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Cordel brasileiro no New York Times

Em 2001, Joseph M. Luyten e Audálio Dantas estiveram à frente da curadoria da exposição Um Século de Cordel, realizada em São Paulo. Como parte desse amplo trabalho de pesquisa e sistematização, Luyten organizou o livro Um século de literatura de cordel: bibliografia especializada sobre literatura popular em verso, reunindo referências fundamentais para a compreensão do gênero.


A iniciativa ajudou a projetar internacionalmente a literatura de cordel e inspirou, quatro anos depois, a reportagem “The Troubadours of Brazil’s Backlands” — “Os trovadores do sertão brasileiro” —, publicada por Larry Rohter no The New York Times. O texto, contudo, menciona apenas Audálio Dantas como curador da exposição, sem registrar a participação de Luyten.


Ao republicar a matéria em português, a Rede Folkcom recupera essa contribuição e restitui ao pesquisador o devido lugar na história do projeto que apresentou o cordel nordestino aos leitores do jornal norte-americano. Confira o texto:




Os trovadores do sertão brasileiro


Publicado no NY Times

14 de junho de 2005

Por Larry Rohter


CARUARU, Brasil — Eles são os bardos do sertão, viajando com seus poemas de cidade em cidade, de feira em feira. Praticantes de uma forma de arte que teve origem na Europa medieval e que hoje se encontra praticamente extinta em outros lugares, eles continuam, apesar disso, a prosperar por aqui.


“Cordel” é o nome dado ao seu ofício, que se desenvolveu neste árido sertão do Nordeste brasileiro, em comunidades camponesas isoladas que atribuíam mais valor à palavra falada ou cantada do que à escrita. Como convém a uma arte popular e autônoma, os mesmos poetas que criam os versos, inspirados em acontecimentos atuais ou em antigas lendas, geralmente também os imprimem, ilustram e vendem.


“Como tantas outras manifestações populares, o cordel transforma um vocabulário antigo para adaptá-lo a novas situações”, afirmou Candace Slater, autora de Stories on a String e professora de Humanidades da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “O que não mudou é que os poetas de cordel continuam escrevendo para a coletividade e que aquilo que escrevem continua encontrando ressonância entre os nordestinos, não importa onde estejam vivendo.”


“Cordel” significa literalmente corda ou barbante, numa referência à maneira como os folhetos de papel barato que contêm os poemas, com até 32 páginas, são pendurados nas feiras e bancas. As estrofes costumam ter seis versos e, embora sejam admitidos diferentes esquemas de rima, o mais comum provavelmente é a-b-c-b-d-b.


Originalmente, o cordel era uma extensão da tradição europeia dos trovadores. Poetas e cantadores percorriam o vasto interior do Nordeste brasileiro — uma área maior do que o Alasca e que hoje abriga 50 milhões de pessoas —, apresentando-se em feiras como a realizada aqui todos os sábados, assim como em festas, celebrações de santos e outros acontecimentos públicos. Ali recitavam suas histórias, levando notícias e entretenimento a camponeses que muitas vezes não sabiam ler.


“A literatura popular em verso desenvolveu-se aqui no Brasil como em nenhum outro lugar do mundo”, afirmou Audálio Dantas, colecionador de cordéis e curador de Um Século de Cordel, exposição realizada em São Paulo em 2001. “Durante décadas, o folheto de cordel foi praticamente o único veículo de informação com que o povo do sertão podia contar.”


Com a ascensão do rádio, seguida pela televisão e, agora, pela internet, o cordel gradualmente passou a se concentrar mais no entretenimento do leitor ou ouvinte. Ainda assim, quando um leão devorou uma criança em um circo nas proximidades, há pouco tempo, o episódio rapidamente se tornou assunto de um cordel. Poucos dias depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, folhetos que interpretavam o acontecimento já circulavam pelo sertão.


“Somos poetas menestréis porque aquilo que escrevemos tem rima e vem da nossa imaginação”, afirmou José João dos Santos, que, sob o pseudônimo de Azulão, escreveu e publicou mais de 300 títulos de cordel. “Mas também sou jornalista, pois levo as notícias aos pobres e aos que não sabem ler, numa forma que eles compreendem e na qual confiam mais do que nos jornais ou na televisão.”


A maioria dos poetas tem origem semelhante à de seu público. José Francisco Borges, por exemplo, deixou a escola aos 12 anos e hoje talvez seja o mais celebrado mestre dessa arte. Ao longo da vida, trabalhou como pedreiro, vendedor de ervas, trabalhador rural, carpinteiro e oleiro.


Ainda que lhes falte escolaridade formal, os poetas de cordel são criativos e perspicazes. Quando perguntaram a Abraão Batista o que o fizera tornar-se poeta, ele respondeu: “Bem, fui até a Lua, encontrei São Jorge e os santos conversando, e eles me deram sua bênção. Desde então, venho saltando pelo tempo e pelo espaço.”


Como indicam folhetos com títulos como A moça que bateu na mãe e virou cachorra e A moça que se casou 14 vezes e continuou virgem, o cordel frequentemente transmite uma lição moral, com heróis e vilões claramente definidos. Outros títulos, como A mulher que engarrafou o diabo ou O homem que se casou com uma jumenta, têm intenção fantasiosa ou cômica.


Outro tema muito apreciado são as aventuras de Lampião, cangaceiro comparado a Robin Hood que escapou da polícia durante mais de uma década, até ser localizado e morto nas proximidades daqui, em 1938.


Os poetas afirmam, contudo, que o cordel mais vendido de todos os tempos é *O Romance do Pavão Misterioso*. Ambientada no distante Mediterrâneo, a história apresenta um jovem que, impedido de encontrar a amada mantida em cativeiro pelo próprio pai, consegue um pavão mecânico que lhe permite resgatá-la. Os dois fogem juntos; mais tarde, o sogro morre e o casal se torna seu herdeiro.


“Algumas das histórias mais populares podem ser relacionadas a lendas europeias, remontando a Carlos Magno, no século X, mas a maioria teve origem na Península Ibérica entre o final do século XVI e o século XVII”, afirmou Mark Curran, professor da Universidade Estadual do Arizona e autor de vários livros sobre cordel. “A genialidade dessas histórias, porém, está no fato de que até mesmo aquelas vindas do Oriente foram completamente adaptadas e recriadas para corresponder às circunstâncias do Nordeste brasileiro.”


José Ferreira da Silva, poeta que vive aqui e escreve sob o nome de Dila, declarou: “Certos assuntos simplesmente nunca saem de moda no cordel e sempre vendem. Escrevi tantos folhetos sobre Lampião que já perdi a conta — pelo menos uns duzentos.”


Inicialmente, os brasileiros escolarizados desprezavam o cordel e as rústicas capas em xilogravura a ele associadas, considerando-os vulgares e de mau gosto, símbolos do atraso do país. Hoje, contudo, intelectuais de São Paulo e do Rio de Janeiro colecionam ou admiram os folhetos, e a estética do cordel pode ser percebida em praticamente todos os cantos da cultura popular brasileira.


“Todos os poetas de cordel dirão que o interesse pelo trabalho deles cresceu sobretudo por causa dos estrangeiros”, afirmou o professor Curran. “Mas acredito que o Brasil chegou a um momento de transformação, em que há maior consciência e desejo de buscar as raízes culturais do país. E o cordel é uma parte fundamental da cultura brasileira do século XX.”


Na música popular, por exemplo, compositores inovadores e muito admirados fora do Brasil recorreram ao cordel em canções como A chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI, de Tom Zé, e O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no céu, de Chico Science. Na literatura, o romance Tereza Batista Cansada de Guerra, de Jorge Amado, e a peça A História do Rei Degolado nas Caatingas do Sertão, de Ariano Suassuna, receberam forte influência do cordel, tanto nos temas quanto na forma.


Com títulos como *O cordel das doenças sexualmente transmissíveis* e *A reforma agrária tem que ser um direito de todo brasileiro*, os governos federal e estaduais também têm utilizado essa forma de expressão em campanhas sobre saúde, segurança no trânsito, conscientização política, prevenção da Aids e outros temas oficiais. Políticos e comerciantes de pequenas cidades nordestinas frequentemente recorrem ao cordel para promover suas candidaturas ou seus produtos.


“Não faz muito tempo, um advogado cuja filha estava prestes a se casar veio até mim e pediu que eu escrevesse os convites de casamento em versos de cordel”, contou José Severino Cristóvão, poeta que vive aqui.


As xilogravuras que adornam as capas dos folhetos também evoluíram e se tornaram uma forma artística autônoma. A obra de J. Borges já foi exposta no Louvre e no Instituto Smithsonian. Em sua banca nesta feira, contudo, ele também vende camisetas e azulejos estampados com imagens de suas xilogravuras.


“Desde a década de 1920, dizem que o cordel está condenado a desaparecer”, afirmou a professora Slater. “Mas a energia criativa permanece viva; ela apenas está sendo canalizada de outras maneiras. O cordel sempre foi uma forma híbrida, capaz de incorporar novas influências. Sua capacidade de se transformar pode decepcionar aqueles que desejam que ele continue sendo aquilo que foi nas décadas de 1940 ou 1970, mas é exatamente nessa adaptabilidade que reside sua sobrevivência criativa.”

 
 
 

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