Em Mato Grosso do Sul tem siriri e cururu
Atualizado: há 1 dia
Autoria original: Desirée Rabelo
“O estado de Mato Grosso do Sul, é o lugar onde o Brasil foi Paraguai”, canta Almir Sater. Mas, nesse rincão de sonhos guaranis sobrevivem também festas folclóricas que só agora começam a ser redescobertas e documentadas graças aos trabalhos como o da professora do Curso de Educação Artística da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Marlei Sigrist. Ela tem se dedicado à divulgação do folclore local, ainda praticamente desconhecido. “Sinto uma grande tristeza quando as professoras daqui contam que trabalham o folclore a partir da realidade das crianças. Só que essa realidade é a do Nordeste, da Amazônia e nunca a do local”. Para mudar essa situação, Marlei coletou, por exemplo, a história da Festa dos Santos Reis, que acontece nas cidades de Parnaíba, Inocência e Aparecida do Taboado. Registrou o evento em fotos e vídeo que foram transformados em material didático de uso escolar.
Mas a maior pesquisa de Marlei, concluída recentemente como parte de sua dissertação de mestrado, foi sobre a Festa do Divino, realizada na Pontinha do Cocho, um distrito do Município de Camapuã, situado a 284 quilômetros da capital, Campo Grande.
Segundo a pesquisadora, a festa criada em 1913 como pagamento de promessa, persiste até hoje mantendo seus traços originais. Isso porque é difícil o acesso até o local e somente esse ano chegou a energia elétrica que vai possibilitar a instalação da televisão. A primeira “intromissão” externa na festa foi a da própria Marlei, que acompanhou por dois anos todo o ritual que dura quinze dias.
Partindo de Patrimônio de Santa Teresa, fazenda que promove a festa, uma procissão de dezesseis foliões visita as fazendas vizinhas, com rituais específicos em cada etapa — tanto para os foliões como para os anfitriões. O auge da festa acontece no sábado próximo ao 50º dia após a Páscoa, numa grande cerimônia aberta onde o rosário é cantado e o mastro erguido pela comunidade. Só ao final da parte religiosa e da dança da catira é que tem início a parte profana, com um grande baile.
Como ainda não existem turistas nem a mídia por perto, todo trabalho de organização da festa é voluntário e não se paga nada no grande churrasco do último dia: é a comunidade que doa tudo que é necessário.
São João de Corumbá
Mas nem todas as festas que ocorrem no Estado de Mato Grosso do Sul conservam essa originalidade e gratuidade, afirma Marlei. A mesma Festa do Divino, realizada em Coxim, foi assumida pela Igreja Católica e está totalmente descaracterizada. Restou apenas o mastro que faz um pequeno cortejo da cerimônia original.
Outro festejo tradicional que precisa ser repensado em suas formas de apresentação, segundo a professora, é o de São João, realizado em Corumbá. A festa de grande tradição e destaque regional já conta com a participação da Prefeitura, das agências de turismo e das indústrias de bebidas que incentivam a vinda de turistas para a ocasião. O resultado é que os personagens principais da festa, os cururueiros, tocadores que improvisam ao som de violas de cocho feitas por eles mesmos, praticamente ficam perdidos na grande multidão. Também a dança do siriri, típica da festa, acaba deslocada, segundo Marlei.
A pesquisadora alerta que se são justamente esses personagens que trazem a originalidade da festa, eles deveriam ser valorizados. Mas, infelizmente, segundo ela, o patrocínio oficial ou mesmo o das empresas que apóiam e promovem o evento, nunca tem verba para estimular os artistas populares, que também têm seus gastos com roupas, deslocamentos e alimentação. Com essa falta de incentivo e valorização, aos poucos cururueiros e siririzeiros vão desaparecendo.
Desirée Rabelo é jornalista e doutoranda em Comunicação Social da UMESP.
Fonte: Enfolkcom, outubro de 1998, pp. 31–32. Revista produzida por alunos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com a cobertura da 1ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada de 12 a 14 de agosto de 1998.
Esta republicação integra o acervo histórico da Rede Folkcom. A data de publicação deste post corresponde à abertura da conferência, em 12 de agosto de 1998.


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