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Tradição gaúcha é tema no I Folkcom

12 de ago. de 1998
4 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Autoria original: Conceição A. Sanches


Devemos incentivar o cultivo de nossas raízes, pois quem as conhece pode até perder os valores materiais, mas jamais permitirá o desaparecimento de sua identidade. (Paulo Dutra)


Em 14 de agosto, a sessão plenária da 1ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, coordenada pelo professor Dr. Isaac Epstein, discutiu as apropriações do folclore pelos meios de comunicação de massa e pelo turismo.


O Presidente da Secção Estadual do Rio Grande do Sul e Delegado Seccional do Cioff, Conselho Internacional das Organizações de Festivais Folclóricos e Artes Tradicionais, Paulo Dutra, falou sobre a entidade e apresentou vídeo ilustrando o folclore, a tradição e a cultura gaúchas.


O Cioff, que mantém relações com a Unesco, foi criado durante a Guerra do Vietnã, com o objetivo de promover a paz congregando e motivando a juventude em torno do folclore, expandindo-se posteriormente pelo mundo e contando, atualmente, com representações em mais de 70 países.


Embora a Seccional do Cioff do Rio Grande do Sul tenha surgido recentemente, em maio de 1992, já realizou três edições do Festival Internacional do Folclore. O primeiro, denominado Encontro de Dois Mundos, ocorreu em 1992 e teve como tema os 500 anos de descobrimento da América. O de 1995 comemorou os vinte e cinco anos do Cioff Mundial e os 138 anos da fundação da cidade de Passo Fundo.


O Festival Internacional do Folclore de Passo Fundo demonstra a capacidade de organização e envolvimento da comunidade em valorizar a história de suas origens, fazendo com que a repercussão econômica e cultural do evento revertam em benefício da própria sociedade passo-fundense.


As festividades incluem desfiles de rua, festas típicas, palestras sobre temas regionais, espetáculos de dança tradicional e oferecem a possibilidade de saborear as riquezas da culinária gaúcha.


Além disso, ainda contam com a presença de grupos folclóricos convidados, o que possibilita o conhecimento de outras realidades e o contato com as culturas de povos distantes. Quem é o gaúcho?


Foi no século XVI que os padres jesuítas espanhóis chegaram ao Rio Grande do Sul com o propósito de pacificar e catequizar as diversas nações indígenas que ali viviam. Posteriormente, europeus de muitas outras nacionalidades foram adotando a terra e nela se fixando.


Quando a cultura do gado foi introduzida no Pampa, nome dado à planície de vegetação rasteira característica do sul do país, surgiu o Peão das Vacarias que, mais tarde se transformou no Senhor das Vacarias, dono de terras e de gado, mais conhecido pelo nome de estancieiro, que constituiu uma nova classe social.


Entre 1820 e 1870, por decorrência de fatores histórico-sociais, emerge a figura do pastor-soldado, popularmente conhecido por caudilho.


Refletindo a vida e a alma desse homem, com ele se constrói toda uma cultura, ricamente representada pelas danças típicas, sempre presentes no seu cotidiano e que se dividem em três grandes grupos: Sem sapateio, como a do Pau-de-Fita; Com sapateio, a exemplo do Tatu-de-Castanhola; e as Masculinas como a Chula e a Dança dos Facões.


Como acompanhamento dessas danças, um vasto acervo de tradição oral se consolidou por gerações até o presente. A oralidade sempre funciona como esteio de sustentação dos grupos humanos, porém, no caso específico do gaúcho, a coesão da comunidade pelo patrimônio oral assume características singulares, quer por decorrência de fatores histórico-culturais, quer pela privilegiada beleza natural da região. Exemplo disso são os adágios, as adivinhações, as trovas, os “causos” e as lendas. Os versos da Dança dos Facões são uma pequena demonstração de tudo isso somado ao linguajar característico do povo do Rio Grande do Sul:


Moçambique e Congadas Vindo do solo africano, Mescla de sangue pampeano Com raças desencontradas Maculelês, batucadas Ritmo negro e ilhéu Debaixo do mesmo céu Curtiram mesmos clarões, Reacendem-se os tições Brilho de fogo no azul Vibra o Rio Grande do Sul, Com a Dança dos Facões.


Não só nas danças e nas músicas, mas também em outras formas de expressão, como as brincadeiras infantis e a culinária, a cultura regional se perpetuou transmitindo valores sociais, morais e comportamentais, como o de preservação das criações artísticas populares, dos costumes e das tradições. Além disso, propaga informações indispensáveis ao cotidiano, como o conhecimento de hábitos alimentares e da medicina natural, fazendo com que o homem nativo tenha uma socialização que abarque uma universalidade de temas que lhe garantam o sentimento de inserção no contexto histórico-social.


O consagrado escritor Érico Veríssimo, representante gaúcho do regionalismo modernista, soube descrever a identidade desse povo em suas obras. A trilogia épica O Tempo e o Vento constitui um painel do passado histórico do Rio Grande do Sul entre o século XVII e o governo Vargas. Nos volumes O Continente, O Retrato e O Arquipélago são abordados os processos de formação cultural e de fixação do homem na terra. É de Veríssimo a seguinte descrição da figura tradicional do gaúcho:


Um dia, chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. (...) montava um alazão, vestia calça de riscado, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dolmã militar azul com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1928 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou (..) amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas , batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando:


-Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!


Conceição A. Sanches é professora e mestranda em Comunicação Social da UMESP.


Fonte: Enfolkcom, outubro de 1998, pp. 49–51. Revista produzida por alunos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com a cobertura da 1ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada de 12 a 14 de agosto de 1998.


Esta republicação integra o acervo histórico da Rede Folkcom. A data de publicação deste post corresponde à abertura da conferência, em 12 de agosto de 1998.


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