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A tradição popular na mídia piracicabana

12 de ago. de 1998
5 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Autoria original: Patrícia Ozores Polacow


Os professores Adolpho Queiroz, da UMESP, e Maria Teresa Sokolowski Queiroz, Universidade Metodista de Piracicaba, realizaram uma pesquisa para identificar na mídia as manifestações da tradição folclórica da cidade de Piracicaba. O resultado desse trabalho foi apresentado no painel II, do dia 13 de agosto, na 1ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação.


Piracicaba é uma cidade de larga tradição de manifestações da cultura popular. São exemplos o cururu e o desafio, a moda de viola, as danças (a catira e o carnaval de rua), as festas religiosas (a Festa do Divino Espírito Santo e a Festa de São João de Tupi), e o próprio linguajar local — o dialeto “caipiracicabano” (expressão cunha pelo folclorista João Chiarini para designar o “r” reflexo, explicado pelos lingúistas como característica idiomática regional). No espaço das artes plásticas, pintores renomados gravaram em tela o cenário das festas populares. Por sua vez, os “Bonecos do Elias” resgatam as raízes da tradição pesqueira, montados ao longo do rio, dando a impressão de serem pessoas.


Toda essa riqueza da tradição mereceu uma cuidadosa sistematização: a produção de livros, artigos e a recente organização de uma biblioteca temática sobre folclore na cidade. Piracicaba também dispõe de um centro fomentador da cultura nativa, o “Centro do Folclore de Piracicaba”.


O estudo dos professores Queiroz e Teresa procurou enfocar os aspectos particulares da cultura popular de Piracicaba na mídia local. Para isso, buscaram os momentos mais significativos da manifestação folclórica da cidade em expressões da mídia (emissoras de rádio, televisão, jornais e revistas).


O folclore impresso


João Chiarini e Hugo Pedro Carradore são alguns dos historiadores e folcloristas que tomaram a iniciativa de registrar e estudar as manifestações populares da região. Graças ao seu trabalho - a produção de livros, revistas, ensaios e artigos — Piracicaba dispõe de um bom acervo sobre a temática.


João Chiarini, jornalista e advogado, dedicou toda a sua vida ao folclore, às letras e à polêmica jornalística. “Chiarini escreveu inúmeros artigos, correspondeu-se com boa parte da inteligência nacional, foi palestrista e colecionou ao longo da vida um grande acervo de publicações”, conta Queiroz. Com sua morte, esse acervo passou às mãos do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, que posteriormente o doou à Universidade Metodista de Piracicaba. Hoje uma ala especial da biblioteca da Unimep acondiciona os livros, revistas, revistas de cordel, fotos, slides e documentos pessoais de Chiarini, que podem ser consultados pelo público.


Hugo Pedro Carradore é considerado o sucessor de João Chiarini. É autor de livros sobre folclore, jogo do bicho, tradições de Piracicaba e lendas locais. Animador de festas, palestrista e ensaísta, é um dos difusores mais entusiastas do tema na imprensa local. Carradore assinou, por quase vinte anos, a página dominical Folclore, do jornal O Diário de Piracicaba.


Outras contribuições, como a do jornalista Cecílio Elias Neto, ajudam na divulgação e manutenção dessa tradição. Um dos trabalhos mais conhecidos do jornalista é a organização, em livro, das expressões idiomáticas peculiares do falar “caipiracicabano”: Arco, Tarco, Verva.


“Os jornais e revistas da cidade procuram difundir o gosto pelos aspectos folclóricos”, diz o professor Queiroz. As matérias sistemáticas fazem parte da rotina das pautas. Um exemplo é a cobertura anual da Festa do Divino e da Festa de São João de Tupi. Cadernos especiais, suplementos, encartes e publicidade divulgando as manifestações recebem apoio e espaço permanente na imprensa local. Os jornais de bairro também têm parte nesse trabalho: o jornal Gazeta da Cidade Alta, que circula no bairro Cidade Alta, é o principal divulgador e estimulador da Malhação do Judas, nesse bairro.


O folclore no rádio


O apoio dado pelo rádio à manutenção e divulgação do folclore da região também é indiscutível, segundo o professor. A Rádio Difusora de Piracicaba, por exemplo, manteve por trinta e seis anos o programa dominical Cururu, apresentado ao vivo por Nhô Serra, um dos cururueiros mais tradicionais de Piracicaba. A FM Municipal deu continuidade ao programa, quando este deixou de ser apresentado na Difusora. Com o nome Rancho do Gaiola, era apresentado desde o estacionamento de um cantador da nova geração, o Gaiola. Em 1998 o programa Cururu voltou a ser apresentado pela FM Municipal, aos sábados à tarde.


O Sesc — Serviço Estadual dos Trabalhadores em Estabelecimentos Comerciais — também cede espaço para as manifestações do cururu e das danças típicas da cidade. Foi no auditório do Sesc onde Nhô Serra e Zico Moreira gravaram seu último show. “Talvez seja a primeira vez que o cururu é “aprisionado” em um CD”, pondera o professor Queiroz, “e é provavelmente a última lembrança da arte de ambos, feita com recursos da iniciativa privada”.


Folclore e televisão


Na televisão, o tema do folclore tem presença mais modesta. Cantores são entrevistados esporadicamente. Mas a pauta das festas populares, via de regra, é explorada pelas emissoras locais e regionais.


Logo que entrou em funcionamento, nos anos 80, a Empresa Paulista de Televisão (EPTV - subsidiária da Rede Globo em Campinas), empenhou-se em fazer a cobertura da Festa do Divino, numa tarde de sábado. “Por conta do clima novidadeiro que existia na região, com a entrada de um primeiro telejornal regional, o encontro dos barcos, que sempre acontece por volta das 16 horas, acabou acontecendo quase duas horas depois, para que a emissora pudesse chegar à cidade e registrar a festa”, conta o Dr. Queiroz. O atraso serviu como aprendizado, e a festa hoje mantém respeitado o seu horário habitual.


Recentemente, o programa Terra da Gente, também da EPTV, registrou a dança da catira, que acontece todos os anos durante a Festa do Divino (esta festa, realizada há 178 anos, ininterruptamente, é a que conta com maior presença e difusão na mídia regional).


Folclore e poder


O professor Adolpho Queiroz considera que o poder público municipal corteja o folclore como instrumento de aproximação com a sociedade, especialmente as classes populares.


Por iniciativa do poder público, através da Secretaria local de Cultura, vários livros têm sido impressos para difundir histórias e costumes. Através dele também — via poder Legislativo — vários folcloristas foram agraciados com o título de “Cidadão Piracicabano”. E há até uma praça, no bairro Vila Rezende, chamada “Praça do Parafuso”, em homenagem a um dos maiores cantadores da cidade.


A morte de Nhô Serra, em 1997, manteve a marca deste estreitamento. Seu corpo foi velado na Câmara Municipal da cidade.


O vereador Moacir Siqueira — eleito pelo PTB, depois transferido para o PT do B— é um dos mais votados da cidade, realizando seus comícios, via de regra, à base dos cantos do cururu e do desafio. Siqueira é candidato agora, em 1998, a deputado estadual pelo seu partido.


Participando dos comícios de ontem e hoje, os cururueiros invariavelmente se engajam em campanhas políticas, fazendo do seu oficio um elo de aproximação entre os candidatos e a sociedade. “A marca da comunicação informal que transmitem consegue fácil identificação com a população letrada ou não, visto que é um tipo de mensagem de fácil assimilação”, explica o professor Queiroz.


Ele conclui: “Homens simples do povo, transformados em artistas populares, ganham proeminência e poder político. Intelectuais locais, ao registrar adequadamente estas manifestações, contribuem para a sua compreensão e difusão. E os meios locais e regionais de comunicação, ao exibirem e transmitirem pelas páginas impressas, pelas ondas do rádio e sinais de televisão estas manifestações, dão-lhes o necessário realce para que prosperem, ganhem adeptos e representatividade”.


Patrícia Ozores Polacow é jornalista e mestranda em Comunicação Social da UMESP,


Fonte: Enfolkcom, outubro de 1998, pp. 20–24. Revista produzida por alunos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com a cobertura da 1ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada de 12 a 14 de agosto de 1998.


Esta republicação integra o acervo histórico da Rede Folkcom. A data de publicação deste post corresponde à abertura da conferência, em 12 de agosto de 1998.


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