A origem das Festas Juninas
Atualizado: há 1 dia
Autoria original: Osvaldo Meira Trigueiro
No mês de junho, ocorre uma das festas mais tradicionais do catolicismo popular em todo o Brasil, especialmente na região nordestina. São os festejos do ciclo junino, em homenagem aos três santos: Santo Antônio, comemorado no dia 13; São João Batista, no dia 24; e São Pedro, no dia 29. A noite de São João é, sem dúvida, a mais festejada.
A celebração tem a sua origem na tradição pagã dos povos da Europa, Ásia e África, que festejavam as divindades protetoras da fertilidade e da colheita quando se aproximava a chegada do verão no Hemisfério Norte e que foram transportadas para o calendário católico.¹
Não é apenas uma coincidência a data hagiográfica dos festejos juninos. Os antigos rituais agrários, no Velho Mundo, por ocasião do solstício de verão (que ocorre entre os dias 22 e 23 de junho), marcavam o início da colheita dos cereais. A relação do homem com a terra era muito forte e os ritos de fertilidade do plantio também estavam associados à fertilidade humana. Plantar e colher era mais que um ato profano. Benjamim, afirma: “A Igreja Católica situou a festa de São João nas proximidades da mudança de estação (solstício de verão) procurando absorver os cultos agrários pagãos. Para a hierarquia da igreja a festa de São João constitui uma antecipação do anúncio do Advento, considerando o papel de João Batista, como precursor de Cristo”.
As práticas de antigas hierofanias em homenagem ao sol de verão pelos povos da Europa estão incorporadas aos vários sistemas religiosos da atualidade. Passaram pelos tempos e chegam de formas diferentes, mas conservando suas arcaicas manifestações representadas no nosso folclore.
Os rituais de celebração dos povos antigos da Europa, para demonstrar o seu amor pelas colheitas, que ocorriam no período do final do inverno e início do verão, que nós aqui denominamos de “o mês de São João”, eram verdadeiras lutas entre as forças do bem contra as do mal. Neste período os andarilhos do bem (benandanti) saíam armados com galhos de erva-doce e alho para enfrentar os feiticeiros e as bruxas, que com suas pragas ameaçavam a colheita de cereais. O desenrolar da batalha entre essas forças simbolizava a passagem do inverno para o verão e caso o bem fosse vencido o ano seria de muita fome, doenças e miséria. Quando os benandanti venciam a contenda, o ano era de fartura. Eram festividades de origem pagã ligadas ao calendário agrário e que ao longo dos tempos foram sendo passadas para o calendário cristão, sendo difundidas em toda a civilização da Europa e trazidas para o Brasil pelos portugueses. Diz Ginzburg³ que “O contraste entre combater por amor das colheitas e combater pela fé cristã é gritante. Nessa religiosidade popular tão compósita, formada por contribuições variadíssimas, tal sincronismo certamente não chega a provocar espanto. Mas somos levados a indagar o porquê dessa cristianização dos ritos agrários praticados pelos benandanti?”. Esses rituais praticados pelos andarilhos do bem (benandanti) foram proibidos pela Igreja e os seus praticantes sujeitos ao julgamento da Inquisição.
1 TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. Cartilha paraibana: aspectos geo-históricos e folclóricos. João Pessoa, Grafset, 1993. 2 BENJAMIM, Roberto. Ciclo junino. Recife, Prefeitura da Cidade do Recife, 1987. 3 GINZBURG, Carlo. Os Andarilhos do bem: feitiçaria e cultos agrários no século XVI e XVII. São Paulo, Companhia das Letras, 1988.
Dr. Oswaldo Trigueiro é professor titular do Curso de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Fonte: Enfolkcom, outubro de 1998, pp. 42–43. Revista produzida por alunos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com a cobertura da 1ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada de 12 a 14 de agosto de 1998.
Esta republicação integra o acervo histórico da Rede Folkcom. A data de publicação deste post corresponde à abertura da conferência, em 12 de agosto de 1998.


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