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Resenha de livro sobre folkcomunicação publicada na Espanha em 1972

A resenha reproduzida a seguir foi publicada originalmente em espanhol na seção “Noticias de libros” da Revista Española de la Opinión Pública, número 28, correspondente aos meses de abril a junho de 1972, nas páginas 458 e 459. Editada em Madri pelo Instituto de la Opinión Pública, órgão estatal espanhol que posteriormente daria origem ao Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS), a revista circulou entre 1965 e 1977 e se dedicava a estudos sobre opinião pública, sociologia, política e comunicação. Foi sucedida, em 1978, pela Revista Española de Investigaciones Sociológicas (REIS).


Assinada por F. A. de la Fuente Luaces, cuja identidade completa ainda não foi localizada nos catálogos consultados, a resenha apresenta ao público espanhol o volume coletivo Folkcomunicação, publicado em 1971 pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, na Série “Comunicações”. O mesmo resenhista também escreveu, naquele número, notas sobre Reflexões sobre temas de comunicação, de José Marques de Melo, e Cordel e comunicação, igualmente editado pela ECA-USP, demonstrando particular interesse pela produção brasileira no campo da comunicação e da cultura popular.


Publicada apenas um ano depois da obra comentada, a resenha constitui um registro particularmente precoce da circulação internacional da Folkcomunicação. O texto não se limita a noticiar o lançamento: procura explicar ao leitor estrangeiro o significado do neologismo, delimitar seu campo de problemas e destacar a relevância comunicacional de manifestações como os ex-votos, a xilogravura, a música popular, os provérbios, os rótulos comerciais e as inscrições em veículos. Sua recuperação permite observar como a teoria formulada no Brasil começava a ser recebida fora do país ainda no início da década de 1970.



VÁRIOS: Folkcomunicação. Série “Comunicações”. Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes. São Paulo, Brasil, 1971.


Folkcomunicação reúne até onze notícias bibliográficas de artigos e estudos de grande amplitude temática publicados em revistas especializadas, com o objetivo comum de fornecer dados sobre o processo de intercâmbio de informações e de manifestação de opiniões, ideias e atitudes das massas por meio de agentes e meios ligados direta e indiretamente ao folclore. É isso que se designa pelo neologismo técnico “Folkcomunicação”.


Define-se o campo de problemas abrangido por esse conceito e sua absoluta necessidade para educadores, governantes, sociólogos, profissionais da comunicação etc. No amplo espectro de problemas anteriormente esboçado, passam-se em revista aspectos sociológicos da heterogênea população brasileira, a fim de lançar luz sobre o sentido e a interpretação de seu comportamento:


— O ex-voto como linguagem própria de um povo desprovido dos meios cultos de expressão. O ex-voto reúne uma extensa gama de objetos simbólicos que definem os interesses e o ambiente do povo brasileiro. Por isso mesmo, o ex-voto é um veículo jornalístico de um povo afastado dos meios letrados de expressão. É uma de suas formas de publicidade, autêntico expoente etnográfico que não pode ser desprezado, ainda que constitua um sinal de analfabetismo ou incultura, de marginalização social, para dizê-lo brevemente.


— A arte popular, sempre difícil de reduzir a conceitos, deu lugar no Brasil a numerosas confusões por parte dos eruditos. Quase sempre foi marginalizada, em termos de valor, pelo sedimento europeu — mediterrâneo — dos grupos cultos brasileiros. No entanto, está mais próxima da raiz criadora da arte. Esquecê-la contribui apenas para empobrecer, diminuir e esterilizar o humano.


— O estudo das manifestações artísticas populares exige numerosas distinções, uma vez que não são claras as fronteiras entre o genuinamente popular e espontâneo e aquilo que é popular de maneira adulterada, turística. Isso é resultado das interferências culturais criadas pelos meios modernos de comunicação. Concretamente, a xilogravura, embora seja popular em suas preferências temáticas e em sua feitura, é, sob todos os aspectos, consequência da introdução europeia da imprensa nos meios populares. A música popular, tão ampla, merece atenção especial por parte de sociólogos, teólogos e músicos, por sua riqueza de conteúdo, visão de mundo e significação social e religiosa.


— Mesmo coisas tão aparentemente insignificantes quanto os rótulos dos cigarros podem constituir um campo de estudo de ampla significação. Cada nome traduz acontecimentos imediatos, gostos, partidarismos políticos, críticas, preferências... todo um vasto complexo psicossocial. O para-choque é um símbolo do funcionalismo automobilístico. Apenas um símbolo da constelação de formas que se cristalizaram ao redor do automóvel. Especialmente, as inscrições nos automóveis fornecem dados para o estudo psicossociológico do motorista, como parte de um novo repertório de ditos populares centrado em novos interesses e temores. O antigo repertório de provérbios, mais estudado, certamente oferece múltiplos temas para consideração. Até cem deles são citados e analisados, todos utilizados na região de São Paulo.


Esta coletânea de artigos termina com um estudo de Lévi-Strauss, “Papai Noel supliciado”, que comenta um acontecimento noticiado pelos jornais franceses e que deu origem a uma polêmica em torno da figura de Papai Noel. Papai Noel seria uma sobrevivência das Saturnais pagãs, das quais o Natal cristão não teria se desprendido por completo. Justifica-se esse temor, e seu estudo dá lugar a considerações de caráter sociológico.


F. A. de la Fuente Luaces

 
 
 

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