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[Clipping] Fábio Corniani - Folclore Urbano

Pesquisador participa do Intercom na Capital e mostra sua tese sobre a cultura particular dos grupos de rap e hip-hop


Publicado originalmente na Folha do Povo. Campo Grande, 06 de setembro de 2001.



Por Lizoel Costa


Para quem acha que folclore é uma manifestação típica das regiões rurais de um País, pode não estar totalmente enganado, mas peca por concebê-lo neste universo limitado. O folclore pode ter entre outras definições, a de ser uma ciência indispensável para o conhecimento social e psicológico de um povo. A origem do nome veio do arqueólogo inglês William John Thoms, que no dia 22 de agosto de 1846 empregou pela primeira vez a palavra “Folk-lore”, composta de dois vocábulos saxônicos antigos: folk, significando povo, e lore, que quer dizer conhecimento ou ciência.


O publicitário paulista Fábio Rodrigues Corniani, mestrando em FolkComunicação, que está em Campo Grande participando do congresso do Intercom, tem sua análise muito pessoal sobre o assunto. “Muita gente acha que o folclore é coisa de lugares isolados, povoados, fazendas, mas existe folclore em grandes centros urbanos. Ele acontece de outra forma. Na minha tese, eu trabalho com o universo rap e hip hop, sua dança, a parte artística, que é o grafite, e o meu foco da pesquisa, que é o canto, o rap”, explica.


De um modo mais simples, o folclore pode ser definido como a ciência que estuda todas as manifestações do saber popular. Fábio chegou à conclusão de que o Rap pode ser considerado uma manifestação folclórica.


“Dentro do estudo da Folkcomunicação, que é um estudo essencialmente brasileiro, eu peguei o repente, que é o meio falado, e cruzei com o rap, que é a mesma coisa, improviso assim como a embolada. Esse processo todo é antropofágico, pois o rap nasceu na Jamaica, foi para os Estados Unidos e chegou aqui no Brasil, sendo que em cada região tem uma característica diferente", analisa.


O folclore é encontrado na literatura sob a forma de poemas, lendas, contos, provérbios e canções, assim como nos costumes tradicionais como danças, jogos, crendices e superstições. Sua existência pode ser constatada também nas artes e nas mais diversas manifestações da atividade humana. "Os marginalizados pegaram o rap como uma das diversas formas de expressão que tiveram acesso e adaptaram para sua cultura própria. O rap que se faz no Brasil é totalmente diferente do americano", explica Fábio, fazendo entender que é nessa diferença sobre algo da mesma origem que se dá o processo folclórico de criação de uma nova realidade cultural.


História

Em 1951, por ocasião do I Congresso Brasileiro de Folclore, foi aprovada uma carta que defina essa rica atividade da cultura brasileira: “constituem fato folclórico as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular, ou pela imitação, e que não sejam diretamente influenciadas pelos círculos eruditos e instituições que se dedicam ou à renovação do patrimônio científico e artístico humano ou à fixação de uma orientação religiosa e filosófica”. A tradição popular é a chave para entender o processo.


Para Fábio, o mais importante no universo do rap é a poética que transborda de forma original e rica, toda uma realidade de vida. “Eles vivem num meio onde não existe acesso à mídia, e a única forma é a letra das suas músicas, que falam de seu meio, fazem um retrato de sua realidade, da violência, da polícia que reprime. Eu quero mostrar que todo esse processo que as periferias brasileiras sofrem é um processo de transformação folclórica”, diz, finalizando com a análise de que o rap brasileiro, por causa dessa transformação, vai ter uma cara que é só sua. Totalmente diferenciada das manifestações do gênero em outras partes do mundo.

 
 
 

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