Do Brasil para o mundo: livro em inglês apresenta fundamentos e novos caminhos da Folkcomunicação
Em entrevista conduzida por Claudiene Costa e Élmano Ricarte, Marcelo Pires de Oliveira reconstrói projeto de tradução iniciado em 2017 e explica como a publicação pretende ampliar a circulação internacional da teoria brasileira
A dificuldade de encontrar textos sobre Folkcomunicação em inglês motivou um projeto que atravessou oito anos de seleção, tradução e revisão. O resultado foi The Folkcommunication Theory, primeira coletânea dedicada a apresentar de maneira sistemática, em língua inglesa, os fundamentos e os desdobramentos contemporâneos da teoria criada por Luiz Beltrão.
Publicado em 2025 pela Pontes Editores, o livro reúne 15 textos de 20 pesquisadores. A organização é de Marcelo Pires de Oliveira, Isaias Francisco de Carvalho, Guilherme Moreira Fernandes e Lawrenberg Advíncula da Silva.
Em uma entrevista realizada integralmente em inglês, Marcelo apresentou a publicação e conversou sobre os desafios de traduzir conceitos desenvolvidos no Brasil. A conversa foi conduzida por Claudiene Costa, então secretária da Rede Folkcom, e Élmano Ricarte, que atuava na Diretoria de Relações Internacionais.
Mais do que divulgar um novo título, o encontro discutiu o esforço coletivo necessário para levar uma teoria brasileira ao público internacional sem apagar sua origem, sua história e as particularidades culturais das quais ela nasceu.
Uma lacuna percebida em 2017
A iniciativa começou em 2017, quando os organizadores perceberam a escassez de bibliografia em inglês sobre a Folkcomunicação. Embora a teoria já estivesse consolidada no Brasil e mantivesse diálogos com pesquisadores de países latino-americanos e europeus, a barreira linguística ainda dificultava seu acesso por estudantes e professores do mundo anglófono.
Segundo Marcelo, a primeira tentativa de reunir textos encontrou uma resposta tímida. Poucos pesquisadores estavam preparados para produzir diretamente em inglês, e a tradução de trabalhos já publicados exigiria recursos, domínio conceitual e uma metodologia capaz de preservar os sentidos construídos pelo campo ao longo de décadas.
O grupo decidiu continuar. Além dos textos fundadores, os organizadores procuraram trabalhos que mostrassem as tendências mais recentes da pesquisa folkcomunicacional. A intenção não era somente explicar o que Luiz Beltrão havia proposto, mas demonstrar como diferentes gerações atualizaram a teoria e a colocaram em diálogo com novos objetos e problemas.
O projeto tornou-se uma parceria entre a Rede Folkcom, o Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e o Programa de Pós-Graduação em Letras: Linguagens e Representações da instituição.
A participação de estudantes de graduação com domínio da língua inglesa foi decisiva para formar a equipe de tradução. Professores e estudantes trabalharam conjuntamente na preparação dos textos, combinando formação linguística e conhecimento teórico.
Traduzir conceitos, não apenas palavras
Marcelo explicou que o trabalho foi desenvolvido em três etapas. A primeira correspondia à tradução inicial. Em seguida, os textos passavam por uma revisão colaborativa, envolvendo tradutores e supervisores. A etapa final procurava harmonizar os capítulos para que fossem compreendidos como partes de uma mesma obra.
Esse processo exigiu a construção de um vocabulário especializado. Expressões como Folkcomunicação, folkmídia, agente folkcomunicacional e ativismo midiático não poderiam ser substituídas automaticamente por palavras aparentemente equivalentes em inglês. Cada decisão precisava considerar a história dos conceitos, os usos já consolidados pelos pesquisadores e as diferenças entre a realidade social brasileira e os contextos nos quais o livro passaria a circular.
O desafio era produzir textos acessíveis a leitores que nunca tiveram contato com a teoria sem reduzir sua complexidade. A tradução, portanto, tornou-se também um trabalho de interpretação, revisão conceitual e construção coletiva de conhecimento.
Para Marcelo, a publicação expressa um compromisso com a acessibilidade da Folkcomunicação. O objetivo é permitir que estudantes e pesquisadores de outros países conheçam a contribuição brasileira para o estudo dos processos comunicacionais produzidos por grupos populares e socialmente marginalizados.
Dos autores fundadores às questões contemporâneas
A organização do livro foi outro ponto discutido durante a entrevista. Os textos estão distribuídos em três partes: Founding Fathers, Dialogues e Interfaces. A primeira seção reúne trabalhos de pesquisadores que estabeleceram as bases do campo. Luiz Beltrão aparece como criador da teoria, acompanhado por Roberto Benjamin, Joseph M. Luyten e Osvaldo Meira Trigueiro. A publicação também inclui um prólogo de José Marques de Melo sobre Jornalismo, opinião pública e Folkcomunicação.
Os capítulos permitem acompanhar a formação do pensamento folkcomunicacional: dos sistemas de comunicação identificados por Beltrão às atualizações promovidas por pesquisadores que observaram as transformações das culturas populares e suas relações com os meios de comunicação.
A segunda parte, Dialogues, apresenta aproximações entre a Folkcomunicação e outras tradições das Ciências Humanas e Sociais. Entre os temas estão as relações entre Luiz Beltrão e Paulo Freire, a influência do funcionalismo, a noção de marginalidade e a inserção da teoria em debates sobre ativismo e políticas públicas.
A seção demonstra que a Folkcomunicação não se desenvolveu isoladamente. Ao longo do tempo, seus pesquisadores dialogaram com diferentes perspectivas para compreender como sujeitos populares interpretam informações, constroem redes, disputam visibilidade e interferem na vida social.
A terceira parte, Interfaces, volta-se às possibilidades contemporâneas da teoria. Os capítulos discutem sua presença na América Latina e suas relações com Jornalismo, arte religiosa, modernismo e manifestações culturais.
Durante a entrevista, Marcelo ressaltou que a Folkcomunicação não deve ser entendida apenas como uma teoria voltada ao folclore ou às formas tradicionais de cultura popular. Seu instrumental também permite investigar processos comunicacionais do século XXI, incluindo a atuação de grupos marginalizados nos ambientes urbanos, rurais e digitais.
Élmano Ricarte chamou atenção para essa atualidade. Novos contextos tecnológicos permitem que grupos historicamente excluídos tentem participar da esfera pública e fazer circular suas próprias narrativas. Compreender essas disputas exige atualizar a teoria sem abandonar as questões formuladas por Beltrão.
Um percurso de internacionalização
A publicação em inglês constitui uma nova etapa de um processo de internacionalização construído gradualmente pela Rede Folkcom. Um dos primeiros movimentos ocorreu na América Latina, com a participação de pesquisadores nos espaços da Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação (Alaic). A aproximação com pesquisadores chilenos também resultou em encontros e publicações em espanhol, incluindo uma coletânea bilíngue dedicada aos diálogos entre Brasil e Chile.
Outra frente foi estabelecida em Portugal. A parceria com a Universidade do Porto possibilitou a realização de conferências internacionais e ampliou a presença da Folkcomunicação em circuitos acadêmicos europeus.
Para Marcelo, a publicação de The Folkcommunication Theory representa a passagem seguinte desse percurso: alcançar pesquisadores que utilizam o inglês como língua de circulação científica.
A aproximação com professores como Joseph Straubhaar, da University of Texas, e Jack A. Draper III, da University of Missouri, ajudou a construir essa ponte. Straubhaar mantém contato com a Rede Folkcom desde o início dos anos 2000 e participou de diferentes conferências da associação.
Draper escreveu o prefácio da coletânea. Depois de ler os textos, destacou a qualidade do trabalho de tradução e o potencial da obra para apresentar a teoria a estudantes e pesquisadores dos Estados Unidos e de outros países.
Essas relações não pretendem retirar da Folkcomunicação sua condição de teoria brasileira e latino-americana. Ao contrário: sua contribuição internacional está justamente na capacidade de apresentar problemas, conceitos e formas de conhecimento formulados a partir da experiência histórica e cultural do Brasil.
Um ponto de partida
O lançamento não encerrou o trabalho iniciado em 2017. Durante a entrevista, Marcelo revelou que outros textos relevantes ficaram de fora do primeiro volume. A complexidade e a duração do processo obrigaram os organizadores a estabelecer limites e publicar o material que já estava concluído.
A preparação de uma segunda coletânea em inglês permanece como projeto para o futuro. Também existe a expectativa de estimular a publicação de novos artigos diretamente nessa língua e, principalmente, despertar o interesse de pesquisadores estrangeiros em utilizar e discutir a Folkcomunicação.
“É um começo”, afirmou Marcelo. A expectativa é que o livro não seja apenas recebido por leitores internacionais, mas ajude a formar novos interlocutores capazes de aplicar, questionar e ampliar a teoria em diferentes realidades.
Claudiene Costa ressaltou que o acesso gratuito à edição digital é parte importante dessa estratégia. Ao remover a barreira financeira, a publicação pode ser utilizada em disciplinas, grupos de pesquisa e projetos de formação dentro e fora do Brasil.
O livro está disponível em duas versões. O e-book pode ser acessado gratuitamente no site da Pontes Editores, enquanto a edição impressa pode ser adquirida na página da editora.
Uma teoria dedicada ao acolhimento
Nos minutos finais da entrevista, Marcelo relacionou a internacionalização a uma característica que considera central na própria Rede Folkcom: a disposição para acolher novos pesquisadores.
“Estudamos os marginalizados; por isso, não marginalizamos ninguém”, resumiu.
A frase atribui ao campo uma responsabilidade que ultrapassa a circulação de seus conceitos. Uma teoria criada para compreender sujeitos afastados dos sistemas dominantes de comunicação precisa também construir espaços científicos abertos ao diálogo, à diversidade de experiências e à participação de novas gerações.
Traduzir a Folkcomunicação para o inglês significa, nesse sentido, mais do que transportar textos de uma língua para outra. Significa convidar novos leitores para uma conversa iniciada no Brasil, mas capaz de atravessar territórios, comparar realidades e formular perguntas sobre quem pode comunicar, quem consegue ser ouvido e quais conhecimentos ainda permanecem à margem.
Serviço
Livro: The Folkcommunication Theory
Organização: Marcelo Pires de Oliveira, Isaias Francisco de Carvalho, Guilherme Moreira Fernandes e Lawrenberg Advíncula da Silva
Prefácio: Jack A. Draper III
Editora: Pontes Editores
Ano: 2025
E-book: ISBN 978-85-217-0632-8
Edição impressa: ISBN 978-85-217-0633-5





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