top of page

“A cultura é viva”: estudantes transformam leitura de Luiz Beltrão em podcast didático

11 de ago.
5 min de leitura

Produzido para a disciplina Relações Étnico-Raciais da Universidade Tiradentes, o Folk Clube aproxima a teoria da folkcomunicação de procissões, folguedos, oralidade, tecnologia e situações do cotidiano



Um livro apresentado diante da câmera, uma breve saudação e o convite para uma conversa. É dessa maneira que um grupo de estudantes inicia o Folk Clube, podcast criado para discutir a folkcomunicação a partir da obra de Luiz Beltrão.

O vídeo não registra uma palestra, conferência ou mesa de congresso. Trata-se de uma atividade didática produzida no segundo semestre de 2025 para a disciplina Relações Étnico-Raciais, ministrada pelo professor Matheus Luamm Santos Formiga Bispo na Universidade Tiradentes.

Publicado em 30 de setembro de 2025, o episódio “Folkcomunicação, de Luiz Beltrão” transforma a apresentação de uma leitura acadêmica em uma conversa com aproximadamente 30 minutos de duração.

A equipe foi formada por Cecília Matilde Oliveira dos Santos, Douglas Samuel Sena Anunciação dos Anjos, Elton Barbosa dos Santos, Kevin Lucas Carvalho Nery, Paulo Veloso Ramalho Brito e Stefany Gregorio dos Santos. Na gravação, Paulo conduz o diálogo com Elton e Kevin.

O ponto de partida é o livro Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de ideias, obra derivada da tese de doutorado defendida por Luiz Beltrão em 1967 e publicada em livro pela Edipucrs em 2001.

Mais do que resumir capítulos, os estudantes procuram relacionar os conceitos do autor às manifestações religiosas, às culturas afro-brasileiras e indígenas, aos folguedos de Sergipe, à circulação de rumores e aos desafios provocados pelas tecnologias digitais.

Uma teoria apresentada na linguagem dos estudantes

Nos primeiros minutos, os participantes apresentam a folkcomunicação como uma teoria voltada para os processos comunicacionais de grupos que historicamente permaneceram à margem dos grandes meios de comunicação.

A oralidade aparece como um dos principais caminhos para a transmissão de informações, valores e experiências. Também são mencionadas procissões, festas, danças, cordéis, provérbios, narrativas populares, imagens religiosas e grafismos.

Ao relacionar a leitura à disciplina de Relações Étnico-Raciais, o grupo destaca a comunicação produzida por comunidades negras e indígenas. Os estudantes lembram que essas manifestações atravessaram processos de colonização, escravização, perseguição religiosa e inferiorização cultural.

Festas, ritos e folguedos são compreendidos, assim, não apenas como formas de entretenimento, mas como meios pelos quais diferentes grupos preservam memórias, expressam suas identidades e comunicam maneiras próprias de compreender o mundo.

A discussão também procura se aproximar da realidade sergipana. Entre os exemplos estão a peregrinação à Divina Pastora e folguedos como os Parafusos. A escolha ajuda a retirar a folkcomunicação do campo puramente abstrato e situá-la em experiências que podem ser observadas pelos próprios estudantes.

As dúvidas também fazem parte da aprendizagem

A natureza didática do vídeo fica evidente nas hesitações, nas perguntas e nas correções realizadas ao longo da conversa.

Em determinado momento, os participantes tentam recordar uma grande procissão amazônica apresentada em aula. Logo depois, aproximam o exemplo de uma manifestação mais familiar, a peregrinação de Divina Pastora.

Em outras passagens, procuram encontrar palavras para explicar conceitos ou recorrem a situações cotidianas para verificar se compreenderam corretamente as ideias de Beltrão.

Essas marcas não diminuem a importância do vídeo. Pelo contrário, revelam uma aprendizagem em andamento. Em vez de apenas reproduzir definições previamente decoradas, os estudantes testam interpretações, confrontam exemplos e constroem coletivamente uma leitura.

O programa registra justamente o momento em que uma teoria começa a adquirir sentido para quem está conhecendo o campo.

Tradição, juventude e tecnologia

Uma das principais preocupações apresentadas no Folk Clube é a continuidade das manifestações populares.

Os estudantes observam que muitas tradições dependem da transmissão oral e da participação das novas gerações. Quando os mestres envelhecem e os jovens não se interessam pela prática, determinados conhecimentos podem deixar de circular.

Inicialmente, as tecnologias e as culturas globalizadas aparecem como possíveis ameaças. Redes sociais, plataformas de streaming e conteúdos produzidos em outros países disputariam a atenção dos jovens com as manifestações de suas próprias comunidades.

A conversa, entretanto, avança para uma compreensão menos rígida. Os participantes reconhecem que as mesmas tecnologias podem ajudar a divulgar tradições, registrar conhecimentos e aproximar novos públicos.

Também questionam o preconceito dirigido aos indígenas que utilizam celulares, roupas industrializadas ou redes sociais, como se o acesso à tecnologia anulasse sua identidade.

É nesse ponto que um dos estudantes sintetiza uma das ideias mais importantes do episódio: “A cultura é viva. Inclusive, ela está sempre em desenvolvimento”.

A afirmação afasta a cultura popular da imagem de uma herança congelada. Uma tradição não precisa permanecer exatamente igual para continuar existindo. Ela pode incorporar ferramentas, linguagens e experiências do presente, desde que permaneça vinculada às pessoas que a produzem e reconhecem.

Quem são os agentes populares?

Outro eixo do podcast é o papel dos agentes populares de comunicação, apresentados por Luiz Beltrão como mediadores entre diferentes circuitos informativos.

Eles não precisam ser celebridades ou autoridades formalmente constituídas. Sua influência nasce do reconhecimento alcançado dentro do grupo e da capacidade de interpretar e recodificar mensagens de acordo com as referências da comunidade.

Os estudantes citam caminhoneiros, cantadores e jornalistas. O motorista de caminhão, por exemplo, percorre diferentes cidades, recolhe histórias, transporta informações e coloca grupos territorialmente distantes em contato.

Para explicar a atuação desses mediadores, o programa também recorre à figura bem-humorada da “vizinha fofoqueira”. Quando ela conta o que aconteceu no bairro, acrescenta interpretações, mobiliza opiniões e interfere na maneira como o acontecimento será compreendido pelos demais moradores.

O exemplo aproxima o conceito da experiência cotidiana. Ao mesmo tempo, ajuda a mostrar que os agentes folkcomunicacionais não apenas repetem mensagens. Eles selecionam, comentam, adaptam e atribuem sentidos às informações que circulam.

Rumores, relatos orais e conversas de vizinhança podem, portanto, integrar processos de comunicação social mesmo sem obedecer aos procedimentos profissionais do jornalismo.

Folkcomunicação e comunicação de massa

O grupo também procura diferenciar a folkcomunicação da comunicação de massa.

Em alguns momentos, a mídia aparece como uma força externa que oferece pouco espaço às culturas locais ou tenta impor repertórios mais padronizados. Os estudantes citam a forte presença de produtos norte-americanos no imaginário brasileiro e a influência dos vídeos produzidos no Brasil sobre a maneira de falar de crianças portuguesas.

A relação, contudo, não é apresentada apenas como oposição. Os próprios participantes reconhecem que as mensagens circulam nos dois sentidos.

Os agentes populares interpretam informações vindas da mídia e as ajustam às referências de suas comunidades. Em outros momentos, os veículos se aproximam de festas, personagens e manifestações populares para transformá-los em notícia ou entretenimento.

Essa circulação entre sistemas populares e massivos constitui um ponto fundamental da teoria de Beltrão. A folkcomunicação não corresponde apenas à preservação de uma tradição nem se encontra completamente isolada das indústrias culturais. Ela envolve intercâmbios, mediações, apropriações e disputas de sentido.

O podcast como ferramenta de aprendizagem

A escolha do podcast permite que a atividade ultrapasse o modelo convencional de apresentação de seminário.

O formato favorece perguntas, complementações e exemplos espontâneos. Quando um estudante encontra dificuldade para explicar determinado conceito, os demais ajudam a construir a resposta. A conversa mostra não apenas o resultado da leitura, mas o processo de interpretação da obra.

Ao ser publicada no YouTube, a produção também deixa de circular exclusivamente entre professor e turma. Outros estudantes interessados em Luiz Beltrão podem acompanhar a discussão, reconhecer as dúvidas apresentadas e utilizar o episódio como porta de entrada para o campo.

Isso não significa que o vídeo substitua a leitura do livro ou ofereça uma exposição definitiva da teoria. Algumas passagens apresentam simplificações próprias de uma atividade introdutória. Seu mérito está justamente em documentar a aproximação inicial de jovens comunicadores com uma formulação teórica brasileira.

O Folk Clube demonstra que uma obra acadêmica pode ser trabalhada por meio de linguagens mais próximas do cotidiano estudantil. Ler, conversar, discordar e procurar exemplos tornam-se partes de um mesmo percurso de aprendizagem.

Ao final, o vídeo vale menos como uma aula pronta do que como o registro de estudantes pensando em conjunto. Entre procissões, caminhoneiros, folguedos, indígenas conectados e conversas de vizinhança, eles descobrem que a folkcomunicação não está restrita às páginas de um livro.

Ela pode ser percebida nas muitas maneiras pelas quais as pessoas narram suas experiências, interpretam informações e mantêm suas culturas em movimento.

Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page