Joseph Luyten: “O Japão começou copiando radinhos, mas qual é a marca do seu aparelho de som?”
- Andriolli Costa
- 28 de jul.
- 7 min de leitura
O limburguês nipo-brasileiro dr. Joseph Luyten dirige a Teikyo
Publicado originalmente no Observant 25 — 7 de março de 1991
Texto: Jacques Herraets
Foto: Franco Gori

Por enquanto, o dr. Joseph Luyten é apenas reitor do Junior College da Universidade Teikyo. Espera-se que em breve ele também possa se apresentar como reitor do braço universitário do grupo educacional nipo-americano que se instalou em Maastricht. Para a Teikyo, Luyten era a pessoa ideal para cuidar dos interesses científicos. Ele é holandês, cresceu no Brasil e trabalhou durante sete anos no ensino e na pesquisa universitários no Japão.
Quando Joseph Luyten tinha 11 anos, seus pais fecharam a porta da casa em Brunssum e partiram para construir uma nova vida no Brasil. Joseph, o quinto filho, teve mais benefícios do que dificuldades com as diferenças culturais. A antropologia cultural viria a se tornar sua especialização científica.
Na universidade, cursou uma formação após a outra: jornalismo, administração de empresas e letras, até obter o doutorado em Ciências da Comunicação. Foi nomeado professor da Universidade de São Paulo, onde trabalhou ao lado da esposa até que ambos, em 1984, fossem convidados a passar três anos no Japão.
A aventura japonesa, prolongada por mais quatro anos graças a um período como professor visitante na Universidade de Tsukuba, acabou levando-o de volta ao seu país natal. Por intermédio do irmão, que vivia nos Países Baixos, soube que a Universidade Teikyo havia comprado um castelo em Ulestraten para instalar ali um Junior College destinado a estudantes japonesas.
Luyten ofereceu seus serviços e agora se encontra no castelo, próximo a uma ruidosa betoneira, aguardando as primeiras 150 jovens, que chegarão dentro de pouco mais de um mês. Enquanto isso, recebe candidatos a professores que, segundo ele, são avaliados por sua capacidade de “mergulhar”.
Não literalmente no lago de carpas do castelo, mas figurativamente, dentro da sala de aula: “Eles precisam saber lidar com o fato de que tudo será diferente para as estudantes: a língua inglesa e, sobretudo, o ambiente europeu. O professor deve começar com muita calma, mas depois perceberá que está diante de excelentes alunas.”
Quando lhe perguntam se prefere ser apresentado como brasileiro ou como holandês, ele dá uma resposta surpreendente: “Sou limburguês.”
Museu
No Japão, Luyten trabalhou inicialmente como pesquisador visitante no Museu Nacional de Etnologia, em Osaka. O museu foi uma criação da Universidade de Kyoto. Ao contrário do que o nome poderia sugerir, não havia sido construído para exibir curiosidades de outras culturas, mas para estudar o desenvolvimento da sociedade ocidental.
Luyten explica: “No andar térreo há, de fato, objetos de outros países. Como produto típico da cultura holandesa, existe, por exemplo, um realejo de rua de Amsterdã. Mas, nos andares superiores, cem cientistas com cargos vitalícios trabalham no estudo das ciências sociais ocidentais.
Agora que percebem que sua sociedade está passando de uma condição estática para uma condição dinâmica, cada vez mais japoneses sentem como uma deficiência o fato de nunca terem se dedicado às ciências sociais. Oficialmente, diz-se que esse grupo de pesquisadores estuda como outras sociedades se desenvolveram. Na realidade, eles estão adaptando os conceitos e os métodos das ciências sociais para que possam ser utilizados no Japão.”
Segundo Luyten, a cultura japonesa possui uma orientação particularmente estática. Não está voltada para a inovação, mas para a renovação, a repetição e o aperfeiçoamento do antigo.
“Um estudante de literatura estuda os poetas antigos copiando repetidamente os ideogramas de seus poemas. Dessa forma, aprende como o poeta escreveu, em que ponto levantou o pincel antes de continuar. Assim, deve aprender a aperfeiçoar o passado.”
“Nós sabemos mais”
Apesar disso, Luyten considera perfeitamente possível realizar pesquisas científicas de excelência em um país que parte desse princípio: “Estamos acostumados a pensar que, graças à nossa ciência, sabemos tudo melhor. O inconveniente é que, de repente, nos vemos diante de um país onde as pessoas dizem: ‘Afinal, nós é que sabemos mais’.
Os estudantes japoneses podiam escutar com grande interesse tudo o que eu dizia durante as aulas. Então assentiam, sorriam educadamente e diziam: ‘Acreditamos no que o senhor diz, mas, veja bem, nós somos japoneses’.”
A dificuldade — para não dizer impossibilidade — de um ocidental penetrar na sociedade japonesa é descrita nos livros de Karel van Wolferen, The Enigma of Japanese Power, e de Ian Buruma, The Japanese Mirror. Os autores se incomodam com o comportamento xenófobo dos japoneses, que não aceitariam estrangeiros em seu meio.
Luyten reconhece o sentimento descrito pelos escritores:“Van Wolferen e Buruma escreveram seus livros com raiva. É uma reação de sobrevivência perfeitamente compreensível quando alguém é excluído dessa maneira. Minha família e eu passamos pela mesma experiência, embora tenhamo s procurado nos adaptar o máximo possível.
Seria possível imaginar que, em uma instituição científica dedicada ao estudo da cultura ocidental, as coisas seriam diferentes. Mas não foi tão fácil. No primeiro ano, eu já me dava por satisfeito quando alguém me cumprimentava.
Isso mudou quando descobriram que eu havia publicado muito. Depois que alguns de meus trabalhos foram traduzidos, todos se tornaram repentinamente muito simpáticos. De uma hora para outra, várias pessoas passaram a perguntar se também poderiam traduzir alguma coisa que eu havia escrito.
Foi então que descobri o que havia por trás daquilo. Um cientista japonês não sente necessidade de publicar porque, ao se expor publicamente, fica sujeito a críticas. Quando você traduz o trabalho de outra pessoa, não corre esse risco e, ainda assim, seu nome aparece na revista.
Realiza-se muita pesquisa, mas publica-se muito pouco. Os resultados são divulgados com extrema cautela. Um artigo só é publicado quando existe a certeza de que não será criticado. Mesmo assim, colocam-se tantos nomes quanto possível como autores, para impedir que uma eventual crítica seja dirigida a uma única pessoa. No final, todo o grupo assina, com o chefe em primeiro lugar. Todos se prendem a essa pirâmide.”
O melhor sistema educacional
Luyten considera o sistema educacional japonês o melhor do mundo. Sua opinião contrasta com a de Van Wolferen, que vê esse sistema mais como um instrumento para reprimir qualquer inclinação ao desenvolvimento pessoal do que como uma tentativa de estimular a criatividade.
Luyten reconhece, por experiência própria, as objeções apresentadas por Van Wolferen, mas lhes atribui outro significado: “Nossas filhas frequentavam uma escola japonesa comum. Os pais precisavam conversar regularmente com o professor sobre o desempenho dos filhos. Certa vez, o professor nos disse que nossas filhas eram muito gentis e esforçadas, mas não conseguia entender por que elas não se saíam melhor nas aulas de desenho.
Ele nos mostrou uma exposição de trabalhos. Todos os desenhos eram exatamente iguais, com exceção de dois: os de nossas filhas. Você é considerado bom quando consegue repetir ou copiar perfeitamente alguma coisa.
Se aplicarmos nossos próprios critérios, perguntaremos que tipo de sistema é esse, no qual os alunos, depois de dez anos de aulas de inglês, conhecem Shakespeare quase de cor, mas não são capazes de dizer ‘bom-dia’.
O objetivo do ensino japonês é desenvolver a capacidade de adquirir conhecimento e conservá-lo na memória. Desde a iluminada Era Meiji, no século XIX, existe a convicção de que, para se desenvolver, o Japão precisa aproveitar plenamente seu único recurso natural: a mente humana.
Os japoneses aprendem muito bem com a experiência dos outros. No Ocidente, isso costuma ser visto como cópia, mas, para eles, copiar é uma arte. Para selecionar o que existe de melhor em toda parte, é preciso saber muito e ter a intenção de fazer ainda melhor.
Depois da guerra, eles começaram produzindo radinhos baratos. Mas responda com sinceridade: qual é a marca do aparelho de som que você tem em casa?” Ainda assim, Luyten retirou as filhas da escola quando elas chegaram à segunda metade do ensino médio. É nessa fase que começa o chamado examination hell, o “inferno dos exames”, que deve conduzir os estudantes às melhores universidades.
Quem consegue ingressar em uma boa universidade, geralmente com a ajuda de cursos noturnos preparatórios, pode ter sacrificado os melhores anos da juventude, mas garante o próprio futuro.
Ao terminar seu contrato de três anos em Osaka, Luyten foi contratado como professor da Universidade de Tsukuba. Ali pôde observar com os próprios olhos como os estudantes aproveitam o período universitário para desfrutar um pouco da vida:
“O ritmo era muito lento. Para um estrangeiro, isso pode ser irritante, porque ele permanece ali apenas durante alguns anos. Felizmente, nos cursos de pós-graduação, o ritmo voltava a ser muito mais intenso.
Também era possível ver como os estudantes dos últimos anos mudavam repentinamente. Cortavam os cabelos compridos, vestiam um terno elegante e começavam a caminhar com a postura perfeitamente ereta. Então você sabia que uma empresa os havia visitado para recrutá-los, um ou dois anos antes do fim do curso.
Oficialmente, ninguém deveria saber, mas a empresa passava a pagar os custos dos estudos e, em alguns casos, ainda os presenteava com uma viagem à Europa. Depois, nos primeiros anos de trabalho, começava a verdadeira formação: a lavagem cerebral realizada pela empresa.”
Mulheres
A condição para receber esse tipo de tratamento, porém, era ser homem: “A sociedade japonesa é completamente orientada para os homens. Os homens estão destinados a construir uma carreira, enquanto as mulheres devem cuidar dos filhos.
Um homem nunca deve se casar com uma mulher mais inteligente do que ele, pois isso seria humilhante. Por isso, uma mulher inteligente tem menos chances de se casar quando, por exemplo, demonstra sua inteligência por meio de uma boa formação acadêmica.
É comum ver mulheres escolhendo universidades de classificação inferior, embora seus resultados nos exames lhes permitissem frequentar instituições muito melhores. Elas sabem que precisam estar casadas por volta dos 25 anos.
Até essa idade, trabalham. Depois, são dispensadas com uma gratificação ou podem continuar por algum tempo, até esperarem o primeiro filho. Por isso, muitas jovens escolhem uma formação mais curta, como o Junior College de dois anos que estamos abrindo aqui. Elas chegam aos 18 anos, passam um ano na Europa e depois estudam mais um ano no Japão. Dessa forma, ainda lhes restam cinco anos para aproveitar um pouco a vida.”




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