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Presidente da Rede Folkcom debate cultura, política e democracia em live do Folclore BR

há 9 horas
5 min de leitura

Andriolli Costa participou de edição especial do Hora Folk sobre financiamento, intolerância religiosa e violência contra os sujeitos das culturas populares


A defesa das culturas populares envolve recursos para realizar festas, condições de trabalho para seus produtores e liberdade para expressar diferentes identidades e crenças. Essas questões orientaram a participação de Andriolli Costa, presidente da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação (Rede Folkcom), na edição especial do Hora Folk transmitida nesta quarta-feira, 14 de outubro, com o tema “A cultura está em risco nessas eleições?”.


Conduzida pelo ilustrador e ativista cultural Anderson Awvas, criador do coletivo Folclore BR, a conversa reuniu também a ilustradora e quadrinista Lorena Herrero, conhecida como HET, e a historiadora Gláucia Garcia, ligada ao projeto Jangada Brasil. Os participantes manifestaram apoio a Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno e relacionaram suas preocupações com a candidatura de Flávio Bolsonaro às experiências do setor cultural durante o governo de Jair Bolsonaro.


Arte do Hora Folk com Lula, um boi-bumbá ornamentado e Flávio Bolsonaro, sob a pergunta: A cultura popular está realmente em risco?
Arte de divulgação da edição especial do Hora Folk. Imagem: reprodução/Folclore BR.

Estruturas que sustentam as manifestações


Lorena chamou atenção para consequências do enfraquecimento das políticas culturais que nem sempre aparecem no debate sobre orçamento. Na avaliação da ilustradora, a perda de equipes compromete cadastros, seleções, contatos com mestres e artesãos e o acompanhamento de iniciativas comunitárias. Ao abordar a redução das estruturas públicas, sintetizou: “É corte de gente”.


A discussão tem um antecedente institucional concreto. Em 2019, no início do governo Bolsonaro, a Cultura perdeu o status de ministério e passou a funcionar como secretaria. A pasta recuperou a condição ministerial em janeiro de 2023, com o início do terceiro governo Lula.


As disputas também alcançaram os instrumentos de financiamento. Em julho de 2022, o Congresso derrubou os vetos de Jair Bolsonaro às leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2, que previam repasses federais para ações culturais executadas por estados e municípios. As justificativas dos vetos incluíam restrições fiscais e orçamentárias; sua rejeição ocorreu após acordo entre lideranças e o governo. Entre as atividades contempladas pela Aldir Blanc estavam festas populares, feiras, festivais e manutenção de espaços culturais.


Para Lorena, são especialmente vulneráveis as manifestações menores, que dependem dessas redes de apoio e não dispõem da estrutura dos grandes eventos. Sem suporte, seus integrantes precisam ampliar o trabalho voluntário e retirar recursos do próprio sustento para manter as atividades.


O carnaval para além do retorno econômico


Andriolli Costa questionou os limites de uma defesa da cultura baseada apenas na geração de renda e empregos. Ao recordar as disputas sobre o financiamento do carnaval durante a gestão de Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, afirmou que “nunca é uma questão de dinheiro”. Para o pesquisador, a rejeição a determinadas manifestações pode envolver seus valores, pertencimentos e formas de organização.


Em junho de 2017, Crivella anunciou a redução pela metade da subvenção municipal às escolas de samba do Grupo Especial, de R$ 24 milhões para R$ 12 milhões, para o carnaval seguinte. A justificativa apresentada pela prefeitura era ampliar os repasses às creches conveniadas. As escolas contestaram a medida e destacaram o retorno econômico da festa: segundo números da própria administração municipal divulgados naquele momento, o carnaval de 2017 havia movimentado R$ 3 bilhões.


A interpretação de Costa sobre esse episódio enfatizou a dimensão política das festas. Em sua análise, o carnaval constitui um espaço de encontro e organização popular no qual circulam mensagens de resistência, críticas aos governos e reivindicações das comunidades. Essa circulação de sentidos aproxima o debate da Folkcomunicação e ajuda a compreender por que o valor dessas manifestações ultrapassa seus resultados financeiros. Na avaliação de Costa, sua capacidade de organizar comunidades e expressar críticas também ajuda a explicar a hostilidade de governos autoritários.


Cultura, organização popular e violência política


“Cultura e política são coisas inseparáveis”, afirmou Gláucia Garcia. Para a historiadora, apreciar uma manifestação cultural também exige reconhecer a trajetória das pessoas que a construíram. Na conversa, ela recorreu à história do Império Serrano para mostrar como o samba e a organização dos trabalhadores se desenvolveram em espaços compartilhados.


Fundada em 1947, no morro da Serrinha, no Rio de Janeiro, a escola teve entre seus fundadores trabalhadores portuários ligados à Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café. Criada em 1905, a entidade foi um dos primeiros sindicatos de maioria negra do país. A experiência de mobilização desses trabalhadores ajudou a estruturar a agremiação, aproximando a luta por melhores condições de trabalho da construção de espaços de convivência e expressão cultural.


Gláucia também lembrou que os conflitos políticos podem atingir violentamente os próprios produtores de cultura. Foi nesse contexto que recordou o assassinato de Mestre Moa do Katendê, capoeirista, compositor e educador morto em Salvador em 8 de outubro de 2018, após uma discussão motivada por divergências políticas, logo depois do primeiro turno das eleições. A lembrança deu um sentido concreto à preocupação levantada na live: defender as culturas populares envolve proteger a vida e a liberdade de quem as mantém.


“Se a cultura não tem importância pra política, por que que ela é tão perseguida?”, questionou a historiadora, ao relacionar o episódio à perseguição a artistas e manifestações culturais em contextos autoritários.


Ao abordar as condições de trabalho dos artistas, Gláucia também criticou a naturalização da precariedade. Lembrou as dificuldades enfrentadas por Cartola e argumentou que a capacidade de continuar criando diante das adversidades não elimina a responsabilidade do poder público de apoiar esses sujeitos. Em sua avaliação, a persistência da cultura popular não deve servir de justificativa para o abandono de seus produtores.


Diversidade cultural e intolerância religiosa


A intolerância religiosa atravessou a conversa. Lorena destacou que referências indígenas e de matriz africana fazem parte das experiências das comunidades que realizam as manifestações populares. Na avaliação dos participantes, pressões para eliminar esses elementos podem comprometer os sentidos das próprias tradições.


O problema encontra correspondência nos registros públicos. Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania divulgados em janeiro de 2025, o Disque 100 recebeu 2.472 denúncias de intolerância religiosa ao longo de 2024. Umbanda e candomblé estavam entre os segmentos mais frequentemente identificados nos registros.


Pesquisa e compromisso com as comunidades


Professor do Departamento de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Costa também abordou a universidade como espaço de produção cultural. Ao discutir a liberdade de ensino e pesquisa, lembrou que projetos de extensão constroem relações com diferentes grupos sociais e podem sofrer os efeitos de ambientes de intimidação e perseguição ideológica.


No encerramento, o presidente da Rede Folkcom retomou o posicionamento da associação em apoio a Lula. Para ele, a atuação pública dos pesquisadores precisa considerar as consequências das decisões políticas para as comunidades com as quais trabalham, convivem e constroem conhecimento.


“Não tem como a gente fechar os olhos para isso”, afirmou. Costa relacionou esse compromisso à coerência entre os princípios teóricos da Folkcomunicação e a atuação de quem pesquisa as culturas populares.


Assista à live


A edição completa está disponível gratuitamente no canal do Folclore BR no YouTube.



 
 
 

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