O que é Folkcomunicação? Conheça esta teoria legitimamente brasileira
- Andriolli Costa
- 13 de jun. de 2023
- 4 min de leitura

A Folkcomunicação é uma teoria que estuda e analisa as estratégias comunicacionais de grupos marginalizados. São pessoas que não possuem acesso direto aos grandes veículos de massa, mas que encontram na cultura suas próprias maneiras de falar sobre o tempo presente, transmitir e circular informações.
A teoria foi proposta pelo jornalista, sociólogo e pesquisador Luiz Beltrão, em sua tese de doutorado defendida na Universidade de Brasília (UnB) em 1967. Curiosamente, Beltrão é tido como o primeiro Doutor em Ciências da Comunicação do Brasil. Natural de Olinda, em Pernambuco, foi no estado em que se inicia na imprensa. Ocupa cargos em diversos veículos, tendo se tornado inclusive líder sindical da categoria. No entanto, nunca se limitou à prática sem reflexão, consolidando seu pensamento no livro Iniciação à Filosofia do Jornalismo lançado em 1959.
Na obra, já encontramos sua visão peculiar e expandida sobre o jornalismo – que era desvinculada do surgimento do próprio jornal. Para Beltrão, os trovadores, bardos, profetas, eram todos jornalistas de sua época. Todos eram agentes responsáveis por difundir a informação sobre a atualidade em um tempo em que não existia a comunicação de massas. Um lastro do que viria a ser a folkcomunicação anos depois.
Primeiros anos
No início da década de 1960, Beltrão atua como professor em Pernambuco, na Paraíba e tem passagens pelo Equador. Em 1963, cria o Instituto de Ciências da Informação, o primeiro centro brasileiro de estudos acadêmicos sobre os fenômenos midiáticos. Seu pioneirismo prossegue: foi também ele o editor do primeiro periódico científico ligado a temas comunicacionais, a Comunicações e Problemas.
E foi justamente nela; no primeiro exemplar da revista, que Beltrão publica o texto seminal da teoria da Folkcomunicação. O artigo se chamava “O Ex-voto como veículo jornalístico” e falava das ofertas aos templos, em agradecimento às graças recebidas, como um canal de comunicação coletiva. Uma igreja com uma série de ex-votos com diplomas, por exemplo indicam como o acesso básico à educação, apesar de direito constitucional, é tão fora de norma na comunidade que é digno de preces ao divino.
É como ele mesmo expõe em uma entrevista posteriormente: “O que significa o frevo, por exemplo? O que significa o samba? O que significa uma procissão? E a Capela dos Milagres, onde são depositados os ex-votos? Seria só Deus, religião, ou seria também uma dose de desespero e protesto? Isso aí me levou a um estudo mais circunstanciado”.
Convidado pelo governo Castelo Branco, em plena ditadura, assume a direção da Faculdade de Comunicação da UnB. É nela que defende a sua tese de doutorado onde propõe, por fim, a Folkcomunicação; “o processo de intercâmbio de informações e manifestações de opiniões, ideias e atitudes de massa através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore”. A tese pioneira, no entanto, é censurada pelos militares e sua obra perseguida por ser tida como resultado de um pensamento Comunista.
Folkcomunicação
Há duas grandes inspirações para Beltrão. A primeira foi a obra do pesquisador baiano Edison Carneiro, de onde entende folclore como estratégia e resistência, tribuna e comentário do povo e não apenas coletânea de curiosidades – como era visto até então. A segunda é a teoria da “comunicação em duas etapas” (two-step flow), proposta por Paul Lazersfeld.
O estudo de Lazersfeld na campanha presidencial dos Estados Unidos nos anos 1940 mostrou a existência de uma figura que fazia a mediação entre a comunicação de massas para um círculo imediato. Era um líder de opinião com letramento midiático para absorver as informações e traduzi-las para a sua comunidade.
Beltrão percebe o mesmo e propõe a figura de um agente folkcomunicação; um líder a quem a comunidade procura e respeita para se orientar e informar. Essas figuras podem ter destaque seja por antiguidade, seja pelo deslocamento. Um agente folk pode ser um motorista de caminhão, um caixeiro viajante, alguém que circula de um lado ao outro trazendo as notícias de várias paragens. Ou pode ser um velho benzedor que, mesmo analfabeto, guarda uma biblioteca de conhecimentos em sua memória.
Os veículos de comunicação popular também chamavam muita atenção do pesquisador. Entre eles os folhetos de cordel, tão comuns no Nordeste, e de onde circulavam informações que iam da política local à pauta internacional. Basta ver, por exemplo, o folheto “O Homem na Lua”, de Azulão, que narra em plenos anos de 1969 os primeiros passos de Neil Armstrong no satélite terrestre.
“Num jornal de Pernambuco
Eu li numa reportagem
Falando nos Astronautas
Que fizeram essa viagem
Quando exaltaram seus feitos
Com destermor e coragem
Porque a Apolo 11
Pesa oito toneladas
Só levou três passageiros
Nessa enfadonha jornada
Sem saberem se na lua
Tinham acolhida e pousada”
O poeta popular lia jornais para se informar e escrever sobre a atualidade em seus cordéis que eram lidos em voz alta e recitados na rua para a população. Informações mediadas em duas etapas. Folkcomunicação.
Apenas em 2001, quase meio século depois, a pesquisa de Beltrão é publicada na íntegra dando origem ao livro Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias (Porto Alegre, Editora da PUCRS, 2001),
Folclore e além
Em sua etimologia, a palavra folk significa povo e lore significa conhecimento. Júnia Martins, secretária na diretoria da Rede Folkcom, diz que a Folkcomunicação é a junção das culturas populares, da comunicação popular e do folclore. “Tudo que é conhecimento do povo, como técnicas, tecnologias, saberes, fazeres, tudo que for relacionado a esse conhecimento popular é folclore. E o folclore hoje é equiparado como cultura popular, e quando ele for utilizado como mídia de um indivíduo ou de um grupo marginalizado socialmente, estaremos falando de Folkcomunicação”, afirma.
Júnia diz que pensar em Folkcomunicação é analisar a cultura popular de um indivíduo ou de um grupo funcionando como mídia. Para exemplificar, ela cita uma bordadeira que, em seu trabalho, mostra o cotidiano e o conhecimento no qual são inerentes ao seu dia a dia. Ela diz que enquanto esses bordados estiverem sendo vendidos, estará acontecendo um processo de comunicação, pois por meio deles, a bordadeira estará expressando alguma coisa.
Beltrão morreu no dia 24 de outubro de 1986, mas, os estudos sobre Folkcomunicação permanecem vivos até hoje.
Texto por Andriolli Costa, Eduarda Valadares, Fernanda Amordivino e Klêisila Rocha
Revisão e edição Andriolli Costa





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