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“Foi de fato um reencontro”: Intercom 2022 marca retorno presencial da Folkcomunicação

10 de set. de 2022
5 min de leitura

Grupo apresentou 14 trabalhos na UFPB e retomou o convívio interrompido pela pandemia; programação reuniu debates sobre cultura popular, mídias digitais, ativismo e desinformação



O 45º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação marcou o reencontro presencial de pesquisadores e pesquisadoras da Folkcomunicação depois de dois anos de atividades remotas. Realizado entre 5 e 9 de setembro de 2022, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, o Intercom 2022 teve como tema “Ciências da Comunicação contra a Desinformação”.


A retomada ultrapassou o retorno às salas de apresentação. Para uma comunidade científica caracterizada pela proximidade entre seus integrantes, o congresso devolveu a possibilidade da conversa presencial, da troca de experiências e do planejamento coletivo. A cobertura produzida pela organização local registrou o credenciamento, os debates e os reencontros que marcaram o primeiro dia do evento.


No triênio 2022-2024, o GP Folkcomunicação era coordenado por Marcelo Sabbatini e Betania Maciel. Ao avaliar o encontro, Sabbatini resumiu o significado daquela retomada: “Foi de fato um reencontro”. Segundo ele, o Intercom proporcionou o primeiro momento de interação e troca pessoal do grupo depois do hiato provocado pela pandemia.

A

avaliação também destacou a presença conjunta de pesquisadores experientes, vinculados à história da área, e de novos participantes, responsáveis por acrescentar objetos e perspectivas ao campo. A Intercom registrou que os 14 trabalhos submetidos ao GP foram aprovados e apresentados.


Dos folhetos de cordel ao ativismo indígena nas redes

Os 14 trabalhos apresentados em João Pessoa revelaram um campo dividido entre dois movimentos complementares: o retorno aos fundamentos de Luiz Beltrão e a busca por instrumentos capazes de compreender práticas comunicacionais surgidas ou transformadas no ambiente digital.


A revisão teórica apareceu em “A teoria beltraniana em perspectiva: Trajetória, fundamentos e contribuições atuais da folkcomunicação”, de Guilherme Moreira Fernandes e Karina Janz Woitowicz. O artigo recuperou conceitos como marginalidade, comunicação artesanal e horizontalidade para discutir a atualidade da teoria. Anaelson Leandro de Sousa também percorreu esse caminho ao aproximar o pensamento de Beltrão das Representações Sociais de Serge Moscovici. Já Alberto Magno Perdigão Silveira transformou o cordel em ponto de partida para uma crítica às hierarquias culturais, questionando o que acontece quando o adjetivo “popular” funciona menos como reconhecimento e mais como forma de enquadrar e diminuir uma produção literária.


A disputa pela visibilidade das culturas populares atravessou outros trabalhos. Karina Janz Woitowicz discutiu como os valores de mercado e as rotinas do jornalismo cultural contribuem para o apagamento das manifestações populares. Kenzo Soares Seto investigou as transformações das culturas tradicionais do Rio de Janeiro a partir dos grupos participantes de um festival apoiado pela Lei Aldir Blanc durante a pandemia. Em outra direção, Iago Fillipi Patrocínio Macedo e Maria Érica de Oliveira Lima observaram a presença sul-coreana em Fortaleza para compreender os encontros, as tensões e as formas de hibridização produzidas pela imigração e pela circulação do K-Pop.


O tema geral do congresso, “Ciências da Comunicação contra a Desinformação”, ganhou respostas diretas dentro do GP. Betania Maciel discutiu a circulação de boatos, a desonestidade e os mecanismos sociais que sustentam as fake news. Cristina Schmidt encontrou no bordado político uma mídia de resistência: linhas, tecidos e frases bordadas foram analisados como suportes de memória, ativismo e enfrentamento à desinformação.

As plataformas digitais, entretanto, não apareceram apenas como ambientes de conflito.


Andréa Karinne Albuquerque dos Santos e Anna Raquel de Lemos Viana acompanharam a repercussão de raios, trovões e relâmpagos no Twitter para mostrar como um acontecimento atmosférico incomum mobilizou humor, medo, pertencimento e relações de proximidade entre moradores de João Pessoa. José Roberto Vieira e Júnia Mara Dias Martins voltaram-se para outro tipo de vínculo ao investigar como as conversas pelo WhatsApp poderiam reduzir o sentimento de solidão entre pessoas idosas.


Em “Mídia Índia: ciberativismo, resistência e identidade indígena na internet”, Waldélio Pinheiro do Nascimento Júnior apresentou as redes como território de afirmação das identidades indígenas. O estudo mostrou comunicadores de diferentes etnias produzindo suas próprias narrativas para enfrentar a violência, a invisibilidade e as representações preconceituosas difundidas pela mídia tradicional.


As relações entre mercado, identidade e cultura regional também entraram na pauta. Flávio Menezes Santana, Marco Antônio de Oliveira Tessarotto e Vinícius da Silva Coutinho analisaram como a cerveja Berrió mobilizava o caju, o calor, a linguagem e o sentimento de pertencimento dos piauienses em suas estratégias de folkmarketing no Instagram. A pesquisa chamou atenção para uma questão recorrente no campo: o limite entre dar visibilidade aos repertórios locais e transformar a cultura popular em argumento de venda.


O audiovisual completou o panorama. Marcelo Pires de Oliveira e Beatriz Corrêa Pires Dornelles propuseram o conceito de documentário folkcomunicacional, articulando Folkcomunicação e História Oral para registrar as experiências de grupos pouco representados nos documentos oficiais. Marcelo Sabbatini, por sua vez, investigou documentários esportivos distribuídos por plataformas digitais e as formas pelas quais jogos tradicionais e folkesportes são apresentados ao grande público, entre o diálogo com as comunidades e a tendência à espetacularização.


Vistos em conjunto, os trabalhos mostraram que a Folkcomunicação chegava ao reencontro presencial de 2022 sem abandonar seus objetos históricos, mas disposta a acompanhá-los em novas materialidades. O folheto de cordel passou a dividir espaço com o Twitter, o WhatsApp, o Instagram, o streaming, o bordado político e o ciberativismo indígena. Mudaram os meios e os ambientes, mas permaneceram no centro das discussões as disputas por voz, pertencimento, reconhecimento e visibilidade.


Jornada Beltraniana colocou a desinformação no centro

O reencontro começou em 5 de setembro com a V Jornada Beltraniana, organizada pela Rede Folkcom e coordenada por Guilherme Moreira Fernandes e Cristina Schmidt. Com o tema “Folkcomunicação contra a desinformação”, a jornada ocupou os turnos da manhã e da tarde no campus da UFPB.


A programação oficial organizou as discussões em quatro frentes: a Folkcomunicação como instrumento da informação jornalística; a folkmídia e os grupos marginalizados durante a crise pandêmica; as relações entre folkpolítica, eleições e polarizações culturais; e os processos comunicacionais presentes em comunidades e movimentos de defesa da vida.

Participaram dessas discussões Guilherme Moreira Fernandes, Antonio Carlos Hohlfeldt, Cristina Schmidt, Iluska Coutinho, Osvaldo Trigueiro, Eliane Mergulhão, Marcelo Pires de Oliveira, Andréa Karinne Albuquerque dos Santos, Marcelo Sabbatini, Roberto Faustino, Juliano Domingues, Anaelson Leandro de Sousa, Júnia Martins, Betania Maciel, Júnior Pinheiro e Cidoval Morais de Sousa.


O encontro presencial também foi utilizado para avaliar a permanência e a capacidade de produção do GP. Os pesquisadores discutiram formas de antecipar o planejamento das atividades seguintes e de colocar em prática propostas surgidas durante a reestruturação dos grupos da Intercom, realizada em 2021. Naquele processo, o campo havia ampliado seu horizonte para incorporar temas como ancestralidade, decolonialidade, ativismo digital e questões ambientais.


Mais do que retomar uma rotina interrompida, o Intercom 2022 evidenciou a capacidade da Folkcomunicação de articular sua tradição teórica com problemas urgentes. O reencontro em João Pessoa aproximou memória e renovação, cultura popular e plataformas digitais, relações de afeto e disputas políticas — elementos que continuam sustentando a presença da área no principal congresso brasileiro de Comunicação.

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