Retroalimentação depende do domínio dos códigos
Atualizado: há 1 dia
Autoria original: Patrícia Ozores Polacow
A professora Rosa Maria Dales Nava apresentou no painel II, do dia 13, seu trabalho Pensamento Comunicacional Latino-americano de Luiz Beltrão.
Refletindo sobre as contribuições de Luiz Beltrão às Ciências da Comunicação nos âmbitos teórico e metodológico, a professora Rosa Nava divide em dois momentos a produção científica do pioneiro dos estudos de comunicação no Brasil: o primeiro, resultado da preocupação do professor, pode ser representado pelo conjunto de obras que retratam a sensibilidade e o dinamismo profissional priorizando o preparo e a formação do jornalista para o exercício da atividade. Num segundo momento, ela destaca o amadurecimento e a evolução do cientista em suas reflexões que denotam independência científica de modelos consagrados, preservando o rigor científico de observação e análise (o pensamento de Luiz Beltrão configura-se clássico — no sentido de perenidade — e inovador — no sentido de análise e pesquisa).
Beltrão usou de criatividade na releitura das teorias clássicas, sendo pioneiro ao relacioná-las às realidades brasileira e latino-americana. O pensamento de Luiz Beltrão despiu-se de influências.
Folkcomunicação
Segundo Beltrão, a folkcomunicação é a teoria da retroalimentação entre culturas e possibilidade de integração pelo conhecimento de códigos. É esse o viés adotado pela professora Rosa em seu trabalho. Ela considera que a folkcomunicação em seu sistema, resulta de atividade artesanal do agente-comunicador, embora use em certos casos, modalidades e canais industrializados.
No pensamento de Beltrão, a figura do agente-comunicador (ou líder de audiência) é o elemento responsável pelo desenvolvimento do processo de comunicação horizontal, que acontece por meio de um intermediário próprio que levará as mensagens aos usuários característicos. “Sem o que Beltrão chama de mediário, a difusão e recepção só poderão acontecer se o destinatário dominar o código e a técnica, na emissão ou na resposta”, diz a professora Rosa.
Os grupos de recepção são divididos por Beltrão em três categorias: grupos rurais marginalizados (sobretudo devido ao seu isolamento geográfico, penúria econômica e baixo nível intelectual), grupos urbanos marginalizados (compostos por indivíduos situados nos escalões inferiores da sociedade, constituindo as classes subalternas, desassistidas, subinformadas e com mínimas condições de acesso) e grupos culturalmente marginalizados (urbanos ou rurais, que representam contingentes de contestação aos princípios, à moral ou à estrutura social vigente). Cada um desses grupos tem seu próprio vocabulário e sintaxe, que serão usados como código pelo agente-comunicador, no canal disponível para que o público possa receber e decodificar a mensagem. E aquilo que é imposto, não é reconhecido pelo receptor.
A professora resume que o campo de pesquisa da folkcomunicação situa-se num determinado espaço, ou linha divisória, entre o Folclore (difusão de conhecimento para/da cultura popular à audiência conhecida) e a Comunicação de Massa (difusão para audiência anônima via indústria cultural, canais ou veículos industrializados).
Finalizando seu trabalho, a pesquisadora considera: “Beltrão iniciou o estudo científico da folkcomunicação na análise dos fenômenos da recodificação popular de mensagens da comunicação de massa. Esse campo de pesquisa ampliou-se para a análise do processo bidirecional — a indústria cultural apropriando-se da cultura popular como retroalimentação — com o trabalho de novos pesquisadores de folkcomunicação”.
Patrícia Ozores Polacow é Jornalista e mestranda em Comunicação Social da UMESP.
Fonte: Enfolkcom, outubro de 1998, pp. 27–28. Revista produzida por alunos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com a cobertura da 1ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada de 12 a 14 de agosto de 1998.
Esta republicação integra o acervo histórico da Rede Folkcom. A data de publicação deste post corresponde à abertura da conferência, em 12 de agosto de 1998.


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