrações como a festa de São Cosme e Damião. A conversa mostrou que cada feira organiza uma rede própria de práticas culturais, agentes sociais e formas de comunicação.
Para Ermaela, estudar esses espaços significa reconhecer saberes e mídias que costumam permanecer à margem das teorias convencionais da Comunicação. A folkcomunicação permite observar como grupos populares produzem sentidos, elaboram suas experiências e fazem circular conhecimentos por canais construídos no cotidiano.
Trata-se, segundo ela, de buscar “outras realidades, outras mídias e outros saberes possíveis”.
Pesquisar também é devolver
Na parte final da aula, a pesquisadora retomou sua ligação afetiva com o campo. O interesse pelas feiras não nasceu apenas das leituras acadêmicas, mas de uma experiência familiar que antecede o mestrado e o doutorado.
“Eu me sinto devolvendo um pouco de tudo que a feira já me deu”, afirmou, relacionando sua pesquisa às trajetórias da mãe e dos avós. Essa dimensão afetiva não elimina o rigor científico. Ao contrário, orienta as perguntas e ajuda a perceber relações que poderiam passar despercebidas a um olhar distante. Cadernos de fiado, cartazes improvisados, pregões, conversas e lembranças deixam de ser vistos como elementos banais e passam a ser compreendidos como partes de um sistema comunicacional complexo.
Ao encerrar sua participação, Ermaela também destacou que seu trabalho não é realizado de maneira isolada. “Minha pesquisa é dentro de uma rede de pesquisa, que é a Rede Folkcom, que me acolhe”, declarou.
A aula mostrou que, mesmo quando chega aos vídeos, aos perfis e aos algoritmos, a comunicação da feira permanece ligada ao encontro entre pessoas. As plataformas alteram linguagens, ampliam públicos e reorganizam visibilidades, mas convivem com práticas muito anteriores à internet.
Entre a banca e o feed, a feira continua comunicando. Ela resiste e se reinventa sem abandonar a memória, a história e a identidade dos grupos que fazem dela um dos espaços mais vivos da cultura popular nordestina.





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