Presidente da Rede Folkcom debate cultura, política e democracia em live do Folclore BR
Andriolli Costa participou de edição especial do Hora Folk sobre financiamento, intolerância religiosa e violência contra os sujeitos das culturas populares
A defesa das culturas populares envolve recursos para realizar festas, condições de trabalho para seus produtores e liberdade para expressar diferentes identidades e crenças. Essas questões orientaram a participação de Andriolli Costa, presidente da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação (Rede Folkcom), na edição especial do Hora Folk transmitida nesta quarta-feira, 14 de outubro, com o tema “A cultura está em risco nessas eleições?”.
Conduzida pelo ilustrador e ativista cultural Anderson Awvas, criador do coletivo Folclore BR, a conversa reuniu também a ilustradora e quadrinista Lorena Herrero, conhecida como HET, e a historiadora Gláucia Garcia, ligada ao projeto Jangada Brasil. Os participantes manifestaram apoio a Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno e relacionaram suas preocupações com a candidatura de Flávio Bolsonaro às experiências do setor cultural durante o governo de Jair Bolsonaro.

Estruturas que sustentam as manifestações
Lorena chamou atenção para consequências do enfraquecimento das políticas culturais que nem sempre aparecem no debate sobre orçamento. Na avaliação da ilustradora, a perda de equipes compromete cadastros, seleções, contatos com mestres e artesãos e o acompanhamento de iniciativas comunitárias. Ao abordar a redução das estruturas públicas, sintetizou: “É corte de gente”.
A discussão tem um antecedente institucional concreto. Em 2019, no início do governo Bolsonaro, a Cultura perdeu o status de ministério e passou a funcionar como secretaria. A pasta recuperou a condição ministerial em janeiro de 2023, com o início do terceiro governo Lula.
As disputas também alcançaram os instrumentos de financiamento. Em julho de 2022, o Congresso derrubou os vetos de Jair Bolsonaro às leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2, que previam repasses federais para ações culturais executadas por estados e municípios. As justificativas dos vetos incluíam restrições fiscais e orçamentárias; sua rejeição ocorreu após acordo entre lideranças e o governo. Entre as atividades contempladas pela Aldir Blanc estavam festas populares, feiras, festivais e manutenção de espaços culturais.
Para Lorena, são especialmente vulneráveis as manifestações menores, que dependem dessas redes de apoio e não dispõem da estrutura dos grandes eventos. Sem suporte, seus integrantes precisam ampliar o trabalho voluntário e retirar recursos do próprio sustento para manter as atividades.
O carnaval para além do retorno econômico
Andriolli Costa questionou os limites de uma defesa da cultura baseada apenas na geração de renda e empregos. Ao recordar as disputas sobre o financiamento do carnaval durante a gestão de Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, afirmou que “nunca é uma questão de dinheiro”. Para o pesquisador, a rejeição a determinadas manifestações pode envolver seus valores, pertencimentos e formas de organização.
Em junho de 2017, Crivella anunciou a redução pela metade da subvenção municipal às escolas de samba do Grupo Especial, de R$ 24 milhões para R$ 12 milhões, para o carnaval seguinte. A justificativa apresentada pela prefeitura era ampliar os repasses às creches conveniadas. As escolas contestaram a medida e destacaram o retorno econômico da festa: segundo números da própria administração municipal divulgados naquele momento, o carnaval de 2017 havia movimentado R$ 3 bilhões.
A interpretação de Costa sobre esse episódio enfatizou a dimensão política das festas. Em sua análise, o carnaval constitui um espaço de encontro e organização popular no qual circulam mensagens de resistência, críticas aos governos e reivindicações das comunidades. Essa circulação de sentidos aproxima o debate da Folkcomunicação e ajuda a compreender por que o valor dessas manifestações ultrapassa seus resultados financeiros. Na avaliação de Costa, sua capacidade de organizar comunidades e expressar críticas também ajuda a explicar a hostilidade de governos autoritários.
Cultura, organização popular e violência política
“Cultura e política são coisas inseparáveis”, afirmou Gláucia Garcia. Para a historiadora, apreciar uma manifestação cultural também exige reconhecer a trajetória das pessoas que a construíram. Na conversa, ela recorreu à história do Império Serrano para mostrar como o samba e a organização dos trabalhadores se desenvolveram em espaços compartilhados.
Fundada em 1947, no morro da Serrinha, no Rio de Janeiro, a escola teve entre seus fundadores trabalhadores portuários ligados à Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café. Criada em 1905, a entidade foi um dos primeiros sindicatos de maioria negra do país. A experiência de mobilização desses trabalhadores ajudou a estruturar a agremiação, aproximando a luta por melhores condições de trabalho da construção de espaços de convivência e expressão cultural.
Gláucia também lembrou que os conflitos políticos podem atingir violentamente os próprios produtores de cultura. Foi nesse contexto que recordou o assassinato de Mestre Moa do Katendê, capoeirista, compositor e educador morto em Salvador em 8 de outubro de 2018, após uma discussão motivada por divergências políticas, logo depois do primeiro turno das eleições. A lembrança deu um sentido concreto à preocupação levantada na live: defender as culturas populares envolve proteger a vida e a liberdade de quem as mantém.
“Se a cultura não tem importância pra política, por que que ela é tão perseguida?”, questionou a historiadora, ao relacionar o episódio à perseguição a artistas e manifestações culturais em contextos autoritários.
Ao abordar as condições de trabalho dos artistas, Gláucia também criticou a naturalização da precariedade. Lembrou as dificuldades enfrentadas por Cartola e argumentou que a capacidade de continuar criando diante das adversidades não elimina a responsabilidade do poder público de apoiar esses sujeitos. Em sua avaliação, a persistência da cultura popular não deve servir de justificativa para o abandono de seus produtores.
Diversidade cultural e intolerância religiosa
A intolerância religiosa atravessou a conversa. Lorena destacou que referências indígenas e de matriz africana fazem parte das experiências das comunidades que realizam as manifestações populares. Na avaliação dos participantes, pressões para eliminar esses elementos podem comprometer os sentidos das próprias tradições.
O problema encontra correspondência nos registros públicos. Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania divulgados em janeiro de 2025, o Disque 100 recebeu 2.472 denúncias de intolerância religiosa ao longo de 2024. Umbanda e candomblé estavam entre os segmentos mais frequentemente identificados nos registros.
Pesquisa e compromisso com as comunidades
Professor do Departamento de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Costa também abordou a universidade como espaço de produção cultural. Ao discutir a liberdade de ensino e pesquisa, lembrou que projetos de extensão constroem relações com diferentes grupos sociais e podem sofrer os efeitos de ambientes de intimidação e perseguição ideológica.
No encerramento, o presidente da Rede Folkcom retomou o posicionamento da associação em apoio a Lula. Para ele, a atuação pública dos pesquisadores precisa considerar as consequências das decisões políticas para as comunidades com as quais trabalham, convivem e constroem conhecimento.
“Não tem como a gente fechar os olhos para isso”, afirmou. Costa relacionou esse compromisso à coerência entre os princípios teóricos da Folkcomunicação e a atuação de quem pesquisa as culturas populares.
Assista à live
A edição completa está disponível gratuitamente no canal do Folclore BR no YouTube.





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