[Clipping] Negociação entre o massivo e o popular
- Andriolli Costa
- há 5 dias
- 5 min de leitura
Por Raphaela Ramos
No final da década de 1960, o professor Luiz Beltrão cunhou o termo folkcomunicação para tratar da relação entre a cultura popular e os meios de comunicação e buscar a participação dos setores excluídos na mídia. O tema aparece no cotidiano das pessoas sem chamar muita atenção. O fato de artesões cariocas venderem nas ruas a escultura mostrada na abertura da novela Insensato coração interessa, e muito, aos estudiosos da folkcomunicação, assim como outra produção global, Cordel encantado, que tem como mote a cultura popular. Segundo Severino Lucena Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba, o tempo atual é de troca entre os dois universos. Ao lado de outros acadêmicos, ele participou da XIV Conferência Brasileira de Folkcomunicação (Folkcom), que se encerra hoje.
Desde a última quarta, o evento, promovido pela Faculdade de Comunicação Social (Facom) da UFJF e pela Faculdade Estácio de Sá, debate o artesanato como processo comunicacional. Duas exposições, das cooperativas Lixarte e a Associação Pró-saúde Mental Trabalharte, revelaram como a arte local é usada para expressão de pensamentos e ações. Esta edição da Folkcom também comemora os 40 anos de publicação da obra Comunicação e folclore (1971), de Luiz Beltrão. Em paralelo, figuras locais são homenageadas: o ex-locutor de rádio José de Barros, o professor e dramaturgo José Luiz Ribeiro e o pesquisador Antonio Henrique Weitzel. O IX Encontro Regional de Comunicação foi promovido pela Facom no mesmo período.
Pós-doutor pela Universidade de Aveiro (Portugal), Severino Lucena Filho, que ministrou o curso Folkcomunicação e novas tecnologias, conversou com a Tribuna sobre cultura popular, internet e TV. Em sua camisa, referências a Lampião. Prova de que a mistura que ele defende está mesmo estampada em todos os lugares.
Tribuna – Ainda podemos falar em marginalizados no que se refere aos meios de comunicação? Afinal, a TV e a internet parecem estar em todos os lugares.
Severino Lucena Filho – Recomendo que não seja utilizado o termo marginalizado, já que ele traz uma carga simbólica bastante negativa. Prefiro excluído. Muitos são excluídos, pois não encontram espaço para manifestar suas inquietações culturais e pessoais, seus desejos e clamores por melhores condições de vida. A mídia não oferece a essas pessoas oportunidade de expressão.
– Mas o que mudou depois da ampliação do acesso à tecnologia?
– Esse processo é irreversível. Porém, um universitário, por exemplo, utiliza as ferramentas tecnológicas como uma estratégia. Tem objetivos bem definidos. Já os grupos de minoria usam sim o celular, a internet, o ciberespaço, porém, com outros fins, inclusive o de simplesmente obter informação. Nem sempre a comunicação é o objetivo primordial. Para que haja comunicação, é necessário haver interação entre emissor e receptor. Mas a interação na internet é diferente de quando alguém vai à feira popular, encontra o cantador falando sobre a morte do Osama bin Laden. Nesse caso, há uma interação mais intensa. A pessoa olha, para, escuta, aplaude. Outra coisa é ler esse caso na internet e fazer um comentário. Trata-se de uma maneira fria de expressão. Os excluídos preferem a comunicação mais interativa, como o teatro de rua, a arte urbana.
– A democracia na internet é aspeada?
– Sim. Mas sempre vai existir uma forma de revelar inquietações. Se os excluídos são paralisados pelo filtro institucional ou empresarial, que válvulas de escape utilizam? Cartazes, muros, hip-hop, canções de viola, cordel.
– O que significa o fato de alguém mandar para um programa de TV um vídeo de sua família torcendo na sala de casa?
– Nós vimos isso no último final de semana. Os meios de comunicação, por meio dos telejornais, buscam a interação. Mas é uma interação diferente da tratada pela Folkcomunicação. Quando vemos as pessoas nos jogos, nas arquibancadas, com a cara pintada, carregando bonecos e cartazes, demonstrando sua paixão pelo time, temos a manifestação do povo. A ação das tribos antes e depois das partidas também é uma forma de manifestação, embora não saudável.
– Como a cultura brasileira aparece na comunicação massiva?
– Os meios de comunicação se apropriam da cultura popular, principalmente em tempos de festejos ou em função de alguma reivindicação da comunidade. Ao mesmo tempo, os atores sociais do cotidiano se apropriam da produção televisiva. Por exemplo, no último domingo estive no Rio e vi artesões vendendo a escultura mostrada na abertura da novela Insensato coração. Por outro lado, a Coração alado, da década de 1970, buscou inspiração em um artesão de Tracunhaém, Pernambuco. Então, existe uma troca, uma negociação. O artista Antonio Nóbrega também lança mão de elementos da oralidade, dos romances e os leva para suas músicas e sua performance no palco.
– Essa troca está se intensificando no mundo contemporâneo?
– Claro. Mais do que nunca, não devemos ser apocalípticos. Os novos meios de comunicação não vão passar como um trator e destruir a cultura popular. Afinal, até hoje vemos pessoas ouvindo seu radinho de pilha. A ordem atual é mesmo a negociação entre o massivo e o popular. Não adianta ter posições radicais.
– Segundo Ariano Suassuna, em entrevista concedida ao jornal Valor Econômico, a novela da Globo Cordel encantado é uma vitória para os que defendem a aproximação entre a cultura de massa e a popular. Qual a sua opinião?
– Além desse, cito mais dois exemplos, Hoje é dia de Maria e A pedra do reino. Esses foram os três grandes momentos da atualidade nos quais a cultura popular surgiu como tema central de criações da TV. Mas essa cultura está o tempo todo nas novelas. Pode ser vista nos diálogos, nas cenas de rua, nas representações de exclusão. Destaco aqui o negro, o homossexual, a mulher solteira e o pobre, figuras sempre presentes no discurso televisivo.
– Existe uma rotulação, principalmente em relação ao nordestino?
– Sim. Isso está em todos os lugares. Em quatro bares que visitei no Rio, as pessoas não chamavam o atendente pelo nome. Diziam paraíba ou baiano, estereótipos utilizados no Sudeste e no Sul. Isso está cristalizado no cotidiano das pessoas. Não é, necessariamente, preconceito. Pode ser simplesmente uma forma de comunicação. Na TV, podemos citar como caso de rotulação a novela Senhora do destino.
– A palavra folclore está ultrapassada?
– Está desgastada. Traz uma carga preconceituosa, herança dos folcloristas tradicionais que acreditavam que a cultura do povo deveria ser trancafiada e admirada em museus. Os estudiosos atuais, como Florestan Fernandes, Roberto Benjamim e o próprio Luiz Beltrão, trouxeram novo olhar sobre o folclore. Ele é atual e dinâmico e assim deve ser visto por pedagogos, jornalistas, artistas. O folclore se reinventa, se reelabora e se refuncionaliza de acordo com a realidade. Um exemplo é o Judas da Semana Santa. O desse ano foi o Kadafi. É uma releitura. Se o Bin Laden tivesse morrido há 30 dias, seria ele. Os próprios atores sociais alteram isso de acordo com a sua percepção de mundo.


![[Clipping] Chuvisco mais uma vez em pauta](https://static.wixstatic.com/media/d9bc9e_506df8b775d7445c9e35203e8529bf07~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_735,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/d9bc9e_506df8b775d7445c9e35203e8529bf07~mv2.jpg)
Comentários