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Livro de Flávio Santana chega à final do Prêmio Jabuti Acadêmico

14 de ago.
5 min de leitura

Obra sobre marisqueiras, catadores de caranguejo e as contradições da identidade cultural de Aracaju ficou entre as cinco finalistas da categoria Comunicação e Informação



Uma pesquisa iniciada entre a lama, as raízes do manguezal e as experiências de uma comunidade sergipana chegou à final de uma das principais premiações brasileiras dedicadas à produção científica.


O livro Sobre vivência com caranguejos: entre as raízes dos manguezais e as pontes para Aracaju, de Flávio Santana, ficou entre os cinco finalistas da categoria Comunicação e Informação do 3º Prêmio Jabuti Acadêmico. Publicada pelo selo Pluralidades, a obra transforma uma pesquisa de mestrado em uma narrativa sobre território, trabalho, memória e desigualdade.


Integrante da Rede Folkcom, Flávio dividiu a relação de finalistas com A razão desumana, de Eugênio Bucci; Cartografias informacionais, organizado por Dirnéle Carneiro Garcez, Franciéle Carneiro Garcês-da-Silva e Leyde Klebia Rodrigues da Silva; Crime sem castigo, de Juliana Dal Piva; e História dos jornais no Brasil: 1840–1930, de Matías M. Molina.

A seleção oficial foi divulgada pela Câmara Brasileira do Livro depois de uma etapa que reuniu dez semifinalistas. O resultado colocou a pesquisa de Santana entre obras dedicadas à desinformação, às perspectivas decoloniais, à memória do jornalismo brasileiro e à violência política durante a ditadura.


Quem escolheu o caranguejo como símbolo?

O livro nasceu da dissertação defendida por Flávio em 2020, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo. A pesquisa começou com o interesse pelas representações midiáticas do caranguejo, reconhecido como um dos símbolos culturais e gastronômicos de Aracaju.


Ainda durante a preparação do projeto, duas perguntas formuladas por seu orientador, José Marques de Melo, alteraram o caminho da investigação: quem havia escolhido o caranguejo como símbolo da cidade e de que maneira aquela pesquisa poderia contribuir para o desenvolvimento da região?


Ao procurar as respostas, Flávio encontrou uma contradição. Aracaju celebra o caranguejo em sua gastronomia, no turismo, na publicidade e nos espaços urbanos. Ao mesmo tempo, a expansão da cidade ocorreu sobre áreas de mangue e contribuiu para transformar o ambiente do qual o animal e muitas famílias dependem.


A imagem consumida nos restaurantes e apresentada aos turistas não mostrava necessariamente as condições vividas por quem entrava no mangue, retirava dali o próprio sustento e fazia o caranguejo chegar à capital.


A pesquisa deslocou-se, então, das representações oficiais para o povoado Coqueiro, em São Cristóvão, na Região Metropolitana de Aracaju. No território, Flávio acompanhou marisqueiras e catadores de caranguejo e observou como trabalho, conhecimento ambiental, memória familiar e pertencimento comunitário se encontram.

O caranguejo deixou de aparecer somente como um símbolo cultural. Passou a revelar relações entre sobrevivência, degradação ambiental, circulação de mercadorias e desigualdade social.


Uma pesquisa construída com a comunidade

A transformação da dissertação em livro ocorreu cinco anos depois da defesa. Em vez de simplesmente reproduzir o texto acadêmico, Flávio reorganizou a narrativa, escreveu em primeira pessoa e incorporou experiências do trabalho de campo que não haviam entrado na versão original.


O título explora a aproximação entre sobrevivência e experiência vivida. “Sobre vivência” aponta tanto para as estratégias utilizadas por marisqueiras e catadores para garantir sua subsistência quanto para os conhecimentos construídos cotidianamente no contato com o manguezal.


As raízes e as pontes mencionadas no subtítulo também possuem sentidos concretos e simbólicos. As raízes remetem ao mangue, à ancestralidade e aos vínculos estabelecidos com o território. As pontes representam os deslocamentos entre o povoado e Aracaju, percorridos por trabalhadores, alimentos, narrativas e mercadorias.


A publicação procura devolver centralidade às pessoas que conhecem o manguezal por meio do próprio corpo. São saberes desenvolvidos na observação das marés, dos ciclos dos animais, das condições da lama e das mudanças ambientais.


Nesse sentido, o livro se aproxima da Folkcomunicação não apenas por estudar um elemento da cultura sergipana. A perspectiva folkcomunicacional aparece principalmente no reconhecimento das comunidades populares como produtoras de conhecimento, interpretações e formas próprias de comunicação.


Uma orientação que permaneceu na pesquisa

A trajetória do trabalho também está ligada à memória de José Marques de Melo. Flávio foi seu último orientando de mestrado. A morte do professor, ocorrida em 2018, interrompeu a convivência acadêmica antes da conclusão da dissertação, mas as perguntas formuladas no início continuaram orientando o estudo.


Mais do que solicitar uma descrição das imagens do caranguejo, Marques de Melo provocou o pesquisador a observar os interesses envolvidos na construção de um símbolo regional e a responsabilidade social do trabalho acadêmico.


Essa orientação fez com que a pesquisa atravessasse as pontes entre a universidade e a comunidade, entre as representações midiáticas e as condições materiais de vida.

O livro foi lançado durante a Folkcom 2025, realizada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Na ocasião, Flávio concedeu uma entrevista à pesquisadora Claudiene Costa, na qual apresentou o processo de investigação e recordou sua aproximação com José Marques de Melo e com a Rede Folkcom.


A participação no evento marcou também um retorno. Flávio havia apresentado seu primeiro trabalho na Conferência Brasileira de Folkcomunicação em 2017, no Recife, quando recebeu uma premiação por seu artigo. Oito anos depois, voltou à Folkcom com o livro resultante de uma trajetória acadêmica iniciada naquele campo de interlocuções.


Reconhecimento para uma pesquisa das margens

O Prêmio Jabuti Acadêmico foi criado em 2024 pela Câmara Brasileira do Livro para reconhecer obras acadêmicas, científicas, técnicas, profissionais e didáticas. Em sua terceira edição, a premiação recebeu livros publicados pela primeira vez em 2025.

A presença de Sobre vivência com caranguejos entre os cinco finalistas de Comunicação e Informação ampliou a circulação de uma pesquisa dedicada a sujeitos que costumam permanecer fora das representações oficiais da cidade.


A cerimônia de premiação foi realizada em 11 de agosto de 2026, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. O primeiro lugar da categoria ficou com Crime sem castigo: como os militares mataram Rubens Paiva, da jornalista Juliana Dal Piva, publicado pela Matrix. A organização não divulga a classificação dos demais concorrentes.


O reconhecimento como finalista, entretanto, já inscreve o livro de Flávio entre as obras de destaque da produção acadêmica brasileira de Comunicação em 2026. Também evidencia a capacidade de uma pesquisa relacionada à Folkcomunicação de participar dos debates mais amplos do campo ao aproximar cultura, mídia, território, trabalho e justiça ambiental.

O percurso do livro parte de uma pergunta aparentemente simples sobre a escolha de um símbolo turístico. Ao chegar ao manguezal, encontra pessoas, conhecimentos, conflitos e formas de resistência.


É justamente esse deslocamento — da imagem do caranguejo para as vidas de quem depende dele — que fez a pesquisa atravessar as pontes entre o povoado Coqueiro, Aracaju e a final do Jabuti Acadêmico.


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