
Lá vem os cão! O corpo como meio de uma tradição aonde só não se suja quem não vai
Anamelia Ferreira Da Rocha
2021
Danillo Silva Barata
Orientador(a):
O fenômeno da cultura popular protagonizado pelos Cão, que acontece anualmente durante os festejos em louvor ao Senhor do Bonfim em Muritiba, cidade localizada no recôncavo baiano, pretende ser compreendido através da dinâmica que acontece no interior das Lavagens, onde as relações estabelecidas por um corpo histórico e político, que se pinta de óleo queimado e pó xadrez preto, torna-se, ao mesmo tempo, um manifesto e um ato de resistência entre a tradição e a contemporaneidade. O jogo, que aqui recebe o nome de "foge-pega-suja", traz na naturalização e cristalização de suas expressões a possibilidade de identificação e o reconhecimento da figura simbólica do Cão, enquanto objeto e sujeito desta pesquisa. O corpo aqui é pensado e compreendido como meio comunicacional, diante do qual se é possível localizar o processo narrativo midiático performático e o sentido de espetacularidade, que vem sendo atribuído a esta expressão da cultura popular baiana conhecida como ―Lavagem dos Cão‖ ao longo dos anos, desde sua primeira aparição, na década de 80, até os dias atuais. Empreitar uma tentativa de compreender os processos motivacionais que levam homens e mulheres a ―saírem de Cão‖, é mergulhar em um sistema simbólico que engendra múltiplos significados, destacando os corpos pintados de óleo que se movimentam como o meio pelo qual a tradição existe, buscando construir um lugar de diálogo com e entre a cultura popular, a performance e a comunicação social. O percurso teórico tem seu corpus construído pelatríade Folkcomunicação Cinética - Performance Cultural - Etnocenologia, que serve de norte para que se estabeleça os territórios e as fronteiras do pretendido estudo. A Folkcomunicação ampara o estudo sobre a manifestação Lavagem, enquanto que a Etnocenologiaapoia o olhar que se volta para entender como as corporalidades se tornam o meio pelo qual o fenômeno comunicacional se faz existir pelas ruas por onde passam. Já aPerformance Cultural dialoga com a investigação e reflexão sobre quem são os Cão e como as narrativas em fluxo se inscrevem antes, dentro e durante o jogo relacional do ―foge-pega-suja‖. Intenciona-se com este estudo compreender a experiência compartilhada entre os brincantes, que são os guardiões da tradição, e os populares durante as Lavagens dos Cão. Tomando o conceito de performance como uma instância fronteiriça entre arte e a vida cotidiana, compreende - se que os fenômenos se inscrevem no tempo e no espaço, no aqui e no agora, ao vivo, onde tudo acontece. A dinâmica narrativa escrita pelo corpo no jogo deve ser aqui compreendida no sentido semiológico, tomando o conjunto de signos simbólicos (verbais e gestuais) e icônicos (imagéticos), que atrelados às percepções captadas pelo aparato sensorial cognitivo, conduzem a experiência da corporeidade; tanto a estética, que é compartilhada com os espectadores que assistem a Lavagem passar, quanto a ritual, que é comungada com aqueles que, acompanhando a Lavagem, se tornam participantes ao jogar o jogo do foge-pega-suja com os Cão, cientes que só não se suja quem não vai. Através das interações e demandas sociais que acontecem nesses lugares, e diante da pluralidade de símbolos e significados que se apresentam e se escond em no jogo dialético do ―brincar‖ social, encontramos um corpo que não é apenas suporte estático coberto de óleo e tinta, passando assim de um corpo objeto para um corpo sujeito que atua; que afeta e é afetado; que interage; que transforma o indivíduo e o coletivo onde se insere e é transformado por ele, travando um diálogo entre a cultura popular e a comunicação; que se torna trajeto da experiência performática.
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